Quando o Brasil vinha a São Paulo ver cinema

Por Ignácio de Loyola Brandão (Romancista, contista, cronista e jornalista)
Artigo do jornal Folha da Tarde de 17/04/1986. Crônica escrita no período mais decadente das salas de cinema do centro de São Paulo.
Tire uma foto da platéia do Art-Palácio numa segunda-feira, em qualquer sessão. Repita a foto na próxima segunda e vai constatar que os rostos na platéia são absolutamente os mesmos. Talvez com lugares trocados. Esta era uma anedota, que se ouvia no meio cinematográfico paulistano, em relação ao velho cinema do largo Paissandu, que conheceu dias de glória. Naquela época, os produtores disputavam o Art-Palácio aos socos, igual batalhamos hoje por um táxi, na hora do rush. Os filmes do Mazzaroppi tinham sua estréia naquela sala, com direito a refletores na rua e tudo mais. David Cardoso, então pouco mais que figurante, surgia na porta do Art-Palácio, igual o Alain Delon, trinta anos atrás, que ficava nas portas dos cinemas de Cannes, fazendo pose de James Dean. Os dois deram certo, cada um a sua maneira. Hoje, o Art-Palácio, dividido em duas salas paupérrimas, com uma projeção alimentada a velas, porque mal se enxergavam as imagens, foi fechado. E o fechamento nem foi por desejos de se melhorar, mas porque os fiscais do prefeito Jânio Quadros deram em cima e lacraram os cinemas, cheios de irregularidades.
Não é crônica nostálgica, é constatação. O que era o centro de São Paulo em matéria de cinemas, pouco mais de 25 anos atrás e o que é hoje? Nada melhor que documentar o que anda acontecendo com o cinema em geral.
São Paulo era o El Dorado, a Meca. As salas que se abriam eram comentadas, objetos de reportagens pelo país afora. Arquitetos especializados vinham ver o que se fazia por aqui. O República não tinha a maior tela do mundo (sem exageros mineiros)? E o Comodoro, não foi o único do país a projetar Cinerama e terceira-dimensão? Vinham ônibus e caravanas do Interior, e os ingressos eram para lugares numerados, comprados com antecedência. O Olido tinha uma orquestra com o maestro Rafael Pugliesi, elegante em seu fraque, a comandar os músicos. Agora, o Olido foi “salvo”, passou por uma boa reestruturação. O Ipiranga era tão sofisticado que, ainda no início dos anos 60, ali não se entrava sem gravata. Hoje tem gente de cuecas. E quem vai ver o filme no Ipiranga 2 tem de subir uma escadaria danada e enfrenta uma platéia em declive que nos obriga a descer amparados nas poltronas, senão caímos lá embaixo. Além do fato de ouvirmos o tempo inteiro o som que vem do Ipiranga 1, porque não há nenhuma vedação acústica.
______________ Cine Bandeirantes no dia de sua inauguração
O Ouro é o antigo Bandeirantes, que tinha o estilo barroco hollywoodiano, decorado com motivos indígenas e estatuetas de gente que podia ser Fernão Dias ou Paes Leme. Modificado, o Ouro se apresentou como uma rua de Vila Rica. Mas a reforma foi feita no início da decadência geral e o cinema não se sustentou muito. Agora se dedica aos pornôs, mas tem recaídas súbitas, relançando filmes como “Os 10 Mandamentos”. O sistema de som deve se espantar. Dos gemidos eróticos à voz de Deus é um salto grande, convenhamos.
O Ritz São João desapareceu, dando lugar ao Rívoli, que foi inaugurado com “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”. Ficou um ano em cartaz. Era super luxo. Fechado, retornou outra vez como Ritz, mas no subsolo de um prédio. O Rio Branco também era sala enorme, destinada aos road-shows (filmes de longa duração em cartaz). Foi acabando, acabando, e agora no local funciona uma concessionária de automóveis. Na mesma rua, o Normandie, intelectualmente sofisticado, exibia filmes franceses de categoria. Foi ali que vi “Moderato Cantabile”, de Peter Brooks, baseado em Marguerite Duras. Acabou dividido em dois, Normandie e Bretagne, antecedidos dos pomposos títulos de Palácio do Cinema. Pornôs e kung-fus (ainda existem, imaginam?) são as especialidades.
O Marrocos surgiu para o Festival de Cinema de 1954 e foi construído no melhor estilo de apoteose mental. Como não dava para fazer uma daquelas salas maluquíssimas americanas, contentaram-se em reproduzir o clima marroquino, com fontes, estrelas e meias-luas ou luas crescentes. Estrelas hollywoodianas pisaram aqueles tapetes (Von Stroheim, por exemplo), hoje gastos, manchados. Estrelissímas brasileiras subiam as escadarias para o Oscar brasileiro que era a cerimônia do Sacy. Podem dizer o que quiserem, mas nunca mais se fez uma festa igual em cinema nacional, semelhante ao Sacy. Podem criticar os métodos de escolha (mas qual método é justo, tratando-se de competição cinematográfica, onde egos são exaltadíssimos?), mas era uma festa irrepreensível, divertida, com o melhor do cinema brasileiro. Os convites eram disputadíssimos e aparecer no Sacy era sinônimo de status. De uma forma ou outra, as coisas empobreceram um pouco, quando o jornal “O Estado de S. Paulo” decidiu acabar com o prêmio. Ou talvez, o fim dele coincidisse com o momento geral de deterioração nas artes do país, ocasionada, entre outros, pelo fator político, opressão e censura.
O Coral era sala simples, sem ostentação. No entanto, tinha um charme especial, pois ali eram feitas as projeções da Cinemateca Brasileira. E como havia sessão, uma atrás da outra, a gente se alimentava de cinema, o tempo inteiro. Ali ocorreu a espantosa pré-estréia de “A Doce Vida”, do Fellini, filme chocante na época, quase um catecismo hoje. Ali, quase toquei Catherine Deneuve, diáfana, passando à minha frente, perfumadinha, com a alça do sutiã à mostra. Ali foi a estréia do “O Eclipse”, de Antonioni. O que é o Coral atualmente? Uma sala dupla, com sons vazando de todos os lados. E tome pornôs! Dante Ancona Lopes foi o idealista que “inventou” o Coral. Felizmente o Dante voltou aos tempos antigos, com aquela carga de quem ama cinema. Aí está a recuperação do antigo cine Rio, agora Cinearte 1, no Conjunto Nacional, avenida Paulista. Quem gosta de cinema já sabe: foi justíssimo o prêmio recente dado ao Dante. E foi pouco, muito pouco, pelo que ele tem feito, batalhado. Merece estátua nos cinemas paulistas.
Eu morava no interior quando o Jussara foi aberto, para exibir só filmes franceses. Famosíssimo. Também, os filmes franceses eram os únicos que mostravam os peitos das estrelas. Martine Carol, Françoise Arnoul, a própria Edwige Feuillère, tão “digna”, não mostrou os seus em “Lucrecia Bórgia”? Neste particular, o Jussara, transformado em São José, não mudou muito. Só dá pornô.
______________ Cine Metro no dia de sua inauguração
O Metro era um cinema amado, porque nos envolvia com a decoração rococó que – afirmavam – era igual no mundo inteiro. O mesmo projeto para todas as salas. Para mim, o Metro tinha outra vantagem: era dos pouquíssimos cinemas em que o banheiro era limpo. Quando me apertava no centro, entrava ali, tranqüilo. Reformado, adquiriu aquela decoração asséptica, sem graça. Dividido em duas salas, vai se mantendo.
E o Windsor? Luxo só, coube a ele a glória de exibir ao paulistano, em avant-première, o filme de um jovem baiano que assombrou o mundo: “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, do Glauber Rocha.
Marabá, o Paissandu, o Regina. Todos se esvaiando lentamente, se suportando com sexo explícito ou tentativas de bilheterias, tipo “Goonies” ou “Rambo”. Cada vez mais vazios, são a mostra de que algo se passou e as pessoas ainda não entenderam. O mundo mudou. A violência nas ruas, o preço dos ingressos, as dificuldades de trânsito, estacionamento, o surgimento da televisão, do videocassete, a mudança de costumes. Transição? O cinema tem passado por crises e tem suportado. Começo dos anos 50. O desespero bateu. Inventaram Cinemascope, terceira-dimensão, VistaVision, e não sei o que mais. O cinema sobreviveu, assimilou a televisão e serviu-se dela. E agora? Para onde vamos? Qual o caminho? Salas pequenas, público restrito, selecionado? Ou seria apenas um problema de qualidade geral?
Fotos do livro "Salas de cinema em São Paulo", de Inimá Simões.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.