Grandes empresários da exibição cinematográfica: Dante Ancona Lopez

Pesquisa, seleção e edição de texto: André Piero Gatti, Carlos Augusto Calil, Hugo Malavolta e Plácido de Campos Jr.

Dante Ancona Lopez
Criador do Cinema de Arte em São Paulo

Dante Ancona Lopez foi uma personalidade cuja marca original se encontra presente até hoje no mercado cinematográfico brasileiro. Uma verdadeira lenda, “seu Dante” - como era conhecido no meio - se manteve em plena atividade profissional por um período superior a seis décadas: não é pouca coisa, se considerarmos que o cinema é uma arte que existe há pouco mais de cem anos. Seu legado para a história do Cinema no Brasil, entretanto, ainda não foi devidamente avaliado.
Dante teve a qualidade de atuar de maneira diferenciada junto aos ramos de distribuição e exibição, o que fez com que ele viesse a se projetar entre seus colegas de profissão. Sua ação pioneira foi decisiva para a formação de um circuito de exibição que fosse capaz de atender a um público mais exigente e crítico em relação à produção fílmica como um todo.
Homem plenamente inserido em seu tempo, Dante sempre se mostrou capaz de se antecipar às transformações do meio cinematográfico e de se adaptar habilmente aos novos tempos. A sua biografia coloca-o como uma referência obrigatória para aquele que esteja minimamente interessado em compreender ou estudar o desenvolvimento da comercialização de filmes no país.
Dante nasceu em São Paulo no dia 16 de junho de 1909. Em 1912, sua família se transferiu para Roma, onde os Ancona Lopez residiram até 1921. Dante: “Moramos lá exatamente por causa das atividades jornalísticas de meu pai, Nicolau Ancona Lopez, que instalou e dirigiu a sucursal de O Estado de S. Paulo. Aí fomos surpreendidos pela Primeira Guerra e ficamos presos lá. A sucursal era instalada no mesmo andar em que morávamos e todo serviço internacional sobre a guerra saía de Roma. Meu pai era italiano. Meus primeiros estudos foram em italiano, fiquei até com sotaque. (1)”
Na volta ao Brasil, concluiu os estudos e iniciou sua carreira profissional no começo da década de 1930, ao trabalhar como publicista (2) na RKO, firma de propriedade dos irmãos Altamiro e Generoso Ponce, que representava aqui o estúdio americano homônimo. Seu primeiro trabalho como programador regular de uma sala se deu no cine Áurea, na rua Aurora.
O conhecimento adquirido no campo da exibição animou-o a concretizar um projeto ousado: a criação do cine Coral em 1951. Este cinema se caracterizou pelo fato de ser a primeira experiência bem-sucedida na implantação de uma sala totalmente voltada para o público amante do chamado film d’art. A iniciativa inovadora do Coral serviu de modelo para a instalação de outras salas de arte pelo resto do país, nos anos que se seguiram.
O Coral, sob a tutela da programação de Dante Ancona, serviu como espaço de divulgação da cinematografia internacional emergente nos anos 1950, onde se pode destacar a geração do pós-neo-realismo italiano e as produções oriundas do leste europeu, entre outras. O Coral se consagrou como um espaço bastante rentável, fato que permitiu ao já veterano programador, após oito anos de atividade, a possibilidade de realizar uma viagem ao redor do mundo com a sua esposa Dona Linda.
Por algum tempo, o Coral também abrigou a sede da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), criada em 1962 para apoiar a Fundação Cinemateca Brasileira. Além de Dante Ancona, entre os membros fundadores da SAC encontravam-se o exibidor Florentino Llorente, o produtor Oswaldo Massaini e personalidades e intelectuais como Paulo Emilio Salles Gomes, Francisco Luiz de Almeida Salles, Flávio Rangel, Roberto de Abreu Sodré, Rudá de Andrade e Jean-Claude Bernardet.
As exibições da SAC não se restringiram ao espaço do Coral, também aconteceram no cine Picolino, outra sala programada por Dante. Ele, posteriormente, foi um dos articuladores da ida da SAC para o auditório do MASP. De uma maneira geral, essas sessões obtiveram uma excelente resposta por parte do público. Nos anos 1960, a sessão à meia-noite virou moda e foi adotada por outras salas. A programação da SAC era composta principalmente por filmes poloneses, russos, tchecos, e franceses da nouvelle vague (3). No que diz respeito ao cinema brasileiro, a avant-première de "Barravento", de Glauber Rocha, pode ser considerada um evento memorável no Coral: a abertura, feita por Paulo Emilio, foi uma das raras vezes em que ele comentou publicamente a obra do grande cineasta. Ainda nesta fase, Dante programou o filme "Sacrifício do Ano Novo", de Sang Hu, o primeiro filme chinês distribuído no Brasil.
No final da década de 1950, Dante foi um dos fundadores do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Estado de São Paulo, onde, além dele, figuravam personalidades da cinematografia paulistana como Oswaldo Massaini, da Cinedistri, e Sândi Adamiu, da Paris Filmes.
Como presidente do Sindicato, Dante permaneceu por um período de cinco anos, até 1964. Em seu mandato, enfrentou a disputa entre o Estado de São Paulo e a União pelo controle da censura cinematográfica local. A intenção do governador Carvalho Pinto de criar uma censura estadual - tanto para gerar uma nova fonte de receita quanto para agradar grupos católicos conservadores - resultaria em um aumento dramático nas despesas dos distribuidores e os deixariam à mercê de grupos de pressão política e culturalmente retrógrados. A longa batalha do Sindicato foi decisiva para superar a mentalidade censória daquele momento.
Na década de 1960, outras importantes salas de exibição foram trabalhadas por Dante: Picolino, Scala, Trianon. Este último cinema seria transformado naquele que certamente foi a realização de maior peso do decano programador: o lendário cine Belas Artes. Aberto ao público no dia 14 de julho de 1967, o Belas Artes - a mais ampla sala de filmes de arte da América do Sul, com seus 1200 lugares -, se tornou caudatário natural da efervescência cinematográfica daquele período e se converteu em uma referência de amplo alcance. Por sua vez, o antigo cine Scala passou a se chamar Belas Artes Centro, sendo que ambos os Belas Artes recepcionaram as sessões organizadas pela SAC.

Cine Belas Artes (1971) - Foto de Antonio Lucio (Agência Estado)
Dante também veio a trabalhar, nos anos 1980, na consolidação de um pequeno circuito de filmes de arte composto basicamente por três salas, o Cinearte e os dois Arouches. Entretanto, estas salas não chegaram a ter a mesma repercussão que o Coral e o Belas Artes, devido à crise que se abateu sobre a exibição cinematográfica como um todo.

Cine Belas Artes (1981) - Foto de Francisco Magaldi (CCSP)
Como programador, a última sala que contou com os préstimos de Dante foi o Cineclube Elétrico, entre 1991 e 1992. Ele se retirou definitivamente de suas atividades profissionais aos 83 anos de idade, falecendo no dia 30 de dezembro de 1999, em São Paulo.
(1) BENDER, Flora C. A scena muda. São Paulo, tese apresentada à FFLCH/ USP, 1979. p. 375. Vol. III.
(2) Naquele tempo, a função do publicista era a de se dedicar à difusão e divulgação dos filmes das distribuidoras junto aos órgãos de comunicação e agências de publicidade. O publicista também funcionava como a pessoa responsável pelas relações públicas da empresa, tarefa que o obrigava a manter contato com os vários segmentos do comércio cinematográfico, mas não somente. Portanto, tratava-se de um trabalho de grande responsabilidade para um moço de vinte e poucos anos. O que lhe conferiu esta posição foi a sua experiência durante o lançamento de algumas salas de exibição, como os tradicionais cines Rosário e Alhambra.
(3) A pré-estréia de "O Ano Passado em Marienbad" foi precedida de uma grande cobertura pelos jornais da época e contou com a presença de Alain Robbe-Grillet, co-roteirista do filme.
Texto extraído do site do Centro Cultural São Paulo.
O cine Coral
Dante Ancona Lopes idealiza em 1958 o cine Coral, “que vinha para atender um público que não ficava satisfeito com o filme de todo dia, aquele cidadão que não quer feijão com arroz todo dia” (depoimento de Dante à Divisão de Pesquisas, em 25/6/1982).
O Coral, no centro da cidade, se transforma em pouco tempo no ponto de encontro de uma platéia ávida por emoções cinematográficas menos convencionais. Lá são exibidos filmes de Antonioni, Fellini (“A Doce Vida” fica meses em cartaz), “Os Incompreendidos” de Truffaut, “O Ano Passado em Marienbad”... pautando sua programação com títulos que os exibidores geralmente rejeitavam sob argumento de prejuízo certo. Dante: “Eu construí o Coral num terreno onde existia o depósito de um jornal do Rio chamado A Noite, e o terreno era do Dr. Sacramento. Eu aluguei o terreno por dez anos e construí, assumindo o compromisso de no prazo acertado entregar tudo que tivesse construído para ele. Meu plano era amortizar a construção em quatro anos e eu aproveitaria o resto dos seis para mim, mas eu amortizei a construção em apenas dois anos. Quer dizer, a programação foi boa e o público correspondeu. Depois usei mais cinco anos e acabei vendendo o contrato para o Valanci (exibidor carioca) porque resolvi que ia viajar com a minha mulher pelo mundo”.
Quando Dante Ancona Lopes abriu o cine Coral para atender a uma clientela cinematográfica que se encontrava órfã diante da programação dos cinemas da Capital. Tinha claro para si inúmeras possibilidades inexploradas no circuito comercial, justamente pela falta de ousadia de outros empresários, ou em outras palavras, pelas deformações impostas e cristalizadas ao longo de décadas de convivência com platéias dóceis e praticamente formadas a partir de uma única fonte de filmes de Hollywood, através dos distribuidores americanos e associados nacionais. O Coral exibiu Fellini, Antonioni, Resnais, Truffaut, entre outros, e superou todas as expectativas, inclusive as do seu idealizador. A resposta do público foi um sinal eloqüente a confirmar a existência de faixas de público a serem sensibilizadas por uma programação cinematográfica mais variada e sofisticada.
Depois do sucesso do Coral, o nome Dante Ancona Lopes ficou ligado aos cinemas de arte da cidade. A Serrador vai convocá-lo para recuperar o cine Picolino e, posteriormente, para conceber o Belas Artes - a sala de maior prestígio na cidade pela sua programação e localização na esquina da avenida Paulista com a Consolação. Com a venda do Belas Artes para a Gaumont do Brasil (sucedida pela Alvorada), Dante se estabelece no Cinearte (no Conjunto Nacional, na avenida Paulista).
Textos do livro “Salas de cinema em São Paulo”, de Inimá Simões - 1990

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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.