Theatro São Pedro: um tradicional cinema de bairro?

Sim, nos anos 20, o Theatro São Pedro, no bairro da Barra Funda, passa a funcionar mais como cinema, sendo raras as apresentações em seu palco. Em 1924, sua programação aparece nos jornais, em anúncios da Empresa Cinematográfica Reunidas, ao lado dos cinemas Avenida, Pathé, Marconi e Congresso, entre outros. Era o início de sua trajetória como “cinema de bairro”, com programas duplos e com uma freqüência fixa constituída pelos moradores da região, que mantinham o hábito de sempre se dirigir ao mesmo cinema, muitas vezes, sem verificar a que filmes iriam assistir.

___________________ Anúncio do cine São Pedro

Em 1941, o jornal “O Estado de S. Paulo”, na edição de 6 de julho, anunciava a reabertura do São Pedro, com “Platéia mais ampla – Poltronas novas – Som Western Eletric”, já sob controle da Empresa Cinematográfica Serrador, então com absoluta hegemonia no sistema de exibição de São Paulo.
A partir de 1946, o São Pedro ganha um destaque na programação da empresa, com programas duplos (um filme novo e outro que já havia circulado) ou seriados em episódios.
Em 1953, depois de uma avaliação da Comissão de Vistorias em Cinemas da Prefeitura Municipal, os proprietários do cinema são obrigados a realizar reformas, principalmente nos telhados e forros. A reinauguração acontece em 25 de janeiro do ano seguinte, com a exibição de “Candinho”, estralado por Mazzaropi. Com sua programação de filmes duplos, o já histórico Theatro São Pedro resistiria como sala de exibição até 1967. Uma nova fase, retornando a sua origem como teatro, era anunciada pelo jornal “Última Hora”, na edição de 1º de outubro: “Fernando Torres e Maurício Segall reabrirão as portas do Theatro São Pedro no próximo dia 29 de outubro”.
Em 1968, o Teatro passa a ser administrado por Beatriz e Maurício Segall e nesse período se inicia a fase gloriosa do teatro. Assim, pouco mais de meio século depois de sua inauguração, as cortinas do São Pedro voltam a se abrir. Para o início das atividades o prédio foi parcialmente reformado.
Em 1973, o teatro foi sub-locado à Secretaria de Estado da Cultura como sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, sob a regência do renomado Maestro Eleazar de Carvalho. O Studio continuava abrigando montagens teatrais ainda liderados por Maurício e Beatriz Segall e continuava a ser sub-locado novamente para outros grupos até 1981, quando o prédio foi devolvido a seus proprietários, descendentes de Manoel Fernandes Lopes.
Entre 1968 a 1981, foram montados inúmeros espetáculos, de grande relevância para a história dos palcos nacionais.
Tombamento e desapropriação
O processo de tombamento do Theatro São Pedro, que tramitava desde 1982, culminou em agosto de 1984, quando o então secretário estadual da Cultura, Jorge da Cunha Lima, declarou oficialmente a preservação da histórica casa de espetáculos. Em março de 1987, a partir do decreto de sua desapropriação, o teatro passou para a guarda e a responsabilidade da Secretaria de Estado da Cultura. Mesmo assim, mais de uma década transcorreu antes que ele fosse restaurado e voltasse a abrir suas portas para o público paulistano.
A restauração
Em 1998 o Theatro São Pedro finalmente foi restaurado. Uma reforma meticulosa recuperou suas características arquitetônicas originais que resgatam a memória artística paulistana se constituindo como um dos poucos referenciais da cultura do começo do Século XX que restam em São Paulo. A reforma foi marcada pela recuperação das linhas originais do prédio, conciliando uma moderna infra-estrutura de teatro, totalmente adequada às exigências dos espetáculos atuais.
Sala Inorá de Carvalho
No dia 19 de janeiro de 2002 foi inaugurada, num anexo do teatro, a Sala Dinorá de Carvalho, homenagem à pianista e compositora que, em seus 85 anos de vida, se dedicou ao estudo, à criação e à divulgação da música brasileira. A Sala Dinorá de Carvalho recebeu o piano Steinway que pertenceu à pianista. Foi idealizada para receber recitais e grupos de câmara e tem capacidade para 90 pessoas.
Theatro São Pedro
Rua Barra Funda, 171 - Barra Funda – São Paulo - SP
Tel.: 3667-0499
Acesse o site.
Imagens e textos extraídos do livro “Theatro São Pedro – Resistência e Preservação” (Secretaria de Estado da Cultura) e do site oficial do teatro.

Grandes empresários da exibição cinematográfica: Família Severiano Ribeiro

Família Severiano Ribeiro comemora 90 anos no mercado cinematográfico
A Severiano Ribeiro é uma empresa familiar, que está em sua terceira geração. O primeiro ato desta trajetória cinematográfica aconteceu em Fortaleza, no ano de 1917: Luiz Severiano Ribeiro, fundador do grupo, inaugurou o Majestic, primeiro cinema importante construído na capital cearense. Nestas nove décadas, a empresa passou por diversas etapas, foi do cinema mudo até a tecnologia digital. Atualmente, o grupo possui mais de 200 salas de exibição, espalhadas por 14 cidades. Para comemorar a data, a Editora Record lança dois livros: O Rei do Cinema, de Toninho Vaz, que é uma biografia dos Severianos e Grupo Severiano Ribeiro - 90 Anos de Cinema, um álbum ilustrado que traz muitas fotos e depoimentos. Além disso, junto à marca institucional, o grupo passa a assinar “Evolução é a nossa tradição”.
Histórico - Cronologia
Década de 20 - Luiz Severiano Ribeiro se estabelece no Rio de Janeiro, alugando um palacete de três andares para a sua família. À frente de seu tempo, associa-se à americana Metro, fechando a primeira “joint venture” da história do grupo. No acordo, a companhia fica responsável pelas reformas das casas e pelo fornecimento de filmes, enquanto a empresa brasileira ficava a cargo do arrendamento e administração dos cinemas. A parceria durou quatro anos e foi desfeita em comum acordo. É inaugurado o cine Odeon, no Centro do Rio. E, o Cine Palácio (Cinelândia, RJ) torna-se o primeiro cinema carioca a exibir um filme sonoro.
Década de 30 - Severiano Ribeiro, junto a outros exibidores cariocas, funda o Sindicato Cinematográfico dos Exibidores e é eleito presidente. É inaugurado na Praça Duque de Caxias, hoje Largo do Machado, o cinema São Luiz. Com capacidade para 1.794 espectadores, a sua abertura marcou a história da cidade. A sala foi a primeira a exibir lançamentos fora do centro do Rio, desenhando um novo cenário na geografia do mercado de exibição. Localizado próximo ao Palácio do Catete (residência oficial do então presidente Getúlio Vargas), o cinema foi decorado com todos os requintes a que se tinha direito, misturando a imponência do mármore aos cristais e espelhos tão em voga na época. Já a sala de projeção foi inspirada na do Radio City, de Nova Iorque. O empreendimento consumiu todas as economias de Luiz Severiano Ribeiro, que investiu pesado para erguer um dos mais bonitos palácios cinematográficos do Rio de Janeiro. Em 3 de setembro de 1938, “Bloqueio”, com Henry Fonda, mostra pela primeira vez aos cariocas o que o Roxy (Copacabana/RJ) oferecia. A sala permitia, além da exibição de filmes, a apresentação de espetáculos de variedades. O palco do Roxy possuía duas escadas laterais e um fosso destinado às orquestras.
Década de 40 - O cine Rex (Fortaleza) é reaberto como uma empresa de Luiz Severiano. O filme “O Sabotador”, de Alfred Hitchcock, leva o público ao delírio. Os freqüentadores do local eram chamados de “geração Rex”. O ator José Lewgoy passou por um momento inesquecível no cine São Luiz (RJ), no lançamento de “Carnaval de Fogo”. Desconhecido até então, o ator entrou tranqüilamente para assistir ao filme, mas na saída, teve que ser escoltado pela polícia. Os fãs alvoroçados, mais de mil pessoas, queriam um autógrafo a todo custo.
Década de 50 - O Palácio foi cenário de mais uma evolução da indústria cinematográfica. Nesta década, lançava com exclusividade no Brasil o cinemascope, com o filme “O Manto Sagrado”. Inaugurados os cines São Luiz de Recife, São Luiz de Fortaleza – a obra demorou 20 anos para ser finalizada - e Leblon (RJ). O São Luiz de Fortaleza foi uma homenagem pessoal de Severiano Ribeiro para a cidade. No de Recife, o destaque é um mural do renomado artista Lula Cardoso Ayres no saguão do local. Segunda “joint venture” na trajetória da empresa. A parceria com a Fox Films era para operar dois cinemas: Palácio, no Rio de Janeiro, e Marrocos, em São Paulo (sociedade com Lucídio Seravolo). O roqueiro Bill Halley levou a platéia do Rian (RJ) ao delírio na apresentação do filme “No Balanço das Horas” (Rock Around The Clock). O público assistiu a produção, dançando o rock and roll e transformando o cinema em uma pista de dança.
1953
1956
Década de 60 - O cine Roxy mostra para seus freqüentadores a tela em curva do Cinerama. No São Luiz (RJ), na "avant-premiére" do “O Pagador de Promessas” (vencedor do Festival de Cannes), a platéia ficou emocionada com a chegada do diretor Anselmo Duarte, o elenco do filme, juntos com o produtor Osvaldo Massaini, que carregava a Palma de Ouro. Eles foram recebidos ao som de mais de mil vozes cantando o hino nacional. O cine Majestic, no Ceará, primeiro do grupo, é destruído por um incêndio.
Década de 70 - Dois cinemas de rua passam por reformas e são divididos em duas salas de projeção: Leblon e Palácio (RJ). Falecimento de Luiz Severiano Ribeiro.
Década de 80 - Com as obras de construção do metrô no Rio de Janeiro, o São Luiz acabou sendo fechado e demolido. Logo no ano seguinte, começou a ser construído o edifício São Luiz e o cinema foi reaberto. Começou a migração dos cinemas de rua para dentro dos shoppings centers. Criada a terceira “joint venture”: a Paris-Severiano Ribeiro, com o lançamento do primeiro multiplex brasileiro, com oito salas no Park Shopping, de Brasília.
Década de 90 - O Roxy (RJ) passa por uma reforma e reabre com três salas de exibição. Neste mesmo ano, Luiz Severiano Ribeiro Júnior falece. O grupo e a UCI fecham uma parceria e inauguram os cinemas Recife Shopping (de 10 salas) e o Shoppping Tacaruna (oito salas), formando a quarta “joint venture”.
Anos 2000 - O cine São Luiz (RJ) passa por uma reforma e reabre em janeiro do ano seguinte completamente remodelado: com mais duas salas, totalizando quatro, o Café São Luiz, novas bilheterias e bomboniéres. O grupo estréia em São Paulo com uma nova marca, que passa a dar nome aos seus cinemas equipados com tecnologia de última geração. Lançamento da marca “Kinoplex” no Shopping Parque D. Pedro, em Campinas, em um complexo com 15 salas de projeção. Em seguida, a Severiano Ribeiro abre seu primeiro empreendimento na capital, o Kinoplex Itaim. Inaugura também o Kinoplex Praia da Costa, em Vila Velha (ES) e o cinema no Shopping Iguatemi, de Fortaleza, em parceria com a UCI. Em 2006, a marca “Kinoplex” estréia no Rio de Janeiro: em julho abriu o Kinoplex Nova América, na zona norte; e em dezembro, o Kinoplex Leblon, na zona sul da cidade. No início deste ano, a Severiano Ribeiro abriu UCI Kinoplex, na zona norte do Rio de Janeiro. O cinema é equipado com a tecnologia 3D.
Luiz Severiano Ribeiro – o fundador
_________________________ Luiz Severiano Ribeiro
Com uma vocação comercial incontestável, Luiz Severiano Ribeiro antes de entrar no mercado de cinema, teve uma livraria, um empório em Fortaleza e outro em Recife, além de hotéis, cafés e outros empreendimentos. À frente de seu tempo, em 1914, Ribeiro decidiu criar uma nova empresa nos moldes de uma holding, a fim de centralizar a administração de todos os seus negócios. Seu primeiro contato com a projeção de imagens aconteceu no circo Pery, quando ainda era jovem. A partir de 1908, quando foi inaugurado o primeiro cinema fixo de Fortaleza (o Cinematographo Art-Noveau, do italiano Victor Di Maio), passou a acompanhar o ramo de exibição de filmes. Um ano após promover grande reforma no Art-Noveau, sufocado pela forte concorrência, Di Maio deixa o Ceará. Severiano Ribeiro arrenda o local, realizando projeções diárias em horários sincronizados com o Café Riche. Logo em seguida, decide fechar o café e abrir no local um cinema com o mesmo nome. O cine Riche, uma sociedade com o também empresário Alfredo Salgado, é inaugurado em dezembro de 1915. Luiz Severiano Ribeiro não considerou o Riche como seu primeiro cinema. A terrível seca daquele ano, aliado à concorrência acirrada e à oferta precária de filmes deixou o mercado em uma situação difícil. O empresário foi em busca de uma solução e apresentou uma estratégia que considerava a melhor para aquecer o capital de giro das empresas: arrendar os cinemas pelo período mínimo de cinco anos, pagando uma renda fixa aos proprietários, mas com a condição dos demais exibidores não abrirem outro cinema em Fortaleza ou imediações.
Luiz Severiano Ribeiro Junior – a segunda geração
____________________ Juscelino Kubitschek (à esquerda) e Luiz Severiano Ribeiro Junior (à direita)
Ribeiro Júnior estudou Administração em Londres, falava muito bem inglês e passou o início da década de 30 viajando pela Europa, em tempos de pré-guerra. Em 1935, volta ao Brasil no auge dos negócios do pai. No início, assumiu a programação de toda a rede de cinemas. Interessado também em produzir filmes, Ribeiro Júnior abriu a central de distribuição UCB (em 1943) e tornou-se sócio da Atlântida Cinematográfica, criada por Moacyr Fenelon e José Carlos Burle. Com a UCB, seguindo o mesmo tino comercial do pai, Ribeiro Júnior reuniu suas economias e fechou alguns negócios com algumas empresas que não tinham mercado. Um marco da UCB foi a adesão de Adhemar Gonzaga ao projeto: o cineasta e produtor deixou nas mãos de Ribeiro Júnior o lançamento do clássico “Loucos por música”, de 1945. Em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o decreto 20.943, que obrigava os cinemas a exibirem no mínimo três filmes nacionais por ano. Em um investimento pessoal e com uma visão estratégica, Ribeiro Júnior vira sócio majoritário da Atlântida e cria um laboratório de revelação profissional, a Cinegráfica São Luiz. O jovem empresário conseguia assim reunir todas as etapas da indústria cinematográfica: produção, revelação, distribuição e exibição. Em paralelo aos negócios da família, criou também uma pequena cadeia de cinemas que ficava sob a responsabilidade da Atlântida Cinemas. Durante a inauguração de Brasília, em 1961, o presidente Juscelino Kubitschek ofereceu ao empresário um terreno para a construção de um cinema. Ribeiro Júnior propôs a compra do espaço, onde mais tarde abriu o cine Atlântida (o primeiro com a marca da companhia). Outro exemplo do empreendedorismo de Ribeiro Júnior foi a abertura, junto com a família, da Publicidade São Luiz, responsável pela divulgação e publicidade dos filmes a serem lançados pela empresa Ribeiro. Criou também a gráfica São Luiz, responsável pelos cartazes dos filmes, programas dos cinemas e a impressão dos ingressos.
Família Severiano Ribeiro – terceira geração
A partir de 1985, um conselho familiar assumiu as decisões estratégicas e a administração da empresa. A terceira geração foi responsável por momentos marcantes da história atual do grupo. Esta gestão passou pela migração dos cinemas de rua para os shoppings, pela entrada da concorrência estrangeira e pela transformação do mercado com o conceito multiplex, além das inúmeras inovações tecnológicas. A diretoria atual da Severiano Ribeiro é formada por representantes da família e um alto executivo do setor.
Quarta geração – forma um conselho que se reúne com a diretoria todo mês. O futuro da Severiano Ribeiro já começa a participar dos negócios da família.
Severiano Ribeiro em números: mais de 200 salas de exibição, com 50 mil poltronas e 881 funcionários. Por ano são lançados, em média, 160 filmes que atraem 15 milhões de espectadores. São consumidos 300 toneladas de milho de pipoca, 1 tonelada de sal e 1 milhão e 800 mil litros de refrigerantes.
Cinemas da família Severiano Ribeiro (Kinoplex) em São Paulo:
KINOPLEX ITAIM - Endereço: Rua Joaquim Floriano, 466 - Loja 29 Bairro: Itaim Bibi - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3131.2004 - 6 salas
KINOPLEX D. PEDRO - Endereço: Av. Guilherme Campos, 500 Shopping D. Pedro - Bairro: Santa Genebra - Campinas - SP _______ Tel.: (19) 3131.2800 - 15 salas
KINOPLEX OSASCO - Endereço: Av. Autonomistas, 1828 - 3º Piso Super-shopping - Osasco - SP - Tel.: (11) 3131-2004 - 7 salas
Fotos e textos extraídos do site oficial do Cinemas Severiano Ribeiro, com inclusões de Antonio Ricardo Soriano
Anúncios antigos - Livro “No tempo das matinês – Emoções no cinema de bairro”, de Diamantino da Silva, Umberto Losso e Kendi Sakamoto Editora Laços – 2007

Elétrico Cineclube

por Felipe Macedo (Jornalista, assessor de Relações Internacionais do Conselho Nacional de Cineclubes, diretor do Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo, presidente da Federação de Cineclubes do Estado de São Paulo, coordenador do projeto PopCine e autor de livros como "Movimento Cineclubista Brasileiro")
O Centro de Estudos Cineclubistas de São Paulo – Elétrico Cineclube, essa era a razão social completa do Elétrico, foi fundado em janeiro de 1988, por Deisy Velten, Felipe Macedo, João Carlos Bacelar e Serge Roizman. Durante dois anos esses cineclubistas, que já vinham de várias outras aventuras, passaram o diabo, vivendo em uma espécie de república, tentando levantar patrocínios, viabilizar a transformação do antigo cine Regência – então parcialmente destruído e transformado em boate e estacionamento – e controlar o dono do imóvel, que sempre pressionou e colocou obstáculos ao projeto. Durante a maior parte desse tempo, antes de obterem os patrocínios mais importantes, a obra foi sendo tocada muito lentamente, com lances dramáticos e dificuldades enormes, mas recheada de histórias de solidariedade incríveis. Muitos amigos tiraram suas magras poupanças do banco para impedir determinadas ações de cobradores, houve doações anônimas e até mesmo o pessoal que trabalhava na obra chegou a emprestar dinheiro para o cineclube (em vez de receber o salário).
Mas no fim a coisa engrenou e, em janeiro de 1990, o Elétrico inaugurava sua primeira sala, de 316 lugares. Em maio foram abertas as salas 2, de 84 lugares, e 3, com 32 lugares, para exibições em vídeo e cursos. Em outubro passava a funcionar a "lojinha", com livraria, locadora, artefatos, lembranças e geringonças de cinema. Desde o início o Elétrico já tinha o bar no átrio e o estacionamento, que seria usado também para outras experiências. Ao todo, eram cerca de 2.500m² de área construída.
Da inauguração até o fechamento, o Elétrico durou apenas 4 anos. Foi um dos últimos e maiores espasmos de cineclubismo do fim de uma época, mas deixou certamente algumas lembranças para as mais de 15 mil pessoas que o freqüentaram mensalmente durante esse período, totalizando mais de 600 mil espectadores durante a sua curta vida. O Cineclube também deixou algumas conquistas concretas, como a lei isentando cineclubes e cinematecas de IPTU, e umas tantas influências sobre outros acontecimentos, como a lei estadual de meia entrada para estudantes e maiores de 60 anos. Certamente o Elétrico também estimulou o surgimento de outras salas, como o Metrópolis, de Vitória, ES, criado por Marcos Valério Guimarães e o Cineclube Vitória, em Campinas, fundado por João Carlos Bacelar e Neuza Barbosa, além de apoiar, inclusive financeiramente, o Cineclube Oscarito.
O Elétrico exibiu cerca de 1.000 filmes, 40% deles inéditos. Organizou, trouxe para São Paulo ou participou de várias Mostras e Festivais, como o FestRio, a Mostra Internacional de Cinema Negro, A Mostra de Cinema e Vídeo da Argentina, entre outros, freqüentemente trazendo cineastas, técnicos e artistas de outros países para debater com os realizadores e o público brasileiro. O Cineclube conservou viva a sessão da meia-noite, exibindo as chamadas "Sessão Última Chance", com filmes cujas cópias seriam destruídas pelas distribuidoras, e a "Sessão Trash". Também manteve permanentemente um trabalho com crianças - recebendo um prêmio especial da Fundação Abrinq – e com os movimentos sociais, de mulheres, de negros, trabalhadores e outros.
Também mostrou cerca de 1.000 vídeos, em memoráveis programas de música, com ciclos de filmes de jazz, rock, reggae, etc, e outras promoções, incluindo as Mostras "Dez Anos de Produção Independente", "Um Close no Teatro I e II", entre outras, organizadas por Jurandir Müller, incorporado à direção do cineclube num mandato posterior. Aliás, outro diretor importante do Elétrico foi Dante Ancona Lopez, o homem que havia criado os primeiros cinemas de arte em São Paulo, 40 anos antes. A equipe do Cineclube também, era muito especial, e reunia mais de 20 pessoas em tempo integral - mas alongaria demais esse pequeno relato lembrar de cada um.
O Elétrico promoveu ainda uma série de espetáculos musicais, principalmente com músicos de jazz, e peças de teatro, tanto na sua sala maior quanto numa área reservada no estacionamento. Este último, aliás, também seria usado para a organização de uma feira de trocas cultural, nos fins de semana.
O pico mensal de público do Elétrico chegou a 21.000 pessoas. Em determinados dias, você podia se sentar nas mesinhas do bar e assistir ao curioso vai e vem de públicos diferentes: os jovens de diferentes tribos que vinham para as sessões de vídeo de rock, por exemplo, cruzavam com o público da terceira idade que aproveitava a meia entrada e um filme como "Dançando com a Vida" e ficava ali tomando um chazinho e olhando o pessoal mais "político" que vinha ver "Ay, Carmela" na sala de cima ou algumas figuras mais conhecidas, do meio artístico, político, esportivo ou empresarial que vinham buscar um vídeo na "lojinha". Às vezes alguém fazia um "happening" por iniciativa própria, como o talentoso violinista que vinha tocar Brahms nos intervalos de "Eu Sou o Senhor do Castelo", ou uns malucos que vinham vestidos a caráter para certos filmes de ficção científica numa sessão da meia-noite.
Entidade sem fins lucrativos, declarada de utilidade pública, o imóvel do Elétrico – que era também o antigo Teatro Record, palco do surgimento da Jovem Guarda, do "O Fino da Bossa" e dos "Festivais de Música Popular" – foi tombado durante o governo da prefeita Luíza Erundina. Por unanimidade, a Câmara Municipal reservou uma quantia no orçamento municipal para a compra do espaço e a sua cessão em comodato ao Elétrico. Mas o governo mudou e não deu tempo: por sugestão do novo Secretário da Cultura, Rodolfo Konder, o prefeito Paulo Maluf revogou o decreto anterior (ele certamente precisava do dinheiro para outros fins) e o Cineclube foi incapaz de sobreviver às elevações dos seus custos e a toda uma nova realidade do mercado cinematográfico que não facilitava aquele tipo de atividade.
Texto extraído do site de Felipe Macedo.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.