Grandes empresários da exibição cinematográfica: Paulo Sá Pinto

Por Antonio Ricardo Soriano
Paulo Barreto de Sá Pinto foi um dos maiores empresários da história da exibição cinematográfica no Brasil (São Paulo e mais seis capitais brasileiras). Introduziu muitas inovações em seus cinemas: a 3ª Dimensão, o Cinerama, o Cinemascope e as audições musicais. Tinha o hábito de decorar cinemas com muito bom gosto, requinte e conforto.
Mineiro da cidade de Santos Dumont, Paulo Sá Pinto veio ainda criança para o Rio de Janeiro e o seu primeiro emprego foi como conferente de alfândega, no Cais do Porto. Depois se transferiu para Porto Alegre, onde teria trabalhado em publicidade e começado a se interessar pela área de exibição. Seria, entretanto, em São Paulo, que fundaria a “Empresa Cinematográfica Paulista”, cujos primeiros cinemas construídos foram o Ritz (1943) e o Marabá (1944). No final dos anos 40, expandiu o seu “circuito de cinemas” para Porto Alegre e Curitiba, fundando a “Empresa Cinematográfica Sul”.

Em 1952, Paulo Sá compra o prédio onde funcionava o antigo cine República. O antigo cinema estava desativado e no local funcionava uma repartição da Prefeitura. O novo cine República, depois de uma grande reforma, foi inaugurado no mesmo ano, com o filme “A Vida Secreta de Nora”, com Loreta Young e Joseph Cotten. Neste cinema, Paulo Sá lança grandes novidades da tecnologia da exibição cinematográfica:
- Em 1953, passa a exibir filmes produzidos em 3ª Dimensão (3D), processo de exibição que necessita de óculos especiais para criar a impressão de profundidade (óculos que, na época, passavam por um processo de esterilização). O primeiro filme exibido foi “Veio do Espaço”.

Anúncio do jornal "Folha da Manhã", de 25/10/1953
- Em 1954, exibe o Cinemascope pela primeira vez em São Paulo, com o filme “O Manto Sagrado” (segundo filme rodado em Cinemascope, mas o primeiro a ser lançado comercialmente nos cinemas americanos, sendo que o primeiro filme rodado neste formato foi “Como Agarrar um Milionário”, de 1953).

Anúncio do jornal "Folha da Manhã", de 04/04/1954
- Em 1955, instala a maior tela do mundo (250 metros quadrados).
Em 12 de dezembro de 1957, em uma noite de gala, inaugura o cine Olido, na Avenida São João, com a exibição do filme “Tarde Demais para Esquecer” (1957). Nesta mesma noite, uma orquestra sinfônica apresentou o tema do mesmo filme “An Affair To Remember” (canção que ganhou o Oscar) e, em seguida, acompanhou as cantoras Cidalia Meireles e Leila Cury, em diversas músicas.

Anúncio da inauguração do cine Olido (Jornal "Folha da Manhã" - 12/12/1957)
Em abril de 1959, Paulo Sá anuncia mais uma inovação. Em uma entrevista, declara que, em Paris, havia assinado um contrato para exibir o Cinerama no cine Comodoro em São Paulo e que seria apresentado aos paulistanos brevemente, tudo dependendo da chegada das máquinas, pois o Comodoro já estava praticamente pronto. O cine Comodoro Cinerama, na Avenida São João, 1462 (no centro da capital) foi inaugurado, às 14 horas, do dia 14 de Agosto de 1959, com o filme “Isto é Cinerama”. São Paulo foi a única cidade brasileira que realmente assistiu ao Cinerama legítimo, com três projetores trabalhando simultaneamente.
Paulo Sá Pinto foi homenageado por muitas vezes. Em 6 de novembro de 1959, o Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da USP entregou a ele o diploma e o colar do grau de “Comendador da Honorifica Ordem Acadêmica de São Francisco”. Depois, em 22 de junho de 1961, em sessão realizada na Câmara Municipal de São Paulo, recebe o título de “Cidadão Paulistano”, sendo saudado pelo plenário, pelas iniciativas no setor da exibição cinematográfica, ressaltando a introdução da 3ª Dimensão, Cinemascope e Cinerama. Em 16 de agosto de 1962, recebe mais uma homenagem. É condecorado com a “Medalha Imperatriz Leopoldina”, conferida pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Paulo Sá recebendo o título de “Cidadão Paulistano” (Folha da Manhã, 23/06/61)
Em 25 de maio de 1966, às 21 horas, Paulo Sá inaugura o cine Ouro, no Largo do Paissandu, com uma sessão de gala do filme “O Colecionador”, do diretor William Wyler (Ben Hur). O cinema era todo decorado no estilo colonial brasileiro e possuía cópias em gesso das obras de Aleijadinho. Uma delas era uma réplica do frontal do altar-mor da Igreja de São Francisco em Ouro Preto, Minas Gerais (cedida pela Faculdade de Arquitetura de Minas Gerais, com autorização do Patrimônio Histórico Nacional). Nas sessões, antes do filme começar, o expectador tinha audições ao vivo de piano. O cine Ouro era considerado uma das salas mais luxuosas do país.
Nos anos 70, Paulo Sá foi um dos poucos empresários dispostos a abrir novas salas de cinema na capital de São Paulo. Enquanto outras empresas fechavam cinemas ou dividiam salas grandes em duas pequenas, ele preferia manter uma posição que havia adotado como regra para o seu negócio: bons filmes em salas confortáveis. Inaugurou os cines Del Rey (reinauguração, antigo cine Radar), Bristol (decorado em estilo inglês medieval) e Liberty (decorado em estilo baseado em museus da Europa). Podemos, também, citar a inauguração do cine Paulistano em 20/03/1969.
Em 1971, Paulo Sá declarou em entrevista para o jornal “Folha de S. Paulo”:
“Abri muitas salas. Em compensação, tive de fechar outras. (...) O fato de ter inaugurado vários cinemas, em poucos anos, não significa nada. É a marcha do progresso. Dentro do seu setor, o empresário progride ou morre. Prefiro progredir, mesmo que isso custe grandes esforços e muito dinheiro.”
“Hoje em dia eu não posso afirmar em quanto tempo uma sala como o Bristol ou o Liberty, pode arrecadar somas que a empresa aplicou em equipamentos e decorações. São salas de alto gabarito. (...) Nem sei se vou recuperar o dinheiro aplicado nas salas. Ou se, um dia, terei de fechá-las.”
Pouco tempo antes de falecer, Paulo Sá Pinto, já com a saúde debilitada, ainda comandava suas empresas, que administravam uma rede com mais de 60 cinemas espalhados em sete capitais (só em São Paulo, 40 salas), tendo como sócios, os irmãos Magalhães Rodrigues e Francisco José Lucas Neto. Além disso, era sócio de vários outros empreendimentos e da distribuidora Art filmes. Despachava em seu gabinete na Avenida São João, com sua fiel secretária, dona Lourdes Peixoto, que o acompanhou por mais de 30 anos.
Paulo Sá Pinto faleceu em 24 de janeiro de 1991, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, vítima de insuficiência respiratória, ocasionada por problemas no pulmão.
Fontes de pesquisa: Jornais Folha de S. Paulo, 25/05/1966 - 21/04/1971 e Folha da Manhã, 15/12/1957 e 23/06/1961.
Texto publicado em 04/09/2009 e atualizado em 11/05/2010.
Depoimento:
Christine Sá Pinto (Sobrinha do Sr. Paulo Sá Pinto)
Adega La Pipa - Rua Canário, 810 - Moema - São Paulo - SP - Twitter: adegalapipa
"Paulo Barreto de Sá Pinto era irmão do meu pai, Dr. Antonio Barreto de Sá Pinto. Desde pequenina, adorava ir à Empresa Sul e Paulista (Av. São João). Meu pai trabalhava com meu tio Paulo e viajava muito com ele, levando junto, desde pequeno, o meu irmão Eduardo (tínhamos permanente). Quando mocinha cheguei a trabalhar na Empresa e sempre tive orgulho de dizer aos meus amigos, quem era meu tio."

"Paulo Sá Pinto sendo recebido pelo irmão Dr. Antonio Barreto de Sá Pinto e o sobrinho Eduardo (ao lado esquerdo do Sr. Paulo, Primo Carbonari)."
"Cinemas Comodoro, Marabá, Ipiranga, Bristol, Liberty e o cine Ouro (meus pais iam sempre ver as obras... eram lindos!)."

"Meus pais, Antonio e Laurinda Barreto de Sá Pinto e o meu irmão Eduardo, estavam muito elegantes na inauguração do cine Ouro."

"Meus pais sendo recebidos na inauguração do cine Ouro."

"Dr. Antonio B. de Sá Pinto discursando para o irmão Paulo." (na parede, um cartaz de um filme em "Cinerama")
"Lembro-me muito do Primo Carbonari. Ele foi ao meu casamento (acreditem!). Quando pequena, todo final de ano, ganhava bonecas dele (bonecas que falavam!). Chegamos a visitá-lo em sua casa."
"Casei em 1987 e, mesmo assim, o meu tio Paulo mandava permanentes de cinema para mim. Ele era muito bonzinho. Hoje não vou mais ao cinema. Muito raro."
Leia este depoimento na íntegra em "Comentários".
Fotos cedidas por Christine Sá Pinto.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.