Grandes empresários da exibição cinematográfica: Adhemar de Oliveira

Adhemar de Oliveira, cineclubista dos anos 80, é hoje um dos maiores exibidores do país. Seus cinemas se diferenciam de outros multiplex (cinemas de shopping), porque suas salas mesclam a exibição de filmes independentes e de grandes produções americanas.
Adhemar explica, a revista Época, o conceito de “cinema independente”: “Para formular esse conceito é preciso falar do oposto. Existe um cinema dependente de grandes orçamentos, de sólida estrutura de produção e de milionárias campanhas de marketing no mundo todo. Essa é a realidade de Hollywood. O cinema independente tenta se firmar sem esses alicerces. É formado por filmes europeus, asiáticos e latino-americanos. O sonho de quase todo diretor e produtor americano independentes é se tornar dependentes dos grandes estúdios de Hollywood. Querem trabalhar com produções caras e atores famosos. Já no resto do mundo, o cinema independente é uma bandeira ideológica. Também quer ter vez no mercado, mas com liberdade criativa.”

Adhemar de Oliveira nasceu em Jaboticabal, no interior de São Paulo. Em 1980, largou o cargo de técnico do Banco Central, para criar o Cineclube Bixiga, na capital paulista. Logo depois, foi para a capital do Rio de Janeiro, onde passou a programar os filmes do Cineclube Macunaíma. Em novembro de 1985, fundou o cine Estação Botafogo. Em 1989, participou da criação da então Mostra Banco Nacional de Cinema de São Paulo. Em outubro de 1993 criou, em São Paulo, o Espaço Unibanco de Cinema, um projeto que transformou um decadente cinema de rua em três cultuadas salas, com livraria e café. Depois, em 1995, Adhemar se desliga do Grupo Estação, no Rio, e passa a se dedicar totalmente ao Espaço Unibanco, que se transformaria no circuito mais cultuado de São Paulo.
Adhemar também investe no espectador do futuro, por intermédio do Projeto Escola, que tem coordenação de Patrícia Durães, colaboradora de Adhemar em diversas atividades há muitos anos. Adhemar é sócio, também, do cine Bombril e do cine Tam, entre outros empreendimentos.
Além de exibidor, Adhemar é sócio da distribuidora Mais Filmes, em parceria com Leon Cakoff, com quem também partilha o empreendimento das salas do Frei Caneca Unibanco Arteplex (Multiplex voltado para os filmes de arte), inaugurado em agosto de 2001.
Dentro deste novo conceito de salas Arteplex, o “Espaço de Cinema” inaugurou, desde 2001, 19 complexos (totalizando, por enquanto, 74 salas) nas cidades de Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo.

Por tudo isso, Adhemar de Oliveira é um dos grandes responsáveis pela transformação do circuito exibidor de filmes de arte no Rio de Janeiro e em São Paulo. É o maior exibidor de filmes independentes (alternativos ou “de arte”) e um dos maiores exibidores do país. Além de ser um dos exibidores que mais apóiam o Cinema Nacional. Pessoalmente, acho que Adhemar possui a mesma coragem, criatividade e visão de futuro que teve o grande exibidor Paulo Sá Pinto, nos anos 40, 50 e 60.

Grandes empresários da exibição cinematográfica: Família Passos

A família Passos integra um grupo seleto entre os exibidores de São Paulo, aquele formado basicamente por empreendedores estrangeiros. Mantêm viva uma tradição que agoniza no Brasil, a de famílias ligadas à exibição e distribuição de filmes. “Vamos manter um negócio que se aproxima dos 80 anos”, comemora o arquiteto João José Passos Neto, atual diretor da Moviecom Cinemas.
Campinas/SP
A Moviecom administra cinemas nos Estados da Bahia, Goiás, Minas Gerais, Pará, São Paulo e Rio Grande do Norte. No estado de São Paulo, são dois complexos na Capital e mais um em oito cidades do interior (veja no site) que exibem os tradicionais blockbusters e filmes nacionais. Em comum com as demais salas de shopping da Capital é o estilo Stadium (poltronas com inclinação semelhante à das arquibancadas, proporcionando maior proximidade com a tela), o som digital e as telas com cerca de 20 metros de comprimento.
Presidente Prudente/SP
As semelhanças, porém, acabam aí. Para os dois complexos da Capital, Passos Neto e equipe decidiram equipar as salas com detalhes particulares, como o revestimento em gesso do teto que, segundo ele, permite uma melhor distribuição de som. Cada sala tem uma coloração diferente e há ainda uma especial para crianças e adolescentes, equipada com paredes e poltronas coloridas, com assento infantil. Outro diferencial são as máquinas para auto-atendimento, que funcionando como caixas eletrônicos de bancos, permitem que o espectador compre seu ingresso antecipadamente sem entrar na fila das bilheterias.
Máquina de auto-atendimento
Aos 39 anos, ele representa a terceira geração da família. Seu avô, José João Passos, iniciou o negócio em 1926, quando se uniu a Azor de Araújo para fundar a Araújo & Passos, empresa de distribuição de filmes que se instalou na cidade de Botucatu. “Ali era uma região estratégica, pois havia entroncamento de linhas de trem, que era então o meio de transporte mais rápido e seguro”, conta Passos Neto. “Praticamente todas as distribuidoras americanas tinham escritório em Botucatu, o que facilitava controlar mais de cem cidades em todo o interior paulista, o norte do Paraná e ainda cidades de Mato Grosso.”
O movimento era intenso a cada dia, passavam pela cidade latas com negativos de pelo menos um filme. “Nossa empresa era uma das oito distribuidoras de filmes que o Brasil tinha na década de 1930”, comenta Ronaldo Passos, pai de Passos Neto e ainda atuante nos negócios da empresa. Ele, que gosta de brincar dizendo que nasceu em uma lata de negativos, relembra da grande expectativa provocada pela chegada de filmes como as chanchadas de Oscarito e Grande Otelo. “Até o início dos anos 60, os longas nacionais eram engraçados e de fácil compreensão, portanto eram muito aguardados”, conta. “Já os filmes do cinema novo não tinham tanta repercussão.” A empresa acompanhava os bons ventos trazidos pelas comédias brasileiras e, em 1946, a Araújo & Passos começou a trabalhar também na exibição cinematográfica.
As primeiras salas foram abertas em cidades como Tietê (SP) e Cornélio Procópio (PR), entre outras. “Curiosamente, nunca tivemos um cinema em Botucatu, apesar de ser nela, a sede da empresa”, conta Passos Neto.
Nos anos 60, Gilberto Araújo e Ronaldo Passos, a segunda geração das duas famílias, assumiu os negócios, que começaram a apresentar problemas a ponto de, no final da década seguinte, a empresa parar com a distribuição de filmes e ficar apenas com a exibição.
A situação se agravou na década de 80 quando a proliferação do videocassete aumentou a crise do negócio de exibição, obrigando a Araújo & Passos, assim como diversas empresas da área, a se desfazer de grande parte de suas salas. Foi nesse momento, nada oportuno, que Passos Neto começou a trabalhar no grupo.
A revitalização começou na década seguinte. Em 1996, a Araújo & Passos se separou e foi fundada a Cinematográfica Passos, que utilizou o nome de Circuito Passos. “Percebemos que era necessária uma adequação às novas tecnologias”, conta Passos Neto que, com o crescimento do número de salas em shoppings, se associou à Movieplex Cinemas.
Campinas/SP
O último passo aconteceu no ano passado, quando a Circuito Passos passou a se chamar Moviecom Cinemas, nomenclatura mais atraente e de acordo com o conceito moderno que hoje impera nas grandes redes. Mesmo com as inovações, Passos Neto insiste em um gerenciamento familiar – além do pai, também a irmã arquiteta participa dos negócios, projetando as novas salas. “Pretendemos oferecer ao público as facilidades tecnológicas embrulhadas em um clima mais próximo, bem familiar”, conta Passos Neto, que já negocia com outros shoppings paulistanos a extensão de seu conceito de oferecer cinema.
Texto do jornal “O Estado de São Paulo” de 07/10/2004, com inclusões de Antonio Ricardo Soriano.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.