Minhas matinês

Por Pedro Bandeira*
Nasci já sem pai, que morreu aos trinta e cinco anos, deixando dois filhos e eu, uma lembrança na barriga da minha mãe. Meus irmãos eram bem mais velhos, de modo que fui uma criança mais ou menos sozinha, com meus sonhos, minhas leituras e a imensa praia de Santos para ver o pôr-do-sol.
Não, ainda não havia televisão nem videogame para fazer companhia aos meninos solitários. Só pouco depois viria a TV Tupi, trazendo os maravilhosos Júlio Gouveia e Tatiana Belinky e suas fabulosas criações, como “O Teatro da Juventude”, “Polliana”, “Angélica”, “O Pequeno Lorde” e as adaptações inigualáveis do “Sítio do Pica-pau Amarelo”, fazendo-me sonhar com a distante possibilidade de representar o Pedrinho e com a beleza de Edi Cerri, a linda Narizinho... Ah, as covinhas da Edi Cerri, minha grande paixão, ao lado da Elizabeth Taylor, companheira do menino Roddy McDowall em “Lassie Volta para Casa”.
A grande diversão daquele tempo era o cinema. Eu aguardava ansioso o domingo, quando havia a “Matinê Baby”, no Cine Atlântico, que já não existe mais. Eram sessões com curtas-metragens do Gordo e o Magro, do Carlitos, com desenhos da Disney e mais um monte de pequenos filmes. Ah, o cinema! Que delícia quando alguém me levava às sessões das duas e meia, para assistir aos longas-metragens... Lembro-me de ter saído chorando, em desespero, de dois filmes: “Coração Materno”, com o Vicente Celestino, e “Branca de Neve e os Sete Anões”, a obra-prima da Disney (só adultos calejados conseguem ficar firmes vendo aquela bruxa horrorosa!).
Mas o Cine Miramar, que anteriormente havia sido um cassino, desativado pelo Marechal Dutra, o presidente que proibiu os jogos de azar, acabou sendo demolido. No lugar dele, começou a ser erguido um imenso prédio que teria um novo cinema. E a inauguração desse cinema, o Caiçara, acabou coincidindo com meu décimo aniversário. E eu ganhei o melhor dos presentes: como o novo cinema ficava a poucos quarteirões de minha casa, obtive o alvará de ir sozinho à matinê de domingo!
Que alegria! Informaram-me que, rompendo a tradição, a sessão da tarde começaria às duas horas. Recebi o dinheirinho para a entrada e lá fui eu, saltitante de alegria. Lá chegando, informaram-me que a novidade era ainda maior: terminada aquela sessão, imediatamente começaria outra, e outra, e outra... E o melhor é que ninguém era posto para fora no fim de cada sessão! Ah, estava pra mim! Imaginem: assistir a várias sessões pelo preço de uma!
E foi assim que eu vi, uma atrás da outra, cinco sessões corridas de “Sinfonia de Paris”, com o Gene Kelly e a Leslie Caron, até a meia-noite! Maravilha das maravilhas! Nem senti fome, embasbacando-me com aqueles bailados à beira do rio Sena, ao som de George Gershwin...
Bom, é verdade que, ao sair do cinema, toda a polícia de Santos estava à procura de um menininho de dez anos desaparecido – na certa raptado, ou afogado no canal! – e minha mãe estava em puro desespero...
Pena... O Cine Caiçara também não existe mais, assim como o Ipiranga e tantos outros, vitimados pelo videotape e pela televisão... E talvez eu não tenha assistido às cinco sessões inteirinhas. Talvez tenham sido só umas três. Só sei que foi o suficiente para deixar meu bumbum ardendo por um bom tempo...

Texto do livro “Meu Tempo e o Seu”, dos organizadores João Basílio e Maria Teresa Leal - Editora Lê - Belo Horizonte - MG - 2005
Este livro pode ser comprado no site Livraria Cultura.com

* Pedro Bandeira nasceu em Santos (SP), em 1942. Mudou-se para São Paulo em 1961 para estudar Ciências Sociais na USP. Além de professor, trabalhou em teatro profissional até 1967, como ator, diretor, cenógrafo e com teatro de bonecos. Trabalhou também como jornalista e publicitário até tornar-se somente escritor, a partir de 1983. É o autor de literatura juvenil mais vendido no Brasil. Algumas das suas principais obras: A Onça e o Saci; O Guizo do Gato; O Fantástico Mistério de Feiurinha; A Roupa Nova do Rei (Prêmio Jabuti); A Formiga e a Pomba; Laurinha; O Mistério da Fábrica de Livros; O Pequeno Dragão; As Cores de Laurinha; O Pequeno Fantasma; O Pequeno Bicho-Papão; Minha Primeira Paixão; O Pequeno Lobisomem; A Pequena Bruxa; e Brincadeira Mortal, entre outros.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

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Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.