Não dá para esquecer o impacto que era entrar no cinema

Por João Luiz Vieira (Professor Doutor de Cinema e Vídeo na Universidade Federal Fluminense. Agradecimentos especiais a Silvia Steinberg)

O cinema do fim da São João, em São Paulo, mais precisamente no número 1462 da importante avenida, é (era) o mitológico Comodoro, inaugurado em 16 de agosto de 1959 com o filme Isto é Cinerama, que lançava no Brasil, e exclusivamente em São Paulo, o "sistema que revolucionou o mundo das diversões", conforme ficou escrito por baixo de sua marquise, durante anos.

O Cinerama chegava, enfim, ao Brasil, depois de sete anos de total sucesso em algumas capitais e cidades importantes mundo afora. Eram poucas, porque ficava muito cara a instalação daquele sistema pioneiro de tela panorâmica de três projetores que, simultaneamente, formavam uma imagem de tamanho gigantesco, projetada numa imensa tela de 146 graus de curvatura.

Não dá para esquecer o impacto que era entrar no cinema, com ingressos comprados necessariamente com antecedência, poltronas numeradas (procurávamos sentar sempre na frente, assim, entre a sétima e a décima fileira, no meio, claro, quase que dentro da tela, mesmo por causa da curvatura), a excitação que toda aquela antecipação provocava, a sensação de que algo realmente especial estava prestes a acontecer, principalmente porque à frente só havia mesmo uma enorme cortina vermelha, generosa em pesadas pregas que cobriam toda a parte frontal do cinema, do teto ao chão.

Os espectadores iam enchendo a sala aos poucos e, em seguida, as luzes começavam a diminuir enquanto que as cortinas se abriam o suficiente para mostrar uma imagem quadrada, correspondente ao tamanho do 35mm normal. Na tela, em preto e branco, aparecia um documentário, apresentado por Lowell Thomas, produtor do espetáculo, que fazia um breve histórico cronológico e evolutivo das imagens em movimento, indo até a pré-história e o homem da caverna até, claro, o Cinerama, a "maior conquista do homem", etc.

Mostrava as câmeras, descrevia o processo de filmagem até que finalmente anunciava a novidade aos espectadores, na voz dublada e inconfundível do locutor Jorge Calhela (?), responsável pelos comerciais da Bozano - creme de barbear: "...e agora, senhoras e senhores... vamos ao Cinerama!" conclamando a platéia e inscrevendo-a diretamente dentro do espetáculo. Aí, já colorida, surgia a imagem do trenzinho subindo uma célebre montanha russa de Coney Island, no Brooklyn, imagem que se formava aos poucos, diante de nossos olhos maravilhados, exatamente sincronizada com as cortinas que, então, se abriam completamente.



Quando o trenzinho chegava na parte mais alta da estrutura da montanha russa, a imagem estava completa, a tela curva completamente aberta com os três projetores em ação e começava a queda vertiginosa do trenzinho ao mesmo tempo em que, por toda a sala, o som estereofônico se abria, num envolvimento com o espetáculo absolutamente inédito até então. Era uma sensação física, os espectadores se agarravam nos braços das poltronas. Você, digamos, estava "dentro do espetáculo" e dele fazia parte, como a publicidade não cansava de enfatizar.

Dá para imaginar o impacto provocado por toda essa tecnologia, principalmente aos olhos de um garoto de dez anos de idade, quando tudo sempre parece ainda maior. Todas as sessões tinham prólogo, intervalo e, no final, com as cortinas já fechadas, ainda apresentavam uma “música de saída” que acompanhava os espectadores no esvaziamento da sala. Era um ritual de verdade, incluindo os espectatores, em geral, bem arrumados. Como tínhamos família em SP, era para lá que íamos, eu e meu irmão, duas, três vezes por ano, de férias sempre. Não tinha programa melhor. Era chegar em São Paulo, para onde viajávamos pela Viação Cometa, naqueles também inesquecíveis e ultra confortáveis ônibus de aço, em design streamlined, modelo anos 50 da General Motors, com ar condicionado e vidro rayban. Esse modelo da Cometa ganhou aqui o apelido indígena de Morubixaba. No dia seguinte da chegada em SP, com ingressos comprados anteriormente pela família, lá estávamos excitados na fila do Comodoro.

Vi todos os seis filmes do Cinerama original lá exibidos ("este espetáculo é exclusivo do Cine Comodoro, em nenhum outro lugar da cidade, do estado, do Brasil você poderá vê-lo" alertava uma frase embaixo dos anúncios nos jornais). Foram filmes exibidos e muito reprisados entre 59 e 65, nesta ordem: Isto é Cinerama, Cinerama Holiday, As Sete Maravilhas do Mundo, Cinerama em Busca do Paraíso, Velas ao Vento e Aventura nos Mares do Sul (este narrado por Orson Welles).

Pelos títulos, dá bem para imaginar o que eram esse filmes de viagens. Depois, o formato se esgotou, não tinham mais filmes e, em 1965, o cinema foi reformado para exibição, em sua mesma tela gigantesca e curva de películas em 70mm (no princípio ainda mantendo o nome de Super Cinerama), sem emendas, com um único projetor, re-inaugurado com o filme de guerra Uma Batalha no Inferno. Continuei assistindo ali a filmes exibidos ainda com exclusividade, em Super Cinerama, como Khartoum, Nas Trilhas da Aventura, Os Bravos Morrem Lutando, Krakatoa - o Inferno de Java, além de versões ampliadas de 35mm para 70mm como Os Dez Mandamentos, por exemplo, entre muitos outros.

Já nesse final, começam as obras do Minhocão, o centro de SP foi ficando decadente e os cinemas fantásticos começaram um a um a fechar. Mas, no Rio, em Copacabana o antigo Roxy também lançava, em 1966, esse Super Cinerama 70mm, também exibindo Uma Batalha no Inferno, seguido de todos aqueles outros títulos.

Finalmente já poderíamos curtir no Rio um pouco mais daquela experiência (ainda que diferente, já que o verdadeiro Cinerama nunca aportou fora de SP). Foi no Roxy, por exemplo, que assisti a duas sessões seguidas de 2001, em agosto de 1968, sem conseguir sair do cinema, tal a emoção.

Depois, em 1969, re-inaugurava-se o Metro Passeio, agora chamado de Metro Boavista, com sua impressionante projeção D-150 (película 70mm) numa tela gigante, igualmente curva, com o filme As Sandálias do Pescador. Lá, assisti, entre outros títulos espetaculares, o magnífico A Filha de Ryan, de David Lean, além da reprise de A Conquista do Oeste, última produção do Cinerama original, de 1962 e que havia sido lançado no Brasil em cópias normais em 35mm. No Metro Boavista, apresentado em 70mm e projetado na tela curva de Dimensão-150, o filme resgatou seu impacto audiovisual original. Neste breve panorama das telas panorâmicas no Rio, vale lembrar que antes do Roxy, o Cine Vitória, ali na Senador Dantas, em 1965, inaugurava o 70mm no Rio com o lançamento em exclusividade do musical My Fair Lady, exibido ali durante meses, simultânea à exibição, no Cine Palácio, ali bem pertinho, de A Noviça Rebelde, projetado em Todd-AO durante 54 semanas consecutivas entre 1965 e 1966.

O Roxy foi dividido em três, o Metro Boavista fechado, o Vitória idem...e, infelizmente, ficou o Rio, cidade grande e culturalmente importante, desprovido de uma sala sequer para fazer algum lançamento especial nesse formato, ao contrário de Nova York, Londres, Paris, Cidade do México, Buenos Aires e mesmo São Paulo.

Quem nunca viu, de verdade, o que estou descrevendo, não tem uma pálida idéia do que tenha sido esses formatos de projeção. Assistir 2001: Uma Odisséia no Espaço em qualquer tela plana de qualquer multiplex ou, pior, em quaisquer desses novos monitores de televisão widescreen é um insulto ao filme de Stanley Kubrick. Em São Paulo, o Comodoro ainda é uma lembrança viva, pois está lá, aparentemente intacto em seu interior, fechado desde março de 97. A marquise ainda anuncia sua última atração, Evita. Tem um telefone na porta, 877-1899 com um letreiro "vende-se". Anotei, de onda. Dá vontade de perguntar o preço...sonho impossível!

Texto criado em 1999 e publicado no site Cinemascópio, de Kleber Mendonça Filho.

Veja, também, artigo do mesmo autor, neste blog:
MARAVILHAS DO CINERAMA

CINE COMODORO CINERAMA (01/09/2000)
por Kleber Mendonça Filho

João Luiz Vieira sempre falou sobre registrar o Cine Comodoro, seja com um texto ou fotos. Com o triste incêndio que o destruiu, na tarde de sexta-feira, 18 de Agosto, nossa homenagem ao Cinema foi montada meio que às pressas, mas com a certeza de que estamos tentando honrar o valor histórico e cultural que a sala teve para São Paulo.

Veja, também, artigo do mesmo autor, neste blog:
COMODORO VISITADO ANTES DO INCÊNDIO
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.