O som no cinema

Por Carlos Klachquin (Consultor da Dolby para a América Latina)

OS PRIMÓRDIOS

Vamos fazer uma viagem que se inicia no século XIX e termina hoje, com os desafios da atualidade. Já por volta de 1880 era possível encontrar vários sistemas que permitiam visualizar imagens em movimento. Normalmente eram dispositivos individuais, e até "lanternas mágicas" com algum grau de movimento. Mas eram só imagens. A gravação, reprodução, ou a simples transmissão do som estavam engatinhando nos laboratórios Bell e na oficina de Edison.

Havia máquinas de visão individuais com imagens em movimento, como as de Edison, tipo caça-níqueis, pois ele não queria saber de democráticas telas grandes "que matariam a galinha dos ovos de ouro".

Mas para poder estabelecer uma base de partida, vamos chamar de Cinema a uma imagem em movimento que é projetada numa tela, numa sala escura e onde você paga um ingresso. Em 1895 deu-se a primeira experiência desse tipo, no famoso porão do Boulevard dos Capuchines, em Paris (hoje, parte do Café de la Paix, mas não há sequer uma placa que indique que ali foi realizada a 1ª projeção de cinema da história!) graças a um empreendimento dos irmãos Lumière.

Vale a pena lembrar que bem antes da introdução do som, o cinema já havia deixado de ser um espetáculo de circo para ter um valor próprio. Começava a ser considerado uma indústria e uma arte. Os primeiros filmes eram simples tomadas de poucos segundos, tipo "Saída dos operários de fábrica", "A chegada do trem", etc.

Mas alguns gênios criativos aparecem (por exemplo, George Meliés), percebendo que logo o público cansaria de assistir atração instantânea e primária das simples tomadas, decidem experimentar e contar uma história.

A partir dessas primeiras experiências, o cinema se descobre e revela, começa a inventar a sua linguagem, e teremos depois os aportes de Eisenstein, Griffith, Bela Balàz entre muitos outros, se inventa a montagem, a formulação de um roteiro, ou seja, o cinema se reinventa, se potencializa, e o público responde com um interesse enorme. Logo no início começa a gênese da ideia da introdução da dimensão do som, que gera um novo poder de atração e sedução.

Sabemos pela nossa experiência diária, que a audição e a visão são os sentidos que nos dão maior informação. Logo ficou evidente que a imagem sozinha em movimento não era suficiente, estava incompleta: o sentido da audição naturalmente reclamava a sua parte.

Assim, começaram os acompanhamentos de piano para dar uma ambiência ao filme, e dessa forma melhor sustentar a ação, gerar expectativa ou melhor descrever o personagem. Mas cada sessão precisava de um piano, e de um bom pianista com certo talento de improvisação. E do salário dele.

Os exibidores pediam alguma forma de registrar o som e reproduzi-lo na sessão, da mesma maneira que já acontecia com a imagem.

A bitola de 35mm foi estabelecida, em 1895, como uma forma de trabalhar, dentre muitas outras que não sobreviveram. Se bem na virada do século existiam várias maneiras de registrar e reproduzir o som, elas não eram apropriadas para serem copiadas, pois eram baseadas em cilindros.

Em 1910, aparece o som em disco, que pode ser copiado e fabricado em série por prensado. Grande revolução de vitrolas, discos e cornetas nas vitrines. E como o disco funcionava, a vitrola funcionava, foi natural contar com eles no cinema.

O sistema mais conhecido e que teve certo sucesso comercial foi chamado posteriormente de Vitaphone. Era um sistema no qual se acompanhava o filme com um disco de 16 polegadas.

Embora dispensasse o pianista, o disco não era a solução ideal. Pensemos nas consequências de um pulo da agulha no sincronismo, ou um risco na superfície, a logística da distribuição, a dificuldade do transporte, a fragilidade, etc., além do custo de fabricação.

O sincronismo se conseguia mecanicamente, já que o motor acionava tanto o projetor quanto o prato do disco. Dessa forma, mecanicamente, através de engrenagens, conseguia-se que os dois rodassem juntos. E o start?

O disco, ao contrário do convencional, tocava de dentro para fora, e tinha um pequeno sulco, uma posição de descanso da agulha que marcava o início.

A operação não era simples, pois quando o filme se partia, o que era muito frequente nesta época, era necessário voltar o filme ao início, ou colocar a agulha chutando em algum lugar "próximo". Sincronismo não era muito cotizado. "Ser operador nesta época, era um trabalho com risco de vida".

O SOM NA PELÍCULA

Estes sistemas, embora primitivos, permitiram os primeiros filmes sonoros. Na maior parte das vezes, os discos só registravam a música, assim o sincronismo não era muito crítico.

Geralmente o diálogo não era registrado. Inclusive "O Cantor de Jazz", em 1927, que tem sincronismo labial, é em sua maior parte uma coleção de músicas, reflete a modalidade da época: são basicamente quadros musicais filmados - um teatro filmado.

Mas os problemas mencionados dos discos levam a ideia de colocar o som na película mesmo, garantindo o sincronismo e barateando o custo de distribuição. Mas como colocar o som na película?

Nenhuma invenção parece ter pai único. Não há uma experiência única. Inclusive a partir de 1900, há uma profusão de experiências, utilizando todo tipo de ideias, algumas realmente esdrúxulas, que com maior ou menor sucesso funcionavam. Para citar algumas :
  • 1900 - o som ótico de Ruhmer que ocupava toda a película de 35 mm
  • 1907 - Lauste com outro sistema ótico
  • 1905 - Frau Von Madeler com um sistema em que o som era gravado serrilhando a borda do filme (??!!).
  • 1910 - aparece o som em disco, que aperfeiçoado, reapareceria como Vitaphone em 1915
  • 1927 - som ótico de densidade variável e depois área variável: Movietone.
Em definitivo, é muito difícil encontrar uma pessoa, tecnologia ou filme que seja a pedra angular e que marque esse início. Diferentes empresas e estúdios apresentam técnicas de som óptico num período de poucos meses.

Como acontece em outras áreas, por causa do desenvolvimento tecnológico e pela pressão da necessidade, há um ambiente pronto para o nascimento de alguns inventos e desenvolvimentos, e eles acabam acontecendo, às vezes quase simultaneamente.

Mas se gostamos de sinalizar divisórias de águas, alguns meses, entre fins de 1927 e início de 1928, são importantes. O "Cantor de Jazz" e "Don Juan" são importantes, porque é com eles que o sistema de som óptico se torna viável comercialmente. A indústria consegue que ele funcione, que se comercialize, e que seja prático. Não basta ter uma invenção genial, ela tem que funcionar de forma prática na realidade da rua, ter um valor que permita a compra, e que as pessoas e a indústria se interessem.

É isso que vai definir realmente o sucesso do sistema. Veremos isto acontecer novamente na década de 90 com o som digital no cinema. Mas nada é da noite para o dia. Por exemplo, o som óptico teve sua primeira experiência já em 1900 (Rhumer) e tiveram que se passar 27 anos para ele se concretizar.

A partir de 1927, entramos numa época de transição do sistema Vitaphone de disco para o sistema óptico e as salas tiveram que se equipar para que pudessem usar os dois sistemas. Durante estes 10 anos, de 1927 a 1937, acontece um verdadeiro estouro no número de salas de projeção e as cifras variam entre 15.000 e 18.000 salas só nos EUA.

Este rápido crescimento por outro lado gerou a necessidade de padronizar as instalações e a forma de se produzir os filmes.

Assim, um pouco forçada pela experiência e a necessidade, a própria indústria estabelece primeiro um determinado padrão de trabalho empírico e, finalmente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, começa a formalizar e organizar o sistema todo: como o som óptico será registrado no filme, como será equalizado, como serão as caixas de som das salas, etc.

O "padrão da academia", que foi estabelecido em 1938, é o que hoje chamamos de "som monoural". As suas características naturalmente refletem a tecnologia desta época. Imaginemos a resposta de frequências das caixas de som de 1937, o tipo de cornetas, o tipo de microfone que se usava, o som óptico das câmeras ópticas.

Era um som bastante distorcido, a resposta de frequência penosamente atingia 5 ou 6 Khz, equivalente ao som de rádio AM (bastante ruidoso). Com o passar dos anos foram introduzidas algumas melhorias, como as bandas duo-bilaterais, mas nada especialmente diferente.

O interessante é que este padrão permanece até hoje no cinema. Alguém aceitaria hoje um som de vitrola em casa?

jazz-singer

A indústria também se aperfeiçoa, aparecem os métodos de "área variável", de registro óptico bilateral, etc., que diminuem a distorção.

Os primeiros sistemas de registro óptico de cinema, de 1927, utilizavam o sistema simples, ou seja, na hora que se registrava o filme, se registrava a trilha de som, na mesma câmera. Era um processo muito complicado. Aliás, como a trilha de som não pode estar no mesmo lugar que a imagem, por ser dois sistemas ópticos separados, gerava um problema enorme para poder editar o filme, porque a película é cortada em função da imagem, mas a trilha do som que a acompanha está deslocada 20 fotogramas.

Assim, foi inventado o sistema duplo: durante a filmagem, além do câmera-man com sua câmera, um outro operador gravava o som num sistema ótico com um microfone.

E, depois, era possível editar e cortar a vontade o negativo de som, independente da imagem. Teríamos assim a edição de som separada da montagem da imagem. Viria depois a mixagem final com a música, da qual resultaria um negativo de som, que junto ao da imagem produziriam a cópia. É o sistema atual.

E como veremos, apareceram outras descobertas e invenções, em outras direções.

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Texto do site www.abcine.org.br
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.