A fila de cinema

Crônica de Shajanan Flora, publicada no jornal "Folha da Manhã", de 08/01/1952.
O
único divertimento do paulistano. Sim, se não é o único, ao menos parece ser; mesmo porque além desse são pouquíssimos os outros. Por isso mesmo, o que acontece é que aos domingos, vésperas de feriados ou sábados, as casas de cinema desta capital ficam superlotadas. O paulistano gostou tanto desse seu divertimento quase único que o resultado não se fez esperar: surgiram cinemas e mais cinemas, salas e mais salas e cada um procura superar o outro em luxo, conforto, beleza. Todos sabem que os cinemas de São Paulo são os melhores do Brasil, senão da América do Sul.
Existem atualmente perto de cento e cinquenta cinemas nesta capital; só no centro existem duas dezenas e por isso mesmo esse centro é chamado Cinelândia.
Pois bem. Apesar dessa fartura de casas de espetáculos, apesar do desenvolvimento desse setor, apesar da vastidão das salas de projeção, o fato é que, nesta terra, ir ao cinema não quer dizer apenas "ir ao cinema". Antes, durante e depois, o paulistano passa por uma série de acontecimentos que, para falar verdade, não sei se deveriam aumentar o preço desse espetáculo eclético ou diminuí-lo; isso, por uma simples razão: acontece tanta coisa "fora do programa" que, se levarmos em consideração o lado pitoresco, deveríamos pagar mais; mas se, ao contrário, levarmos em consideração os sacrifícios, tropeços e aborrecimentos, deveríamos pagar menos ou não pagar.
Para começar: os cinemas não exigem sacrifícios apenas dos que pretendem ver uma fita, mas também dos que não têm nada a ver com a história; assim é que aquelas filas enormes, aquelas verdadeiras serpentes que se movem lentamente pela calçada afora, por vezes dando a volta à esquina, além de deixar em mísero estado os pés dos candidatos a ver um filme, ainda atrapalham os que por ali transitam. Antigamente existiam as pessoas do tipo "boa vida", que, com a cara mais angelical do mundo, chegavam para aquelas que estavam quase na bilheteria e pediam para comprar a entrada; felizmente, o paulistano já tem a resposta sensata que, neste caso, não se faz esperar: "Perdão cavalheiro (ou senhora); o fim da fila é lá" e aponta para a última pessoa, como quem diz: se eu entrei na fila e esperei esse tempo todo, por que ele (ou ela) não pode também fazer o mesmo? Por que eu hei de "bancar o otário?".
E enquanto não chega a sua vez de comprar a entrada, dá uma olhadela nos que ainda nem entraram na fila: é um rapaz que certamente espera a namorada; uma ou duas garotas que olham de minuto em minuto para o relógio: "que demora!" ou então é ainda aquele rapaz que, de todo garboso, murchou como quê; a causa? ora, "ela" prometera que estaria ali naquela hora, mas... não com a mamãe!
Chega, enfim, à bilheteria. Duas pessoas atendendo. Rápidas, velozes, mas humanas e, portanto, não tão rápidas e a prova disso é a fila enorme, serpenteante, longa, lá fora. O aviso "sujeito à espera" já é tão comum que ninguém se aborrece mais. Afinal, vai ter mesmo que enfrentar outra fila para entrar na sala de projeção... Enquanto isso, o bilheteiro vai lhe dando o troco e ele, avisado já do "conto do troco", não "cai" mais e espera, direitinho até o final da conta.
Finalmente, eis o candidato a ver um filme na sala de projeção.
Escuridão. Acostuma a vista. Gente em pé, esperando o lugar. O aviso "sujeito a espera" vale desde a porta até a cadeira, por isso, paciência. Espera-se. Se é "sujeito a espera", tanto faz que seja para comprar bilhete, para entrar na sala, para sentar, para entrar no "toilette", para telefonar ou beber água; existem filas para tudo e o aviso estava lá, ninguém pode alegar ignorância do fato. É preciso esperar até pelos vagalumes (lanterninhas) - se quiser - porque existem os atenciosos, mas também os de má vontade, apesar dos níqueis e notas passadas no escuro...
Ahnnnn... Uff! Que alívio! Finalmente consegui um lugar. E intimamente pensa: agora posso ver calmamente o filme. Acomoda-se, procura não esticar as "asas" para os lados, mas - sempre o mas - esse camarada alto da frente bem que podia acomodar-se melhor na cadeira; justamente ali na sua frente, ele foi sentar-se.
Enfim, depois de tanto sacrifício, é melhor mesmo ficar ali sentado do que em pé; se não pode ver o filme direito, esperará pela outra sessão; essa já está quase no fim, afinal de contas.
Dali a pouco - plafft! - uma luz atinge-lhe o rosto em cheio como se fosse "flash" de fotógrafo de imprensa. Estarão procurando algum criminoso? Será que querem focalizá-lo para uma fotografia? Não, nada disso; apenas a luz "acariciante" da lanterna do vagalume à procura de um lugar; quase que a fileira toda foi atingida pelo jacto luminoso. É, esses vagalumes novatos, sem classe...
Tudo calmo. Parece que se acabaram as preocupações e os contratempos. Disse parece? Foi melhor, porque, na realidade, o que acontece é que não para aí o "programa extra" da expressão "ir ao cinema".
Existem ainda os casalzinhos que nos atrapalham a visão, tão juntinhos ficam; os "engraçadinhos" também constituem outro caso sério, desses que mexem com os nervos e a paciência de qualquer cidadão ou cidadã; também existem os "palpiteiros" errados, mas todos esses infratores, em compensação tem as suas punições; assim é que, se os casalzinhos nos atrapalham, em compensação os guardas e os vagalumes os atrapalham também; para os "engraçadinhos" existe a compensação dos beliscões e alfinetes que, tão logo "atingem o alvo" tanto mais depressa fazem com que eles sumam do nosso lado; se os palpiteiros soltam uma boa piada, a compensação é a risada geral; se dão palpite errado, em compensação ninguém ri e ele acaba por desistir. Para os que tem mania de cochichar, comentar o filme ou desembrulhar balas e chocolates, sem a menor consideração, existe a compensação de podermos dizer, acompanhados por mais meia dúzia: "pssssiiiiuuuu...".
E a última compensação: se entramos na hora certa da sessão e somos obrigados a participar daquela espécie de "estouro da boiada", daquela correria aos empurrões e pisões para conseguir um lugar, em compensação, quando termina a sessão saímos - só por espirito de vingança - calma e lentamente, enquanto a próxima turma espera ansiosa, atrás das correntes, pelo seguinte "estouro da boiada", pela hora do "salve-se quem puder".
E assim o paulistano se diverte ao ir ao cinema.
"Depois de 60 anos da publicação desta crônica, podemos observar que muitas coisas mudaram para melhor em nossos cinemas, mas outras não muito. O jornalista "Cri-crítico", do suplemento "Divirta-se" (jornal "O Estado de S.Paulo"), se frequentasse os cinemas desta época, já teria sofrido um infarto (rs. rs.)". Antonio Ricardo Soriano
Agradeço a colaboração de Nair Brustolin P. da Silva e Luiz Carlos Pereira da Silva.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.