O lançamento do CinemaScope

Por Sergio Augusto (Jornal “Folha de S.Paulo” - Sucursal do Rio de Janeiro - 24/09/1993)

As maiores emoções que o cinema já ofereceu ocorreram em 1895 (quando ele chegou), em 1927 (quando ele falou) e, em 1953 (quando sua tela cresceu).

Em 24/09/1953, a Fox lançou no Chinese Theatre, de Hollywood, o seu primeiro filme em CinemaScope, “O Manto Sagrado”. De bonificação, além do CinemaScope, a raposa do século 20, “tirou da cartola” o som estéreo.

Poucos meses depois, a novidade chegou ao Brasil, repetindo aqui o mesmo “frisson”. Essa emoção eu tive a sorte de viver, no velho cinema Palácio, no centro do Rio, quem sabe até na mesma poltrona onde, a 15 de abril de 1954, a Sra. Idalina Godoi de Azevedo seria fulminada por um infarto, supostamente provocado pelo estrondo do raio na cena em que Judas se identifica ao gladiador Demétrio. Que eu saiba, Dna. Idalina foi a primeira e única vítima fatal do CinemaScope.

Hollywood, início dos anos 50. Pânico nos bastidores: a TV ameaçava arruinar a indústria de filmes. O que fazer para atrair os americanos de volta aos cinemas? Em 1952, inventaram o Cinerama. Em vão. Entre o custo e o benefício havia um abismo intransponível. Em seguida, aperfeiçoaram uma engenhoca dos anos 20, a terceira dimensão (ou 3D). Mas, sem o amparo de um grande estúdio, durou muito pouco.

E uma vez mais, os magnatas de Hollywood se perguntaram: “O que fazer?”. Darryl F. Zanuck, dono da Fox, encontrou a resposta certa num antigo invento do francês Henri Chrétien, patenteado em 1927 com o nome de Sistema Hypergonar. E que consistia, basicamente, numa câmera dotada de lente anamórfica, capaz de ampliar imagens destinadas a uma tela duas vezes e meia maior que a tradicional. Aperfeiçoado e “estereofonizado”, o sistema de Chrétien renasceu como CinemaScope, rendendo uma fortuna em royalties* aos cofres da Fox, e ensejando uma série de imitações: SuperScope, WarnerScope, Naturama, Technirama, MetroScope...

Os primeiros filmes da era “cinemascópica” foram: o “O Manto Sagrado”, “Como Agarrar um Milionário”, “Rochedos da Morte” e “Rebelião na Índia”.

No início, os cineastas e os diretores de fotografia encontraram enormes dificuldades para preencher todos os cantos da tela e superar o maior obstáculo do novo sistema, a pouca profundidade de foco. “Só é bom para filmar jiboias”, resmungou George Stevens. “E também funerais”, acrescentou Fritz Lang. Apesar de tudo, o CinemaScope emplacou, rendendo à Fox 134 indicações ao Oscar e 24 estatuetas.

Com o tempo, conseguiram domá-lo e extrair dele notáveis efeitos dramáticos. Exemplos clássicos: “Vidas Amargas”, de Elia Kazan; “Bom-dia, Tristeza”, de Otto Preminger; “Lola Montes”, de Max Ophuls. Ainda assim, não durou mais de 15 anos. Em 1967, a Fox aposentou o sistema de vez com um thriller barato, “Perigo Supremo”. Àquela altura, também a raposa já se rendera aos benefícios do PanaVision.

*Royaltie é o termo utilizado para designar a importância paga ao detentor ou proprietário ou um território, recurso natural, produto, marca, patente de produto, processo de produção, ou obra original, pelos direitos de exploração, uso, distribuição ou comercialização do referido produto ou tecnologia. Os detentores ou proprietários recebem porcentagens geralmente pré-fixadas das vendas finais ou dos lucros obtidos por aquele que extrai o recurso natural, ou fabrica e comercializa um produto ou tecnologia, assim como o concurso de suas marcas ou dos lucros obtidos com essas operações. O proprietário em questão pode ser uma pessoa física, uma empresa ou o próprio Estado.

Agradeço a colaboração de Nair Brustolin P. da Silva e Luiz Carlos Pereira da Silva.

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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.