Cine Santa Cecília: uma visão poética

Punti Luminosi
Uma visão poética do passado paulistano, penetrando na intimidade do cine Santa Cecília, monumento dos anos 30 onde os meninos e as meninas sonhavam e seus papais, vovós... perdidos entre os deuses das telas e o próprio cenário de miragem, pontos luminosos num teto que mais parecia um céu.

Na Av. General Olímpio da Silveira, nº 201 existia um circo & um palhaço. Trapezistas, engolidores de fogo, equilibristas & um cantor que tocava ao mesmo tempo gaita e guitarra & fazia TI RO LE RIIIK para a lua metálica & o verão cheio de pipocas.


Na Av. General Olímpio da Silveira, nº 215 havia um cinema com um dragão como luminoso & no teto, quando as luzes se apagavam, acendiam-se estrelas. Os bancos da sala de espera tinham elefantes nas extremidades & dois budas fitavam a sala com seus olhos verdes.



O circo chamava-se Circo Piolim e vocês sabem muito bem disso. O cinema era o Cine Santa Cecília e vocês sabem, é claro que sabem... Acontece que o circo e o cinema, por mais barroco que seja o poeta, são supérfluos.

E, por mais romântico que seja o poeta, o circo é anacrônico e os cinemas podem acabar. Mesmo que Buda nos fite no escuro, inda que tenham Dragões na fachada & as estrelas de cinema usem Lever ou Lux... Mas, por mais moderno que seja o poeta, ele não pode recusar-se a contar. Ele é mais curioso que o leitor...

Dê-me, pois tempo para terminar este almoço e esta sobremesa, espere um momento que já guardo o pente Flamengo no bolso traseiro de minha primeira calça comprida comprada no Mappin. Ela é larga o suficiente para que eu cresça e consiga fazer minhas pernas romperem as costuras. Esta meia Lupo azul-marinho é sensacional... A camisa é um pouco velha, mas o paletó, graças a Deus! Cobre bem o traseiro. Meto o pente no bolso interno do paletó (é mais distinto), testo o topete cheio de Glostora e, vamos em frente...

Como é bonita a linha que divide a sombra do sol lá fora. E como é forte esse sol! Vou pela Rua Lopes Chaves sem saber quem foi Lopes chaves ou Mário de Andrade. Dobro à esquerda a rua estreita que depois se alarga e tem uma casa no meio dela dividindo-a e onde mora o Sr. Nunca Ninguém Viu. Lá não tem luz, nem telefone, as janelas nunca se abrem e, no entanto, diz-se que lá mora um velho que inventou um corante para as balas Jujuba. Ele é careca, portanto forte, mora com duas irmãs que nunca vi, mas sei que são velhas brancas e fracas, não têm dentes e esperam a morte segurando um lampião comprido. Prossigo enfrentando os reflexos das vidraças partidas onde eu nunca atirei uma pedra.

Rua acima, à esquerda, um campinho de futebol e a molecada da rua de lá, que tem direito ao campo de cá, porque suas casas dão fundos com o lado de cá, embora a frente dê para os cortiços do lado de lá, onde moram aquelas pessoas que podem fazer mal às mocinhas e, eventualmente, aos meninos também.

No meio do campo, uma égua lustra-se ao sol de Domingo; em volta dela os meninos falam alto e gesticulam e os dois italianinhos gêmeos, aqueles que passam tocando caixa em latas, que cortam os cabelos à escovinha, que têm um aspecto tão azul-marinho e que sempre me pareceram ligeiramente epiléticos, estão mamando na égua, incentivados pela garotada. As tetas se alongam como as da loba de Roma, alongam-se mais e mais, e, ó cena olímpica! o Domingo vira do avesso! A égua é cavalo! A criançada espalhasse, satisfeita como lobos lascivos, quando o pai peso-mosca dos meninos agita os punhos sobre o muro e jura pelo Cristóvão Colombo, figlio di mignota, que vai matar todo mundo, principalmente a mim que continuei lá olhando suas orelhas de mosca pegando fogo.

O carcamano tinha uma escopeta, dizia-se, mas eu já estava atravessando a General Olímpio da Silveira e misturando-me à fila do Cine Santa Cecília. Essa fila que termina na Rua Conselheiro Brotero, exatamente do outro lado daquela enorme casa branca e alta que dizem... Essa é outra história e voltaremos a ela.

Passo pela bilheteria lateral (sempre fechada) e na esquina da General Olímpio, lá no alto, exorcizando esse vórtice mágico onde Santa Cecília, Higienópolis, Barra Funda e Perdizes se encontram, está o Dragão de ferro com as asas cobrindo a cauda demoníaca e uma estrela encimando-o onde se lê: Cine Santa Cecília.

Se Cecília, como diz o Almanak, quer dizer cega, que olhos extraíram do puro sonho essa arquitetura? Que alma pulsou sobre aquele espaço e disse: “Aqui ficará o Dragão e aqui esta cúpula que deverá ser plena e humana como o ventre da mulher?” Quem traçou a rigorosa teoria de eixos disfarçada por essa casca, que consegue transformar uma esquina banal num encontro com a eternidade? Ele também nasceu de mulher. Seu nome é: Álvaro de Salles Oliveira (engenheiro). Um nome tão real quanto Fernam Garcia Escaravunha ou Joan de Cangas. Foi ele que gravou: - Álvaro Fecit.

Ele sabia que, nessa tarde de 1956, o calor era forte e precisávamos sair instantaneamente dessa luz que expõe nossa mortalidade e entrar nessas *abóbadas de ópio e hashish que nos afirmam eternos. Essas abóbodas: três na sala de espera e a grande abóbada da sala de espetáculos. Em 1973, escrevi: As abóbadas / abobadas / viram-se / dependuradas / nas abóbadas / das abobadas. Dois anos depois encontrei um título (via Sêneca): Apocoloquintose (a transformação do “divino” Cláudio em abóbora). Hoje escrevo isto tudo porque detesto mistérios.

A bilheteria do cinema, consegui encontrá-la num depósito na Av. Celso Garcia. Os bancos da sala de espera (com elefantes nas extremidades), encontrei-os acolá na mesma avenida. Atualmente sobrevivem num cinema da Penha. As conchas marinhas do teto, na casa de um burocrata da sétima arte transformadas em abajur.

E a ideia de procurar o Dragão e colocá-lo nos portões de uma casa com enormes jardins e, para habitá-la, uma loira de vestido justo que me abandonaria partindo todos os espelhos, tirei do Orson Welles. Mas naquele tempo eu ia ao cinema e não tinha nenhum livro e tudo que eu dizia tinha o som dos saudáveis jacarés do pântano. Eu nunca sentia que Fernando Pessoa dizia comigo: “no tempo em que festejavam o dia dos meus anos eu era feliz e ninguém tinha morrido”. Ou Mallarmé: “A carne é triste e eu já li todos os livros, todos”.

A sala de espera tinha espelhos e colunas encimadas por elefantes de marfim e, já disse, três abóbadas com conchas e elementos florais. E se esqueci, nessa tentativa de descrever de fora para dentro, de dentro para fora se via a rua com a luz filtrada por treliças de madeira que me faziam merecer tantas odaliscas quanto os vizires que logo mais seriam envenenados pelos ministros de olhar rapace. Descarnemos um pouco esta descrição, que nunca chegará a Nouveau Roman e copiemos a nós mesmos quando em 1975 escrevemos:
“É um grande recinto em desnível, a plateia é uma laje inclinada, há um mezanino com suporte lateral, onde estão os camarotes (solução clássica). Exatamente no decór é que o Cine Santa Cecília se transfigura. Esse decór minucioso e fantástico que o arquiteto Joseph Pitillik aplicou-lhe. Os elementos decorativos da fachada contribuem para isso, basta observar o Dragão sobre a esquina da Rua Conselheiro Brotero. Ao entrar no edifício, a grande sala de espera aumenta a sensação: bancos de quatro metros, com elefantes feitos em madeira entalhada nas extremidades, as abóbadas extremamente trabalhadas em estilo oriental, as luminárias: conchas de vidro colorido, os espelhos, as colunas com cabeças de elefante, as arcadas com painéis estranhos lembrando mesquitas ou templos muçulmanos, mas daquela arte que na realidade os árabes levaram para o Norte da Índia. O painel desenhado na arcada esquerda tendo ao pé o bronze de uma mulher em posição de meditação é bem característico disso. É evidente que se trata de uma obra eclética, onde encontramos desde motivos florais até elementos geometrizantes. A grande abóbada de inspiração zenital contribuía decisivamente para criar um ambiente de sonho no interior do cinema. Possuía estrelas de 160 a 60 centímetros de diâmetro, iluminadas desde o interior, que se acendiam progressivamente enquanto o cinema escurecia para o início da sessão. Graças a exaustores colocados no recinto e à permanência da iluminação das estrelas, tinha-se a impressão de estar-se ao ar livre. Graças às figuras de bronze ao lado da boca de cena que permaneciam com as pupilas iluminadas durante a projeção e aos efeitos mágicos da abóbada, estávamos em plena viagem pela Slumberland. O efeito quase hipnótico conseguido é atestado pela permanência na memória das pessoas...”

Foi lá que a garota que eu amava trouxe uma amiga muito mais bonita que ela para sentar comigo e foi sentar com meu melhor amigo – o que quase me matou de ciúme. Para lá foram as três costureirinhas de Mário de Andrade. Desse cinema falou Guilherme de Almeida. Lá, ele presume, encontraram-se Oswald de Andrade e Mme. Rollah num dia de chuva oblíqua e dissimulada. Por lá passava o bonde Penha-Lapa, que eu sempre detestei, pois meu herói era o Barra Funda 12 ou 13, o Vila Buarque e o misterioso Rubino de Oliveira.

Lá aconteceram tantas coisas que minha imaginação fatigada recusa-se a liberar e minha memória machucada evita projetar. Ezra Pound e Eça de Queiroz, juntos, lançaram daquela esquina imprecações contra todos que afirmam que Greta Garbo é melhor que Monica Vitti, que Totó não é o melhor cômico do cinema, que Roberto Piva não é o maior poeta brasileiro, que Muhammad Ali se chama Cassius Clay, que a palavra escrita não é a mais fascinante das artes, que Lex Baxter não foi o melhor Tarzan.

Se existisse o Cine Santa Cecília seria o melhor contraponto para um filme de Tarantino, a melhor solução para aquela encruzilhada. Como ele foi destruído pela dentadura de ferro do “progress” e como ninguém pôde ou quis impedir, hoje ele é um crediário de pneus embaixo do Elevado Costa e Silva, popularmente conhecido por Minhocão. Sua terra amarela e maldita, e nela nunca nada existirá para sempre. Há anos Hermes Macedo mandou destruí-lo, há anos ordenaram a Piolim que abandonasse o circo e o desmontaram. Desde então, os dois espaços lá estão: inúteis, desolados, malditos. A casa branca, em frente ao cinema, que tem uma estranha história, é hoje um posto de gasolina. Piolim morreu pobre e sem circo. De que vale uma medalha no peito e o nome numa rua (é claro que essa rua existe). Um palhaço quer um circo, espaço sagrado, elo entre o Homem e o Sonho.

Diga-se dos donos de São Paulo, que carregam tanta culpa, que eles despojaram, humilharam e entristeceram seu maior artista de circo, que eles destruíram um cinema maravilhoso e por anos não tiveram imaginação para construir nada em seu lugar. Que eles nunca farão, isso eu vejo claro como o dia, nada que dure onde existiu um cinema protegido por Santa Cecília e um circo que pertenceu ao querido Piolim.

Este texto é o desenvolvimento poético de uma tese minha que afirma existirem na paisagem urbana elementos que se transfiguram em totens. Ao serem destruídos, tornam maldito o espaço que ocupavam.

Agradecimentos: arquitetos Júlio Katinsky e Maria Helena Flynn.

Pesquisa realizada durante o Curso de Pós-Graduação “Art-Déco no Brasil”, dado por Aracy Amaral – ECA/USP.
Texto publicado na revista “Cidade”, nº 4, 1996. Publicação no blog autorizada pelo autor.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.