Na Inglaterra e nos EUA, o Cinerama é Patrimônio Histórico Cultural

Por Antonio Ricardo Soriano

Já mostrei no blog, a restauração e a reabertura do Seattle Cinerama Theatre. Agora, destaco o Pictureville Cinema (Bradford, Inglaterra). Depois será a vez do Cinerama Dome (Hollywood, Califórnia, EUA). São estes três, os únicos cinemas no mundo, que podem exibir filmes produzidos em Cinerama, com exibição com três projetores funcionando simultâneamente. Existe, também, um privativo na Austrália.



Pictureville Cinema

O Pictureville Cinema é um cinema localizado no National Media Museum, em Bradford, West York Shire, Inglaterra. Foi inaugurado em 8 de abril de 1992, com a exibição do filme “Hook”, de Steven Spielberg, com projeção em 35 mm e som divididos em 6 canais estereofônicos. O Pictureville acolhe três festivais anuais de cinema: Bradford International Film Festival (em março), Mango Festival (em setembro) e Bradford Animation Festival (em novembro). Desde 1994, o Pictureville tem sido a casa do Widescreen Weekend, evento anual dos fãs do Cinerama e dos diversos tipos de projeções em 70 mm. Os finais de semana atraem uma enorme quantidade de entusiastas da “Tela Larga” de todo o mundo.



Auditório
São 306 lugares, incluindo o espaço para duas cadeiras de rodas. Na frente da tela há um pequeno palco.



Sala de projeção
Equipamentos de áudio:
Cinemeccanica A6 Cinerama Sound 35mm dubber with specially made Teccon 7-track Cinerama head.
Dolby Stereo CP200 cinema sound processor. Dolby MPU-1 (Magnetic sound). Dolby SRA5 Spectral Recording. Dolby DA20 Dolby Digital. Sony Dynamic Digital Sound DFP-D2000 processor (SDDS). Digital Theater Systems S—DTS-6 processor (DTS). 10-JBL 8330-DK surround speakers (Surrounds will be upgraded soon). Electro Voice screen speakers. One set of 5 screen channels behind both screens.
Amplifiers: 3-QSC USA 1300 (2x650 Watt) for screen speakers and 3-QSC USA 850 (2x425 watt) for subwoofer and surrounds.
Equipamentos de projeção:
3-Cinemeccanica Victoria 8 Cinerama projectors (Able, Baker & Charlie) electronically locked together by Selsyn motors. 1-Cinemeccanica Victoria 8 70/35 projector. 1-Philips DP70 Todd-AO projector (To be installed). Cinemeccanica CNR-5 70/35 non-rewind plattersystem with 5 decks.



3000 watt/110 amps Osram xenon on each Cinerama projector. 4500 watt /140 amps Osram xenon on the Victoria 8 70/35 (and the DP70 when installed).
3-strip Cinerama is operated by two projectionists. Projection lenses are from Schneider and ISCO in Germany. Fixed lens on Baker. Zoom lenses on Able and Charlie.
Focal length on lens for flat screen 70mm film is 85mm. Focal length for 70mm on Cinerama screen is 65mm.
Vários formatos de filmes podem ser projetados nas telas do Pictureville: Cinerama, Dimensão 150, Ultra Panavision 70, Todd-AO e outros.

Telas
São dois conjuntos de tela. Existe a tela comum (10,2 m x 4,6 m) onde são exibidos os filmes em 35 e 70 mm. Atrás desta tela existem cinco conjuntos de alto-falantes para a reprodução de som em cinco canais. A tela gigante Cinerama é revelada quando a primeira tela e os alto-falantes são içados para o teto. A primeira tela é enrolada e controlada manualmente.


A tela Cinerama é feita com 1360 filetes com ângulos orientados para o público e para os três projetores. Ela é projetada para reduzir a reflexão transversal ao mínimo. Ela é curva e mede 15,6 metros de comprimento por 5,9 metros de altura. A profundidade da curvatura é de 3,9 metros. Atrás da tela Cinerama estão instalados cinco poderosas caixas de som em uma parede, completando os sete canais de som do sistema Cinerama. A tela foi fornecida pela empresa Hurley Screen, Inc. (Baltimore, EUA). Ambas as telas são cobertas com cortinas da cor “Vermelho Cinerama”.


Exibições especiais
A primeira projeção em Cinerama foi em 16 de junho de 1993, com o relançamento de “Isto é Cinerama”, com a presença da viúva de Fred Waller, o inventor do Cinerama.
O filme “A Conquista do Oeste” foi exibido, em 9 e 10 de março de 1996, durante o Festival Widescreen. Além disso, foi apresentado o documentário de 14 minutos chamado “The Bounty” (que mostra um passeio pela Baía de Sydney, a bordo da réplica do navio usado no filme “The Bounty” de 1985, com Mel Gibson). Este documentário foi produzido em Kinopanorama para ser exibido através dos três projetores do sistema Cinerama.
Já foram exibidos no Pictureville Cinema, desde 1993, quase todos os filmes produzidos no processo Cinerama.

Instalação do Cinerama
Foi feita pelos consultores técnicos Willem Bouwmeester Harvey, John Harvey e Keith Swadkins (The International Society Cinerama). Para instalação completa do sistema Cinerama faltaram muitas peças para os projetores e sistema de som. Através de muitas pesquisas, estas peças foram achadas e compradas de colecionadores de diversos países, como Finlândia, Bélgica, França, EUA, Itália e, também, da Inglaterra.
Por sorte o Museu já tinha dois projetores Cinemeccanica Victoria 8, que foram inteiramente restaurados. O terceiro projetor foi localizado e comprado em Glasgow (Escócia). A empresa que criou a tela Cinerama procurou em seus armazéns e encontrou um conjunto completo, mas era uma menor. A tela ideal acabou sendo localizada e comprada nos EUA.

Informações para contato
Pictureville Cinema
National Media Museum
Bradford BD1 1NQ - England
Phone: +44 (0)1274 20 20 30
Mr. William Lawrence (Diretor do cinema desde 2000)

Maravilhas do Cinerama

por João Luiz Vieira
São Paulo, em algum momento das férias de verão de 1962. Como sempre acontecia, lá estávamos, meu irmão, minha mãe e eu, aproveitando as férias do início do ano entre o sítio dos meus avós nas cercanias de Vila Galvão, então área rural dos arredores da capital e o centro da cidade, onde moravam um tio e primos. A ida aos cinemas do centro era, como sempre, o programa obrigatório quando, a pé, e numa área relativamente pequena, cobria-se um trecho onde se encontravam verdadeiros palácios de cinema, maiores e mais luxuosos do que os que conhecíamos no Rio de Janeiro.





















Sistema "Cinerama" com três projeções simultâneas .

Ipiranga, Art-Palácio, Paissandu, República, Windsor, Normandie, Olido, Marrocos... os nomes evocavam grandiosidade, exotismo e fausto. Mas nenhum deles oferecia os prazeres da experiência sensorial possibilitada pelo Cine Comodoro, situado na Av. São João 1462, que, desde sua inauguração em agosto de 1959, exibia filmes no formato Cinerama e atraía verdadeiras multidões para suas sessões, alardeadas na sua fachada de colunas em pastilhas, como “o espetáculo que revolucionou o mundo das diversões”. A certeza de estar vendo algo completamente novo em termos de imagem e som só possível naquele cinema, era prometida pela publicidade impressa dos anúncios de jornal que advertia ser aquele espetáculo “exclusivo do Cine Comodoro... em nenhum outro lugar da cidade, do estado, do Brasil, você poderá vê-lo!”.










Foto do filme "Isto é Cinerama".

Pois bem, em mais uma dessas excursões ao Comodoro – ali já havíamos assistido em 1959 ao filme inaugural do processo, Isto É Cinerama (This is Cinerama, 1952), completamente envolvidos por aquelas novas dimensões de imagem e som (seguido, nas próximas férias, de Cinerama Holiday, de 1955) uma bela surpresa nos aguardava, especialmente os cariocas. O formato narrativo do Cinerama era sempre o mesmo: documentários de viagens (travelogues), apresentando vistas panorâmicas de locais para nós distantes, aqui e ali pontuadas por seqüências que maximizavam o efeito de realismo imersivo proporcionado pela tela gigantesca, com 146 graus de curvatura – que dava ao espectador posicionado mais à frente e no meio da platéia, uma sensação forte de participação física inédita no cinema até então. Não há como esquecer do trenzinho da montanha-russa de Coney Island que abria o primeiro filme, despencando lá do alto no momento exato em que os três projetores sincronizados formavam toda a imagem na tela e o som estereofônico multidirecional também se espalhava pela sala inteira. Passeios de gôndola pelos canais de Veneza ou as inúmeras seqüências de vôo sobre paisagens como o Grand Canyon ou os Alpes suíços faziam com que uma simples ida a São Paulo se transformasse num verdadeiro passaporte para o mundo, pelo preço modesto de um ingresso de cinema. Isso é que eram férias de verdade, não tínhamos qualquer dúvida.

Mas algo de muito especial nos reservava um terceiro travelogue do Cinerama, sedutoramente e na mesma linha dos filmes anteriores, intitulado As Sete Maravilhas do Mundo (Seven Wonders of the World, 1956). Como nos dois primeiros filme, havia um prólogo, projetado só com um projetor (o do meio) com a tela reduzida a 1/3 do tamanho total da imagem e com as cortinas abertas apenas nesse quadrado de imagem. Quem aparecia nessa imagem menor era o produtor do filme, o jornalista dublê de viajante-aventureiro Lowell Thomas, que falava e mostrava através de ilustrações as sete maravilhas do mundo antigo, como o farol de Alexandria, os jardins suspensos da Babilônia, a colossal estátua de Rodes. A última dessas maravilhas era, claro, a única que sobreviveu até os nossos tempos: a pirâmide de Gizeh, no Egito, junto com a Esfinge e as outras duas pirâmides – pretexto para que o filme realmente começasse, com a abertura gradual das cortinas à medida que os outros dois projetores entravam em funcionamento sincronizado, formando o vasto panorama à nossa frente.
Depois dessas primeiras imagens no Cairo, um vôo rasante sob as pontes do East River, passando pela Estátua da Liberdade, nos levava direto de Nova York para a América do Sul e... as Cataratas do Iguaçu, vistas lá de cima, enchiam a tela e o nosso peito de orgulho pelo passeio aéreo em terras brasileiras. Mas, em seguida, com a respiração em suspenso e ainda não refeito da emoção anterior, num simples corte, o avião do Cinerama estava... no Rio de Janeiro, sobrevoando a Baía de Guanabara, num plano que, lembro bem, começava exatamente por trás do Corcovado, circundava o Cristo Redentor e avançava sobre Botafogo e o Pão de Açúcar. Não lembro mais o que a voz do narrador descrevia, mas, com certeza deveria ser algo sobre o carnaval e a beleza da cidade, maravilha da natureza... O orgulho brasileiro agora ganhava contornos especiais, matizados pelas imagens do Rio exibidas pelo Cinerama, em São Paulo. Como havia sempre uma disputa bairrista entre os primos, em geral alimentada por discussões entre os adultos sobre lugares-comuns na rivalidade Rio-São Paulo, meu irmão, paulista, e os demais primos, tiveram que engolir o fato de que, sim, você só poderia ver o Cinerama em São Paulo, no Comodoro – mas, em compensação, na tela gigantesca, as imagens eram apenas do Rio...
O cinema, antecipando em mais de cinco décadas esta recente eleição tão noticiada, e através dessa tecnologia pioneira desenhada no início da década de 50 para enfrentar a concorrência da televisão, já havia selecionado o Corcovado como local digno de figurar numa lista de maravilhas do mundo moderno.
Texto publicado na revista eletrônica Cinética, de crítica de cinema, editada por críticos independentes.

Cinemas pelo mundo: o novo Seattle Cinerama Theatre (EUA)

Foi construído em 1963 e salvo de demolição em 1988, por Paul Gardner Allen, investidor e filantropo americano, que co-fundou a Microsoft com Bill Gates. O Seattle Cinerama é um dos três cinemas no mundo que pode exibir os filmes produzidos no processo Cinerama original. O cinema acaba de ser todo restaurado e foi reaberto em 18/11/2010 com várias atualizações técnicas. Para mais informações sobre este maravilhoso cinema americano, que lembra muito o nosso antigo cine Comodoro, clique aqui.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.