Os cinemas de rua nos antigos postais de SP

Colaboração do historiador Felipe Alexandre Herculano do blog "Sampa Histórica". > Clique nas legendas

Cine Broadway exibindo o filme "Vontade Escrava", de 1934

Cine Art Palácio anunciando a sua nova tela panorâmica nos anos de 1950

Cine Ritz com o filme "Safo - História de uma Paixão" (1943) e o cine Metro (mais ao fundo)

Cine Metro exibindo o filme "Com os Braços Abertos", de 1938

Cine Metro em 1964

Cine Saci em 1970

O cine Ouro com sua linda decoração no estilo colonial brasileiro

Em 25 de maio de 1966, às 21 horas, o grande exibidor Paulo Sá Pinto inaugura o cine Ouro, no Largo do Paissandú, com uma sessão de gala do filme “O Colecionador”, do diretor William Wyler (Ben-Hur). No local, funcionava o antigo cine Bandeirantes.


O cinema era todo decorado no estilo colonial brasileiro (veja os detalhes nas fotos abaixo) e possuía cópias em gesso das obras de Aleijadinho. Uma delas era uma réplica do frontal do altar-mor da Igreja de São Francisco em Ouro Preto, Minas Gerais (cedida pela Faculdade de Arquitetura de Minas Gerais, com autorização do Patrimônio Histórico Nacional).




Nas sessões, antes do filme começar, o expectador tinha audições ao vivo de piano. O cine Ouro era considerado uma das salas mais luxuosas do país.





Fotos, gentilmente, cedidas por Luiz Carlos Pereira da Silva. Foram tiradas em 29/10/1994, pouco antes do fechamento do cinema em 31/10/1994.
"Nunca imaginei que simples fotos pudessem fazer parte de um trabalho igual ao seu, como um "Cinema Paradiso", revitalizando o passado com imagens que estavam perdidas em uma gaveta" - Luiz Carlos Pereira da Silva
"As fotos ficaram lindas, a esposa também gostou, é bom colaborar com pessoas como você, que faz um belo trabalho" - Luiz Carlos Pereira da Silva

Botucatu já foi chamada de a 'terra do cinema’

Cidade concentrou a distribuição de filmes do Interior Paulista nos anos 50 e 60, graças à ousadia e empreendedorismo do empresário Emílio Peduti

Por Rita de Cássia Cornélio (Jornalista bauruense).

Na década de 50, a cidade de Botucatu foi batizada de ‘Cidade do Cinema’. O título fazia jus ao município do Estado de São Paulo que concentrava a distribuição de filmes do Interior Paulista, graças a ousadia e empreendedorismo de Emílio Peduti. O empresário e político, que marcou época, levou as distribuidoras de filmes internacionais a se instalarem em Botucatu. Os escritórios geravam empregos para os jovens e levava o nome da cidade para o mundo.

Quem lembra muito dessa fase é o cinéfilo Benedito José Gamito. Ele conheceu Peduti ainda criança e foi trabalhar nos cinemas da cidade. “Eu tinha 12 anos e ia todos os dias ao cinema. Meu pai não aguentava mais pagar e então falou para eu procurar emprego no cinema. Trabalhava em troca de assistir os filmes. Não ganhava dinheiro. Trabalhei de vendedor de bala, bilheteiro, porteiro e lanterninha. No final exibia filmes”.

Segundo ele, Emílio Peduti foi um grande e conhecido empresário na década de 50. “O cinema, se não a única, era a maior atração de lazer para o povo. Não só em Botucatu, mas em todas as cidades. Peduti tinha cerca de 70 cinemas espalhados pelo Estado de São Paulo, Norte do Paraná e Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul. 

Era uma rede de cinemas. Ele montou uma empresa, 
a Empresa Teatral Peduti.

Como um dos maiores exibidores do Estado de São Paulo, Peduti só tinha um concorrente em Ribeirão Preto. “Não me lembro do nome. Ele exigiu que todas as empresas distribuidoras de cinema viessem se instalar em Botucatu. Ele conseguiu porque o prestígio dele era muito grande como empresário e político, era prefeito na época”, recorda Gamito.

Empresas como a Paramount, Metro Goldwyn-Mayer, Columbia Pictures e Warner Bros., dentre outras, instalaram seus escritórios na cidade. “Tanto companhias nacionais como as estrangeiras, tinham uma agência de filmes. Tinha a parte administrativa e o acervo.

Os filmes eram locados em Botucatu. Qualquer cidade do estado que quisesse locar um filme tinha que recorrer à agência de Botucatu. 
Os filmes (em latas) eram despachados pelo trem da ferrovia que vinha de São Paulo e na estação de Botucatu estavam as latas de filmes esperando para vários destinos”.

O objetivo de Peduti em divulgar o nome da cidade e gerar empregos aos mais jovens foi atingido na opinião do cinéfilo. 
“Peduti foi agropecuarista e político, tinha duas ou três fazendas e a empresa cinematográfica. Para ganhar votos nas campanhas, especialmente na de 1958, ele fazia cineminha de rua. Não cobrava nada. Ele montava numa praça espaçosa, uma tela e o projetor de 16 milímetros, onde exibia filmes de cowboy. O povão ia e lotava a praça. Ele falava cinco minutos de política, o resto era filme. Esse cineminha ficou conhecido como Pedutão.



Emilio Peduti morreu aos 59 anos, vítima de um infarto. Sua família não deu continuidade na cinematografia.

Ir ao cinema era um evento social

Na década de 50, o principal divertimento nos finais de semana era assistir aos filmes e não era caro, conta Benedito Gamito


Quem viveu na década de 50 vai se lembrar do que o cinema e os filmes representaram para essa geração, enfatiza o cinéfilo Benedito José Gamito. “Naquele tempo as moças não saiam de casa a não ser para ir ao cinema. Os pais não deixavam elas saírem para a rua como é hoje. Não tinha ‘balada’. As moças iam para o cinema na primeira sessão no sábado e domingo. Os filmes começavam às 19h15 e terminavam pouco antes das 21hs. Depois tinha o ‘footing’ na 
Rua Amando de Barros que é a principal da cidade”.

O cine Casino foi o primeiro cinema da cidade, recorda o cinéfilo. “Era o mais luxuoso. Estava na Praça do Bosque, hoje Praça Emilio Peduti. Tinha o Paratodos, mais popular, menos luxuoso. O ingresso era mais barato. O público alvo era o povão. Peduti queria que o pessoal de menos posses tivesse acesso. A diferença entre as duas salas era o conforto. Os filmes eram os mesmos”.




Os jovens eram separados pela condição financeira. “As moças que frequentavam o cine Casino eram aquelas que tinham melhores condições financeiras. O ingresso era mais caro. A roupa delas era de luxo. Usavam vestidos longos. Elas desciam pelo lado esquerdo da rua, tomando por base o sentido de mão dos veículos. Os rapazes iam ao cinema de terno e sapato social. Pelo mesmo lado, andavam os moços bem cotados, que pertenciam à elite. Se alguém que não pertencesse à elite tentasse se aproximar, as moças nem olhavam”.

Do lado oposto da Rua Amando de Barros descia o pessoal que não pertencia à elite. “Os mais pobres eram discriminados mesmo. Os mais ricos frequentavam o cine Casino que ficava no Bosque e os menos favorecidos, o Paratodos, no Jardim Paratodos. As moças menos favorecidas conheciam os peões. O ‘footing’ naquela via era durante o dia ou à noite. Tinha como ponto de referência os cinemas. Ambos eram de Emílio Peduti”.


Em 1958, Peduti instalou um cinema na Vila dos Lavradores, era o Vila Rica-Vitória. “O bairro é separado  pela ferrovia, tem um pontilhão. Ali para cima na verdade é uma minicidade. É um bairro desenvolvido e o povo queria um cinema lá. O prefeito estava em campanha eleitoral e prometeu que se ganhasse a eleição instalaria um cinema lá. Ele não construía prédios. Tinha um empresário que construía e alugava para ele. O único prédio dele mesmo era o Casino. O estabelecimento ocupava um quarteirão”.

No final da década de 60, os cinemas que já não lotavam mais, lembra o cinéfilo, apelaram para os filmes de pornochanchadas. “Eram filmes eróticos para chamar atenção, nem assim resistiram. Não tinha mais como sustentar os cinemas. 
Na década de 70 começaram a fechar”.

O primeiro a fechar foi o Paratodos. Depois, o Vila Rica-Vitória e na sequência, o Casino. “A  televisão influenciou no fechamento. Na década de 70 veio a TV colorida. O pessoal  não frequentava o cinema porque assistia aos filmes em casa e colorido. Depois, veio o vídeo cassete. Só sobrou o cine Nely que Peduti arrendava”.


Prédio virou farmácia

O cinema da Vila dos Lavradores, o 
Vila Rica-Vitória, virou antes um grande centro automotivo e, agora, uma farmácia, conta Benedito Gamito. “A população criticou, mas mesmo assim instalaram a venda de remédios. O Paratodos virou o Teatro Municipal, pois a prefeitura comprou o prédio. O Casino se transformou em uma agência bancária. O Nely ficou com a Cinematográfica Araújo até 2014, quando a prefeitura tomou posse do imóvel e o transformou em um centro cultural”.



Um cinema no meu quintal

Toda semana os amigos de Benedito José Gamito se reúnem no quintal de sua casa. Eles vão assistir a um filme da época deles. 
“Eu tenho um cinema no meu quintal. Tenho uma casa num terreno comprido. No final dele construí uma sala de cinema com 40 lugares para eu passar filmes para os amigos da velha guarda. Toda semana tem filmes antigos e meus amigos vêm assistir. É o cine Paiol
Nome inspirado na infância quando eu fazia o cineminha da vela no paiol de milho”.



Apaixonado pela sétima arte, Gamito tem dois projetos desenvolvidos no Espaço Cultural da cidade. “Eu tenho um projeto que se chama ‘Cine Janela’. São exibidos filmes gratuitamente, uma vez por semana. Se não contar com a presença dos estudantes das escolas públicas, não vai ninguém”, lamenta. Para ele, o cinema de rua é uma tragédia grega, pós-advento dos cinemas de shopping.

Um museu móvel acompanhado de palestras é outro trabalho que o cinéfilo faz. “O meu museu fica guardado. Quando há solicitações, eu pego tudo e monto na cidade que solicitou. Exibo as fotos e as latas de filmes. Temos um filme feito aqui na época dos 100 anos do cinema. Contamos tudo. É um material rico”.


Correndo com o filme na mão

Uma das curiosidades lembrada por Benedito Gamito é que, muitas vezes, os filmes eram exibidos simultaneamente em cinemas diferentes. “No Casino e no Paratodos. No Casino começava antes. Quando terminava a primeira parte, uma pessoa pegava a lata de filme e corria para o Paratodos. Depois ia buscar a segunda. 

O trajeto era feito a pé, correndo. Quando o filme era exibido no Paratodos e no bairro, o filme ‘viajava’ de carro. Tinha uma pessoa incumbida do serviço. Contratava um táxi para fazer o trajeto”.

No intervalo tinha diversão no cinema

Empresário de Botucatu começou a partir dos anos 30 e com a expansão dos negócios chegou a ter 70 cinemas em três estados

O historiador João Carlos Figueroa, de Botucatu, ressalta que, dos anos 30 aos 50, a cidade viveu os anos dourados da indústria cinematográfica. "Peduti começou no ramo de cinema a partir dos anos 30 com a expansão das unidades exibidoras. E chegou a ter 70 cinemas! Suas salas eram instalados em cidades que ficavam perto das linhas ferroviárias, como Sorocabana, Noroeste, Paulista e uma rede que avançava pelo Paraná e Mato Grosso do Sul".

O período dos anos dourados do cinema, na opinião do historiador, coincidiu com a economia brasileira pós-guerra. "A exibição de filmes foi o principal divertimento das pessoas. Não existia a televisão. Tinha o circo, mas não era todos os dias. O cinema foi eleito a grande diversão das famílias. É nesse período que Peduti se afirma como grande exibidor brasileiro. Ele contratava artistas para entreter as pessoas antes e nos intervalos dos filmes. Mágicos e interpretes do rádio faziam parte da programação. Como ele tinha uma rede de cinemas, os artistas viajavam para todas as salas. 
Era uma forma de dourar a noite".

Figueroa ressalta que as grandes empresas distribuidoras de filmes se instalaram em Botucatu. "No entorno das agências nacionais e internacionais se formou uma classe de cinematografistas. 
O Peduti tinha um departamento de revisão dos filmes. Quando o equipamento de projeção picotava o filme, ele mandava para revisão. Os funcionários cortavam e faziam uma emenda. O filme ficava bom para ser levado à exibição novamente".

No período áureo do cinema, lembra o historiador, se produzia muitos filmes brasileiros. "Eram muito consumidos. Havia os filmes do Mazzaropi e as grandes produções do estúdio Vera Cruz. Mazzaropi, além de fazer os filmes, controlava pessoalmente a distribuição. Vinha a Botucatu, incluía seus filmes na programação e ainda aparecia para fazer a fiscalização da contagem dos ingressos no cinema. Ele não tinha uma grande equipe, por isso, fazia isso pessoalmente".

Na opinião do historiador, Peduti foi considerado um grande empresário do entretenimento. "Uma pessoa ousada e empreendedora!".

Cine Santa Clara

Por Márcio Jabur Yunes 

Crônica do livro "Como era verde o meu vale" (2014), onde Jabur rememora sua cidade, Espírito Santo do Pinhal, localizada no interior do estado de São Paulo. Neste texto, ele conta suas recordações de quando frequentava os antigos cinemas de rua da cidade.
Contate o autor através do e-mail mjaburyunes@gmail.com

  O CINEMA ERA TUDO. Ponto de encontro, espaço de sonho, sala de estar, modelo de vida. Doris Day e Rock Hudson, american way of life. E lugar para ver e ser visto. A missa também, mas o cinema era melhor.
  Cinema, missa aos domingos e, durante a semana, a saída das meninas do ginásio, em nuvens gárrulas, florindo a praça cheia de flores e de sol, brisa das montanhas, 900 metros acima do nível do mar, serra da Mantiqueira, as meninas saindo e as moças do Normal subindo para a aula - vestida de azul e branco, trazendo um sorriso franco, num rostinho encantador, minha linda normalista, rapidamente conquista, meu coração sem amor - cantava Nelson Gonçalves.
  Ah, as moças de azul e branco do Normal! Graça e inocência, pudor, malícia e recato. A beleza, o andar, o perfume pressentido, o inebriante perfume das raparigas em flor...
  E, no domingo, como todo mundo, elas iam também ao cinema. O cinema era o clube. A gente ia, e só depois ficava sabendo qual era o filme. E quando o leão da Metro aparecia, a gente fingia enfado e dizia: pô, já vi essa fita! Fita de cinema! Ninguém mais sabe o que é isso. Vão pensar que é alguma fita que se atravessava na porta ou na bilheteria, por algum desconhecido motivo, a fita amarela gravada com o nome dela.
  — Não faz fita menino!
  Hoje ninguém mais faz fita. As pessoas apenas fingem.
  Havia três cinemas em Pinhal, então, e não há mais nenhum. O mais novo, o Santa Clara, quando inaugurou foi deslumbrante. Creio mesmo que, para mim, em toda minha vida, nunca houve deslumbramento igual.
  Para o meu gosto de hoje, contudo, o antigo Cine Theatro Avenida (mais conhecido como "Cine"), que tinha aqueles camarotes de ferro rendilhado, pareceria de longe o mais bonito, muito mais bonito. O Santa Clara, tão maravilhoso, provavelmente fosse apenas brega, com seu grande aquário de peixes vermelhos e dourados separando as bilheterias tão chiques e sua plateia de mil e oitocentos lugares (e a do Pullman, de poltronas estofadas e o dobro do preço).
  E eu nunca tinha visto um aquário, nem aqueles peixinhos ornamentais importados, peixes eram só os Curimbatás, Bagres, Mandis e Cascudos do rio Mogi Guaçu.
  Aí a gente passava pelo aquário dos peixinhos dourados e vermelhos, o porteiro impecável e empertigado rasgava nosso ingresso tão precioso – e o depositava na lustrosa urna de mogno - e então, aguardávamos a sessão na chiquérrima sala de espera, com sofás de plástico verdes e vermelhos, paredes verdes de reboco chapiscado e luz indireta de arandelas de alvenaria e moldura de gesso. A imensa plateia com sua grande inclinação, tinha poltronas de mogno encerado, móveis Cimo, Curitiba. Só as do Pullman eram estofadas, e só no assento, mas era muito chique assim mesmo, enquanto as do Éden tinham molas que mantinham os assentos sempre dobrados automaticamente, provavelmente para impedir que os batêssemos como fazíamos no Avenida, nas matinês, quando Durango Kid perseguia o bandido no final.
  Havia, também, na sala de espera, depois do aquário, do porteiro impecável, da luz indireta das arandelas (eu nunca tinha visto isso também: luz, até então, eram lâmpadas que pendiam do teto), um “laguinho” (nunca sei o nome dessas coisas, deve ter um mais apropriado, mas não sei) revestido de azulejos e pedras, com peixinhos deslumbrantes, mas maiores, ainda que não tão coloridos como nos jardins japoneses cheios de Carpas brancas salpicadas de vermelho.
  Isso, sem falar do Pullman (balcão ou plateia superior), com escadarias em mármore branco na parte dos degraus em que a gente pisa e mármore negro naquela parte vertical entre os degraus, e corrimão de vidro e aço dourado. A sala de espera do Pullman era deslumbrantemente iluminada de vermelho, rosa, amarelo, verde e azul, pelos reflexos do luminoso lá fora, vindos através dos grandes vitrôs, que ocupavam toda a fachada do segundo andar, bem acima da marquise de concreto pintada de branco. 
  Havia os cartazes dos filmes da semana, e os outros, fascinantes e imperdíveis, mas lamentavelmente remotos sob a plaquinha dizendo “breve”. E sem falar na “maior tela do interior”, a tela imensa do CinemaScope.

Cine Sta. Clara
  E para estrear esse cinema maravilhoso, e essa tela tão grande, tão infinita como todas as telas de cinema (ao contrário da televisão, que é apenas um objeto na sala, que pode até viciar, mas que nunca terá a magia do cinema), veio nada mais nada menos que O Manto SagradoIsto é, viria, pois foi adiado e a inauguração foi com Rebelião na Índia, o que deu no mesmo para mim, frustradíssimo porque não podia ver nem um nem outro por causa da idade, não tinha os dez anos exigidos.
  Como compensação, meu pai me levou, no sábado seguinte (a inauguração, é claro, tinha sido domingo), e foi a única vez que fui ao cinema só com meu pai, ia sempre com os dois, meu pai e minha mãe, mas nunca aos sábados, que era só bang-bang e reprises do Mazzaropi, quando os pobres tomavam o cinema de assalto e as filas davam voltas no quarteirão, ignorando solenemente nossos narizes torcidos e empinados de velhos e novos ricos, ainda que mal passássemos de remediados.
  E a compensação pela estreia frustrada e proibida valeu, porque era filme do Tarzã.
Contudo não foi Tarzã que me deslumbrou. Tarzã era sempre maravilhoso, mas eu já conhecia, era o Durango Kid das selvas. O que aconteceu foi que, ao começar o filme, as luzes de cima da plateia se apagaram, e ficaram só as belíssimas arandelas laterais, a luz indireta que tanto me impressionara, e depois essas se apagaram também, e a projeção começou sobre as imensas e grossas cortinas cor de vinho, que foram se abrindo e magicamente exibindo a maior tela do interior, que não era quadrada como as outras, mas longamente retangular, com os lados de cima e de baixo curvos, mais estreita no meio e com as extremidades mais largas. 
  A inédita tela CinemaScope não era totalmente branca e tinha um arco-íris na parte de baixo, ponta a ponta, e as paredes do palco eram como as de uma concha acústica retangular, pode-se dizer “concha retangular”, e ali, por trás de cada reentrância, acendiam-se luzes coloridas, vendo-se só as cores e não as lâmpadas.
  E já ia começando os jornais da tela, Fox Movietone, Atualidades Atlântida (de Luís Severiano Ribeiro) ou Atualidades Francesas (narradas pelo inesquecível Júlio Rosen). Os jornais começavam, projetados sobre a cortina pesadíssima de veludo grená, que se abria lentamente exibindo as brancas entranhas cinematográficas da tela com seu arco-íris de ponta a ponta, enquanto o outro arco-íris ainda permanecia aceso por alguns segundos, na concha retangular e imensa. 
  Depois dos jornais vinham os reclames dos próximos filmes, depois um desenho do Tom e Jerry “roubado” da sessão Zig-Zag, ou Pato Donald, ou comédia dos Três Patetas, e o “filme natural”, aqueles documentários da Disney sobre, por exemplo, o drama do deserto, depois um imperdível bang-bang, e, finalmente, o filme principal, Tarzã!
  Era tanta coisa só para nos agradar, isto é, a gente se sentia homenageado por tudo aquilo (aquelas luzes coloridas em volta da tela, escondidas na “concha acústica”), peixes dourados, o baleiro do tamanho de um bar, com balcões de mármore e vitrines de cristal, cheias de “bombas”, canudos, cocada e bem-casados, a água gelada do bebedouro num tempo em que ninguém tinha geladeira (nem geladeira, nem liquidificador, nem fogão a gás, nem chuveiro elétrico – a água quente do banho vinha de serpentinas que passavam por dentro do fogão a lenha e iam até o chuveiro do banheiro de paredes à óleo).
  E o cinema todo lindo, cheirando a novo, luzes inusitadas, cortinas luxuosas, poltronas chiquérrimas, tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo... deslumbrante. Mas, aquelas luzes em volta da tela... E tudo só para mim, só para me... deslumbrar.
  Se você viu, você sabe. Se não sabe, não me entenderá.
  E pipoca de carrinho! Antes, a pipoca era fria, de três dias atrás, e vendida em cartuchos como os de amendoim, só que maiores, os vendedores traziam cestas de vime, depositavam na sarjeta, em frente à bilheteria, e ficavam ali, de pé, a noite toda. Os cartuchos grandes de papel-de-pão branco eram pipoca; menores, azul claro, amendoim salgado; rosa, amendoim sem sal; cartuchos ainda menores, papel celofane azul escuro, amendoim doce; cesta menor, só um tipo de cartucho, papel de jornal, amendoim com casca, que no Santa Clara era proibido, por causa da sujeira das cascas no chão, sem falar que era excessivamente barulhento na sala escura e silenciosa, ainda que nem sempre.
  Sim, carrinho de pipoca era inédito, como tudo o mais, igual ao carrinho do algodão doce, só que vendia pipoca quentinha e o cheiro se espalhava por dezenas de metros e, acima de tudo, a gente a via arrebatar, como via o açúcar transformar-se magicamente naqueles longos e incomparáveis fios brancos que derretiam na boca e sujavam o nariz.
  E Torcida!, um tipo de quebra-queixo, amarelo queimado, enrolado (talvez, puxa-puxa de melado), que acho que só em Pinhal existia, nunca vi em outra parte.
  E, pasme, o carrinho da Kibon! Dá pra acreditar? De onde saiu aquilo? Mais do que tudo, este realmente nunca tínhamos visto. Os sorvetes Chica-bon, Ka-lú, Ja-ja e o de caixinha Eski-bon, quem já vira algo assim? Chocolate cheio de sorvete! E os chocolates, tão diferentes do Diamante Negro, do Sonho de Valsa que, entretanto, duram até hoje, enquanto sumiram os tais Ki-bamba, Ki-coisa, etc. - E, se tiveres renda, aceito uma prenda, qualquer coisa assim, como uma pedra falsa, um sonho de valsa, ou um corte de cetim (Chico Buarque).
  Mas não pense que a coisa era assim fácil. O Éden (o primeiro cinema construído na cidade), diante do sucesso do Santa Clara, logo reagiu e inaugurou uma tela maior ainda com o filme Um Fio de Esperança, que você não deve nem ter ouvido falar, mas cuja música-tema certamente já ouviu, e que no filme é assobiada por John Wayne, porque ele podia ser implacável com os índios e japoneses, mas era incapaz de cantar uma única nota musical. E quando eu disse que o assento da poltrona do Éden tinha molas para não as batermos. como fazíamos no Avenida, nos momentos mais heroicos de Durango Kid ou Billy Eliot, cabe dizer que o assento que batíamos era o da poltrona vazia ao lado.
  E se estava vazia, como explicar que todo domingo enfrentávamos longas filas ao sol do meio-dia, até às duas da tarde, trocando gibi enquanto isso? Dá para entender? Claro que dá, a não ser que você nunca tenha tido sete anos e um entusiasmo tão grande, tão puro, tão ingênuo. Duas horas de fila para um cinema que não lotava nunca?
  Paixão igual, não houve e nem haverá, mas chegou perto quando o Santa Clara lançou a seção Zig-Zag, às dez horas, nas manhãs de domingo, aquelas manhãs longínquas, ensolaradas e azuis. A gente saía da missa, na grande, imponente e bela igreja de Pinhal, atravessava a rua linda e arborizada, e já estava na bilheteria do Santa Clara, em frente do famoso aquário e da praça florida.
  Mas aí o Éden contra-atacou com três filmes em 3D. Um eu não lembro, mas os outros dois são clássicos e excelentes: Veio do Espaço e O Monstro da Lagoa NegraA gente recebia os óculos na entrada ao entregar o ingresso, maravilha pura. Terceira dimensão, tudo diferente, os caras estranhos na entrada do cinema, controlando e distribuindo os óculos, e ótimos filmes.
  Isso era Pinhal na década de 50.
  E não era só isso. O Éden era um cinema que passava, de terça-feira, filmes como, por exemplo, Laura ou Quando Fala o Coração. Combatia assim, com Otto Preminger e Hitchcock, o luxo e a badalação do cinema adversário. Sem falar nos filmes franceses e italianos, neorrealismo e as comédias antológicas.
  O filme americano A Última Sessão de Cinema mostra muito bem e, de forma nostálgica, o fim dos cinemas do interior. E o mais incrível que, na época, meu irmão Marcos me disse (e eu já estava fora de Pinhal há muitos anos) que viu o filme e o Santa Clara, lamentavelmente, vazio. Creio que ele nem percebeu que, mais uma vez, a realidade repetia a ficção, e que ele viveu na pele o que a tela mostrava.
  Nesse filme, Ben Johnson fala de seu arrependimento por ter tido um romance impossível com uma mulher casada, mas logo se corrige e diz:
  — Não, pelo contrário! Amar uma mulher como aquela foi a melhor coisa que eu fiz na vida.
  Pois é, queridos conterrâneos, amar uma cidade e um tempo tão maravilhoso é saudosismo? Ou é a nossa mais profunda e eterna obrigação? A melhor coisa que tivemos na vida...



Márcio Jabur Yunes no lançamento do seu livro no CineSesc.

Theatro Avenida: um ótimo exemplo de preservação em Espírito Santo do Pinhal


Espírito Santo do Pinhal, 29 de dezembro de 1927. Eis que o grande Cine Theatro Avenida é inaugurado, obra de três famílias pinhalenses: os Bartholomei, os Galeano e os Martins. Nesta época era o ponto de encontro preferido da sociedade; filmes, teatros, conferências e até mesmo festas de formatura aconteceram no Theatro Avenida. Chegado os anos 60 todo o glamour do Theatro foi se esvaindo. Os eventos se tornaram esporádicos e seu último grande espetáculo ocorreu em 76, com a peça “Bonifácio Bilhões”.

Em 82, na tentativa de proteger o Theatro, a Associação Pinhalense de Cultura (APC) convenceu os proprietários a vendê-lo à Prefeitura Municipal, tornando-o assim, patrimônio histórico, cultural e artístico de Pinhal e mais tarde tombado pelo Condephaat. No ano de 1986 foi feita a licitação para projetos de restauro, mas as dificuldades financeiras impediam o progresso.


Em meio aos empecilhos, um grupo de cidadãos pinhalenses, cansados de ver o Theatro “jogado às traças”, fundou a Associação dos Amigos do Theatro Avenida (AATA) que tomou a frente da reforma. Os integrantes da associação contribuíam mensalmente para as obras, assim como outros voluntários, moradores da cidade ou não, bancos e o poder público, nas esferas, Federal, Estadual e Municipal. No dia 27 de dezembro de 2001, aniversário da cidade, houve uma solenidade no local, sendo lançada a campanha, “Sou amigo do Theatro Avenida”, representada por adesivos para veículos utilizados por aqueles que quisessem contribuir com a causa.


O Theatro Avenida foi reinaugurado em 11 de dezembro de 2009, e hoje é palco de várias atividades culturais, inclusive com apoio do Governo do Estado de São Paulo através de espetáculos mensais gratuitos; recuperando assim toda a sua imponência, antes encoberta pela poeira do abandono.


Para mais informações:

http://www.youtube.com/watch?v=IaPwm6wR2wA
http://www.pinhal.sp.gov.br/novo/teatro
http://www.pinhal.sp.gov.br/site_antigo/final.2010.theatro_avenida.php
http://acidade.inf.br/constantes/anteriores/859/cardeais.htm










































Agradeço a colaboração de Luiz Carlos P. da Silva e Nair B. P. da Silva.
Texto: Revista Comemorativa dos 150 anos de Espírito Santo do Pinhal (1849-1999). Publicação da Prefeitura Municipal, 1999
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.