A estreia de Ao Balanço das Horas em São Paulo

Por Antonio Ricardo Soriano

Homenagem a Gilberto dos Santos (in memoriam).

O musical de rock and roll Ao Balanço das Horas estreava nos cinemas de São Paulo em 19 de dezembro de 1956 em meio a muita confusão. Meu tio Gilberto me contou, por várias vezes, do dia em que assistiu ao filme no cine Carlos Gomes (no bairro da Lapa). Recentemente, acabei achando um anúncio de jornal de 19 de dezembro de 1986 (trinta anos do ocorrido) dentro da capa da trilha sonora do filme que pertencia a ele. O artigo que publico abaixo (na íntegra) é de Ricardo Soares para o Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo (Fotos de Antônio Lúcio):

Ao balanço dos anos

Hoje faz 30 anos que o filme Ao Balanço das Horas estreou em Sampa e sacudiu uma geração

Por Ricardo Soares

Há exatamente 30 anos - quebrando cadeiras, fazendo fumaça e arrumando encrencas com meia dúzia de policiais - o rock and roll chegava oficialmente a São Paulo fazendo corar quatrocentões e dançar os teen-agers de calça de zuarte desbotada com bainhas dobradas. Naquele 19 de dezembro de 1956, o chique cine Paulista, localizado na Rua Augusta (e mais dez cinemas) estreava Ao Balanço das Horas (Rock Around the Clock) com a participação de Bill Haley e seus Cometas mais The Platters, Tony Martinez, Freddie Bell e outros.



A confusão da estreia ficou por muitos anos na memória da cidade e do então governador Jânio Quadros, que proibiu terminantemente (termo dele) quaisquer manifestações do público que fosse assistir ao filme - proibido, em seguida, para menores de 18 anos. Resultado: a polêmica ganhou as páginas dos jornais, mesas de bares e salas de jantar de famílias de classe média.

Em São Paulo, como em qualquer parte do mundo, o rock chegava sob o signo da transgressão. A cidade também assistia em seus cinemas A Sereia dos Mares do Sul, com Virginia Mayo e Suplício de uma Saudade, com William Holden e Jennifer Jones. No teatro, as sensações eram Gata em Teto de Zinco Quente, de Tenessee Williams, com Walmor Chagas, Cacilda Becker e Ziembinski, e Um Deus Dormiu lá em Casa, de Guilherme Figueiredo, com Tonia Carrero e Paulo Autran. Arnaldo (Titãs) Antunes, Paulo (RPM) Ricardo e Renato (Legião Urbana) Russo mal pensavam em vir ao mundo.

No entanto, as atenções da moçada entre 14 e 18 anos estava toda voltada para os cartazes e anúncios de jornal, que diziam: "Ouçam quatro orquestras maluquíssimas executando o ritmo selvagem do rock and roll. Este é o filme cuja música alucina!". Seguindo à risca o conselho, eles se alucinaram. Gastaram o Cascolac de suas casas, dançando ao ritmo do rock e, contradizendo as notícias que decretavam a morte desse gênero musical, passaram o gosto para seus filhos e (pasmen) netos.

A jornalista Cecília Thompson, 50 anos, lembra-se bem daqueles dias. Recorda que o cine Paulista era todo decorado com cadeiras listradas de vermelho e preto (homenagem ao quarto centenário de São Paulo, comemorado dois anos antes) e apesar de considerar, naquela ocasião, que "rock era coisa de garotada" foi assistir ao filme. Militante de esquerda e noiva do dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, com quem depois se casou e de quem se separou, ela acreditava que o rock era apenas "criação do imperialismo ianque". Mas viu o filme e gostou.



Diva Maria Carvalho, 46 anos, mãe de Cláudio e Stefano (22 e 20 anos) também assistiu, bateu palmas e dançou. Desde o início
sempre achou que o rock vinha para ficar, e hoje não reclama quando os filhos ouvem em alto volume os acordes dos Dire Straits, Sting, Quiet Riot, Rolling Stones ou os bons e velhos Beatles. Os meninos são ecléticos em matéria de rock e a mãe nada tem contra: "Eu fui como eles" - confessa Diva, eterna apaixonada pelo topete daquele ex-caminhoneiro do Tennesse: Elvis Presley.

O rock, estranha fusão da música negra com a branca, tem história e origens apontadas em vários sentidos. Há inclusive os que dizem ter ele nascido na Grécia há 2500 anos, segundo conta um mofado recorte de A Tribuna de 22 de junho de 1958. Naquela ocasião, o professor Matias Boss, catedrático de história grega em Bonn, Alemanha, garantia ter chegado ao embrião do rock and roll depois de examinar antiquíssimos papiros. Ele se chamava Karax, era dançado de maneira semelhante e, ao mexerem com o quadris, os jovens gregos entoavam: "Levantai as pernas bem altas no ar e rebolai com muita força".

Grego ou negro, o que importa é que o rock veio para ficar. Seu início foi oficialmente identificado por esses acordes quase ingênuos: "One, two, three o'clock, four o'clock rock..." repetidos infinitas vezes, a partir de maio de 1954, por um músico branco, de talento questionável, gordinho, com pouco jogo de cintura e que morreu completamente careta, em 9 de fevereiro de 1981, em Harlingen, Texas, aos 55 anos. Seu nome: William Bill John Clifton Haley. O Bill Haley e seus Cometas.


Polícia interrompe sessão do filme, devido à algazarra promovida por jovens na sala. Proibidos de dançar, os jovens gritavam, xingavam e soltavam bombinhas - 20/12/1956

O jornalista Antonio Carvalho Mendes, 53 anos, não assistiu a Ao Balanço das Horas, há 30 anos, mas sempre foi um rock and roller, apesar da aparência sóbria. Responsável, no Estado de S. Paulo, pelas colunas Cinofilia, Cartas dos Leitores, Idéias em Debate e Necrologia, ele se recorda muito bem da confusão de dezembro de 1956. Mas não assistiu ao filme porque seu ídolo, Elvis Presley, não aparecia. Toninho, como é carinhosamente chamado pelos amigos, adora o ex-caminhoneiro do Tennessee, cantando Kiss me, Kiss me, Kiss me. E mais: quando o Queen veio ao Brasil ele estava na plateia batendo palma e pedindo bis.

São 30 anos em que São Paulo mudou e ficou de pernas para o ar. O rock errou? pergunta hoje Lobão. Pela vendagem dos discos, e pela sucessão de gerações que dançaram e ainda dançam nos cinemas ou danceterias da cidade, parece que ele cresceu, teve filhos e passa muito bem, obrigado.

Bijou Theatre: 1º local criado, exclusivamente, para exibições cinematográficas em São Paulo

Breve histórico :
Com capacidade para 400 lugares, o Bijou Theatre ficava na então Rua São João - na década seguinte transformada em avenida -, na altura de onde foi erguido posteriormente o Cinema Central, depois, nesse trecho, cruzando com a Avenida São João, passou a Avenida Prestes Maia e hoje se encontra o Vale do Anhangabaú.
O endereço já tinha tradição para o entretenimento. Em 1898, ali funcionava um boliche, que depois virou um teatrinho, o Eden Theatro.



Então os empresários Francisco Serrador e Antônio Gadotti transformaram o espaço para receber, exclusivamente, exibições cinematográficas. Inaugurado em 16/11/1907, o Bijou Theatre contava com 15 ventiladores e um requintado botequim. A trilha sonora dos filmes era garantida pelo acompanhamento de um sexteto. Durante a semana, as sessões ocorriam às 18h30. Aos domingos, às 13h30 e às 19h30. Naquela época, os filmes eram curtos, de pouco mais de 10 minutos. Em média, uma sessão mostrava cinco filmes. A maior parte da produção vinha da Europa - cerca de dois terços do total. O restante era norte-americana.
"A Dama das Camélias", "Macbeth", "Raio de Luz Libertador", "O Fim do Mundo" e "Sevilhasão", alguns dos filmes que estrearam na cidade na tela da Rua São João.
Com o Bijou, Serrador se transformou em um grande empresário do entretenimento. Ele já era um conhecido distribuidor de filmes e exibidor ambulante em São Paulo. Então passa a ser um empresário com diversas filiais, montando uma rede de cinemas - que chegou a ter 35 unidades, em diversas cidades do país.
No início dos anos 1910, o Bijou Theatre ganhou um anexo, o Bijou Salão, dobrando sua capacidade total de público para 800 pessoas. Mesmo com tanto glamour, o fim estava próximo. Com a reforma do Vale do Anhangabaú e da Avenida São João, o Bijou foi condenado pelo progresso. Acabou demolido no fim de 1914.



Francisco Serrador (1872-1941)
O empresário espanhol foi proprietário de hotéis, cassinos, teatros e cinemas em várias cidades do Brasil. Além de São Paulo, morou em Curitiba e no Rio. É considerado o responsável por trazer ao Brasil o hábito de comer cachorro-quente, uma vez que o lanche era vendido em seus cinemas.

Curiosidades do Bijou Theatre : 
Exibiu o "Cinematógrafo Cantante", a partir de 1909. 
Exibiu uma importante fita nacional de grande metragem em 23/09/1912: "1400 contos" ou "O caso dos caixotes", filme nacional de Paulinho Botelho, da fábrica "Brasil Film". 
Em 1914, o prédio foi demolido, para a construção do prédio que abrigava o Cinema Central, que por sua vez foi demolido em 1947. 

O jornal "O Comércio de São Paulo", de 17/11/1907, noticiou :
"Inaugurou-se ontem esta nova casa de espetáculos - o antigo Eden-Theatre - completa e luxuosamente reformado. Realizou-se por essa ocasião, exibição especial do Cinematógrafo Richebourg, para a imprensa e convidados. Em seguida, o empresário Francisco Serrador, que explorará esse gênero de diversões naquele elegante teatrinho, ofereceu a todas pessoas presentes fina mesa de doces"
"Hoje, no Bijou-Theatre, há dois espetáculos por sessões, um a 1 hora e meia da tarde, e outro às 7 e meia da noite".


Nesta foto, vemos um cartaz anunciando, para breve, o filme “O Mistério da Ponte de Notre Dame” (Mystère du pont Notre-Dame, Lê - França - 1912)

Grandes empresários da exibição cinematográfica: Francisco Serrador

Por Antonio Ricardo Soriano

Francisco Serrador Carbonell teria nascido em Valência, Espanha, em 08/12/1872, segundo o seu passaporte, ou em 1876, conforme o alistamento eleitoral da cidade de São Paulo. Imigra para o Brasil em 1887, fixando-se primeiro em Santos, onde foi operário braçal. Depois segue para Curitiba, trabalhando como vendedor ambulante de peixes e frutas. Seus negócios crescem e de vendedor ambulante, passa a dono de quiosques. Associa-se a outro compatriota, Manuel Laffite Busquets, na 1ª agência de mensageiros do Paraná, e a Antônio Gadoti, para a abertura de uma cancha de frontão (tradicional jogo basco), o Frontão Curitibano. Essas primeiras sociedades já mostravam que Serrador tinha uma qualidade que o acompanhará até o fim da vida: a capacidade de convencer pessoas a investirem em seus projetos.
O gosto pelos esportes, aliado ao faro comercial, levaram-no ao ramo das diversões. Começa arrendando circos e promovendo touradas. Em 1902, os três sócios fundam o Parque Coliseu Curitibano, um parque de diversões com rinque de patinação, carrossel, tiro ao alvo, teatro de variedades e, em 1904, cinema ao ar livre, com o aparelho Cinematógrafo. A partir desse momento, Serrador passa a prever que o cinema seria a maior diversão do século e uma excelente atividade lucrativa. Em 1905, Serrador compra novos projetores e filmes da Pathé francesa e transforma o Cinematógrafo em uma atividade de exibição ambulante, o Cinematógrafo Richebourg, que passa a circular por muitas cidades do Paraná. No mesmo ano, passa a explorar, também, o mercado paulista, tanto na capital como no interior. Foi assim que Amparo, Campinas, Itu, Mococa, Ribeirão Preto, São Carlos, e tantas outras cidades paulistas, conheceram o cinema. Mas foi a cidade de Curitiba, no Paraná, o grande ponto de partida de Serrador. Lá ele abre mais quatro centros de entretenimento (sempre com o Cinematógrafo), faz amigos, casa-se e tem oito filhos. Mas não era a cidade dos seus sonhos, nem mesmo São Paulo.

Teatro Sant'Ana
Em 1907, Serrador muda-se para São Paulo para se fixar como exibidor cinematográfico. Na capital, o Cinematógrafo Richenbourg foi instalado por um breve período, em 30 de Agosto, no Teatro Sant’Ana (na Rua Boa Vista) para exibir filmes mais longos que os exibidos no “Richenbourg” itinerante que, ao mesmo tempo, passava por vários outros locais de São Paulo, como circos, escolas, salões, etc. As sessões diárias no “Sant’Ana” comportavam de 16 a 19 filmes, divididos em três funções de 5 a 6 películas. Uma orquestra abria os espetáculos com uma grande “Overture” e cada uma das sessões era iniciada por uma parte sinfônica. Ainda no mesmo ano, Serrador aluga o Teatro Eldorado para, também, exibir o “Richenbourg”.


Motivado com o êxito das exibições no Teatro Sant’Ana, Serrador inaugura, em 16 de novembro, o Bijou Theatre, na Rua de São João, sendo o primeiro local da cidade de São Paulo, criado exclusivamente para exibições cinematográficas. Com o sucesso dos Cinematógrafos instalados em vários locais da cidade (Salões Progredior e Sportsman, Grêmio São Paulo, Teatro Popular do Brás, Kinema Theatre, Teatro Colombo, entre outros), Serrador é logo obrigado a reformar e ampliar o Bijou em 1908. Em 1910, inaugura o Chantecler Theatre, na Rua General Osório, nº. 77 e arrenda o Teatro São Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro (seu primeiro investimento no mercado carioca).
Nos três primeiros anos de atividade fixa na capital paulista, Serrador controla cinemas e teatros, totalizando mais ou menos cinco mil lugares (assentos), enquanto seus mais próximos concorrentes detinham de 420 a 750. Serrador possuía uma quantidade muito maior de filmes que os seus concorrentes e sabia agradar os clientes, pois os seus filmes eram ótimos e bem selecionados, com assuntos de alto interesse da população.

A partir de 1907, Serrador passa, também, a produzir as suas próprias películas. Conhece Alberto Botelho, e os dois realizam uma série de cine-jornais, registrando os eventos mais importantes da cidade, para serem exibidos em suas salas de exibição. Depois, no Rio de Janeiro, passa a produzir Filmes Cantantes (filmes que contavam com a participação de cantores, que ficavam atrás da tela e faziam intervenções sonoras). Neste mesmo período, Serrador consegue a exclusividade dos filmes da marca Pathé para os Estados de São Paulo e Paraná, passando a ser, também, um distribuidor de filmes. E para a apresentação de espetáculos variados (teatrais, musicais, etc.) em seus cinemas e teatros, como complemento aos filmes, Serrador funda a Empresa Teatral Brasileira.
Diante do rápido crescimento da Empresa Francisco Serrador, na importação, distribuição e exibição de filmes, seus mais próximos concorrentes entraram em crise, como os cines Radium, de José Balsells, e Íris, de Ruben Guimarães. Em maio de 1911, os cines Radium e Íris abandonam a disputa, sendo incorporados pela renovada e ampliada empresa de Serrador, a Cia. Cinematográfica Brasileira (C. C. B.), desta vez, uma sociedade anônima (mais conhecida como Circuito Serrador). Com ela, Serrador passa a dominar o mercado exibidor paulista. Para firmar esta sociedade, Serrador declara os seguintes bens mobiliários e imobiliários: cinemas (Bijou, Radium e Coliseu dos Campos Elísios, na cidade de São Paulo; Coliseu Santista, em Santos), direitos de arrendamento (Teatro Colombo, em São Paulo e Teatro São Pedro de Alcântara, no Rio), escritório central e estoque de filmes, terrenos (Curitiba e Santos), bens e direitos sobre a Empresa Cinematográfica Íris Theatre. O restante das ações da C. C. B. pertencia a vários empresários de outros segmentos da sociedade, que injetaram dinheiro para que a empresa pudesse crescer ainda mais.
A alta rentabilidade sobre o capital empregado, faz Serrador investir nas praças exibidoras do Rio (a Capital da República e dos seus sonhos) e Minas Gerais. Serrador já havia arrendado o Teatro São Pedro de Alcântara e aberto o cinema Chantecler no Rio de Janeiro, mas na verdade, ele queria o controle das salas da Avenida Central, local da moda e dos cinemas mais freqüentados pela elite carioca. Compra então os cinemas Pathé, Avenida e Odeon, com a emissão de novas ações e emprego de capital.
Em 05/06/1912, em uma reunião de acionistas da C. C. B., é anunciada a compra de quase todos os mais importantes cinematógrafos da Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro, e de quase todos os filmes feitos em todo o mundo (através de exclusividade de exibição). Logo depois, a C. C. B. comprava a Cia. Gomes Nogueira, a maior exibidora de Belo Horizonte e sul de Minas Gerais.
Em 1914, a C. C. B. já tinha 49 cinemas na cidade de São Paulo (Íris, Bijou, Radium, Smart, Ideal, Pathé Palace, Pavilhão Campos Elísios, Teatros Rio Branco, Colombo e Marconi, entre outros) e 180 salas no Estado de São Paulo e pelo Brasil. Através de representantes em Belém, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, mais de 1000 cinemas recebiam seus exclusivos filmes. Francisco Serrador teria se transformado, e pouco tempo, no maior empresário cinematográfico do Brasil.
Em 1917, acontecem significativas mudanças na C. C. B., que passa a se chamar Cia. Brasil Cinematográfica (C. B. C.), e nessa mudança, Serrador fica, por um período, sem nenhuma sala de exibição em São Paulo, mas ao mesmo tempo, detendo a maioria das ações da sociedade.
Em 1919, a C. B. C., ainda a mais importante empresa do ramo da exibição, com mais de 400 cinemas em todo o Brasil, inicia um projeto chamado Quarteirão Serrador, que seria construído no terreno de um antigo convento, o Convento da Ajuda, localizado próximo ao Teatro Municipal. O projeto inicial era muito ambicioso, por isso Serrador não consegue investidores para colocá-lo em prática. De qualquer forma, o “Quarteirão” acaba sendo construído, mas através de um projeto menor: prédios de oito andares, com cinemas, lojas e salas de escritório (introduzindo os arranha-céus no Rio de Janeiro).
Com a 1ª Guerra Mundial, o mercado da exibição cinematográfica se estabilizou. O mercado só voltou a aquecer quando a C. B. C. inaugura o primeiro cine República, em 1921, na capital paulista. Ele surge como o melhor, mais moderno e mais luxuoso cinema do Brasil e logo se transforma no ponto de encontro da elite da sociedade paulistana. O cinema deixava de ser diversão popular para ser o principal meio de diversão de todas as camadas da sociedade, desbancando os circos, cafés-concerto e teatros.
Em 1922, Serrador viaja para os EUA, para conhecer Hollywood e a Broadway. Estuda o comércio e a indústria do cinema, além de fechar muitos contratos de exibição com vários estúdios cinematográficos. Contando com o apoio financeiro de vários empresários, o Quarteirão Serrador é inaugurado em 23/04/1925, com a abertura de sua primeira sala, a Capitólio, que introduz um novo conceito na exibição cinematográfica brasileira: os palácios de cinema.

 Cines Capitólio, Pathé Palace, Glória, Império e Odeon.
O Quarteirão Serrador, embrião da Cinelândia carioca, possuía quatro cines-teatro: Capitólio (que nos anos 30 passa a se chamar Broadway), Glória (inaugurado em 03/10/1925), Império (inaugurado em 12/11/1925) e *Odeon (inaugurado em 03/04/1926). As salas do “Quarteirão” eram muito luxuosas. Contavam com fossos de orquestra para eventuais espetáculos de teatro e música, poltronas muito confortáveis e pequenos quiosques que vendiam doces e salgados variados, como a pipoca e o cachorro quente (novidades na época). Possuíam funcionários uniformizados com trajes de gala, inclusive os condutores ou lanterninhas (funções inovadoras na época).
Serrador foi um dos primeiros exibidores a trazerem o cinema sonoro para o Brasil. Agora diferente dos Filmes Cantantes, as vozes dos artistas saíam de suas próprias bocas. Em 20/06/1929, Serrador exibe o filme Melodia na Broadway em seu Palácio-Teatro no Rio de Janeiro. Essa película era inovadora, pois utilizava um sistema revolucionário de som sincronizado, chamado Movietone. Foi o primeiro filme totalmente sonoro da Metro e terceiro musical da história do cinema (os primeiros foram O Cantor de Jazz e A Última Canção, ambos estrelados por Al Johnson e produzidos pela Warner Bros.). Também foi o primeiro a ter uma partitura composta especialmente para o filme.
Com a chegada do cinema sonoro, Serrador chega a sonhar com a construção de uma Hollywood brasileira na cidade de Correias, Rio de Janeiro, mas por falta de investidores, o projeto não sai do papel. A maioria das salas de Serrador, também, funcionavam como cines-teatro e davam espaço à emergente Música Popular Brasileira e ao Teatro de Revista.
Em 1940, o espanhol Francisco Serrador recebe a Cidadania Brasileira e inaugura, em 2 de março, o Teatro Serrador. Uma semana depois, um dos seus cinemas é totalmente destruído por um incêndio, o Alhambra. Mas sem desanimar, Serrador inicia, no mesmo local, a construção de mais um de seus sonhos: um luxuoso prédio de 20 andares. Mas, infelizmente, não vê a inauguração do majestoso edifício.



Francisco Serrador morre em 22/03/1941, vítima de uma afecção pulmonar, agravada por arteriosclerose. Serrador recebe muitas homenagens, entre elas, um monumento com o seu busto, fixado na Praça Floriano e uma rua que passa a ter o seu nome.
Serrador deixa a Cia. Brasil Cinematográfica ainda na posição de líder no mercado exibidor brasileiro. Os filhos mantiveram os negócios do pai e finalizaram a construção do Edifício Francisco Serrador. O circuito de salas só sai das mãos dos controladores da empresa em 1978, após mais de seis décadas. As salas do circuito foram compradas por várias outras empresas exibidoras.
No Rio de Janeiro, o local onde se encontra o Teatro Municipal e o Quarteirão Serrador passa, inicialmente, a se chamar Bairro Serrador, para atualmente se chamar Cinelândia.
* Odeon – O cine Odeon é reinaugurado em 2015 como Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, com programação diversificada, que alterna a exibição de filmes e outros conteúdos audiovisuais, como shows, ballets e óperas, com a realização de cursos, palestras e eventos culturais.



Fontes de pesquisa:
Livro “Imagens do Passado: São Paulo e Rio de Janeiro nos primórdios do cinema”, de José Inácio de Melo Souza - Editora SENAC - 2004
Livro “Crônica do cinema paulistano”, de Marta Rita Eliezer Galvão - Editora Ática - 1975
Livro “Enciclopédia do Cinema Brasileiro” - SENAC - 2004,(capítulo “Francisco Serrador”, escrito por André Gatti)
Livro “Cinelândia – Breve História de um Sonho”, de João Máximo – Salamandra Editorial – 1997
Texto “Francisco Serrador e a primeira década do cinema em São Paulo”, de José Inácio de Melo Souza (Pesquisador da Cinemateca Brasileira)

Aqueles cinemas

Por Paulo Bomfim - Poeta brasileiro, nascido em 30/09/1926, membro da Academia Paulista de Letras, conhecido como O Príncipe dos Poetas Brasileiros.

Autografando seu novo livro "Insólita Metrópole" para o acervo da biblioteca do Colégio Dante Alighieri no "Espaço Cultural Paulo Bomfim".

Os filmes e eu começamos a falar na mesma época. Antes, éramos mudos. Engatinhávamos com o cinema sonoro que nascia e ia silenciando os pianos nas arcaicas salas de projeção.

Minha primeira fita foi aquele desenho animado no cine Rosario, num Edifício Martinelli que contava também com poucos anos de vida. Ganhara na ocasião um boneco de feltro narigudo, com a cara do ator Procópio Ferreira. Encantado com o brinquedo, exigi de meu pai apresentação ao artista. Como a coisa ficou difícil de se concretizar, acabei indo parar no Rosario, onde tentaram me convencer de que o desenho animado era a história do meu boneco. Só vim a conhecer Procópio pessoalmente, quando me procurou no Conselho Estadual de Cultura a propósito do patrocínio de suas apresentações. Contou-me que era de família açoriana, da Ilha de São Miguel, e primo do poeta Antero de Quental.

Em chãos do antigo Café Brandão, o cine Rosario, com poltronas estofadas e paredes vermelhas enfeitadas com flores-de-lis douradas, era dos mais belos cinemas paulistas. Foi nesse cenário que recebi meu segundo tapa, ao colocar, distraidamente, a mão no joelho da namorada. O primeiro foi um balanço na Fazenda Himalaia, na "Estação de Ouro", em Araraquara, ao tentar beijar a filha de amigos de meus avós que nos visitavam. Na ocasião, teria dez anos, e a menina, uns quatorze, aproximadamente.
- Onde andará essa velhinha hoje?

Junto ao Rosario, o cine São Bento era o primo pobre, contentando-se em passar filmes de menor categoria.

Cine São Bento

Na Rua Direita, próximo ao local do velho Hotel Itália, onde Castro Alves se hospedava com Eugênia Câmara, o cine Alhambra funcionava olhando para a Casa Alemã. Foi aí que assisti a Ela a Feiticeira, inspirado em livro de Henry Rider Haggard, autor que teve suas Minas de Salomão traduzidas por Eça de Queirós. Nas memórias de Mircea Eliade, o romeno historiador de religiões e mitos diz que Ela a Feiticeira é romance altamente iniciático. Outro livro que teria esse mesmo sentido seria a Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne.

O Anhangabaú era o cine Pedro II, com filmes de cowboy e comédias de Chico Bóia e de O Gordo e o Magro. O público juvenil vibrava com Tom Mix e Buck Jones, batendo os pés e gritando: "- Aí mocinho!"

E a Praça da Sé era o Santa Helena, que atraía adultos com filmes proibidos para catorze e dezoito anos. A censura, feita no Rio de Janeiro, trazia a assinatura de Mello Matos, juiz de menores que criou as sobrinhas Baby e Branquinha Barroso do Amaral. A primeira se casaria com Guilherme de Almeida, e a segunda, com Assis Chateaubriand. Durante as férias do magistrado, seu assistente Carlos Magalhães Lebeis fazia a censura e assinava os filmes não indicados para nós. Tempos depois, no governo de Armando de Salles Oliveira, a convite de Sylvio Portugal, voltaria para São Paulo e fundaria o Serviço Social do Estado no prédio do antigo Senado, na Praça João Mendes.

Conseguir furar o cerco do porteiro e do guarda-civil em filmes proibidos era aventura para menores que só temiam ser descobertos pelo comissário J. J. Arruda, com quem vim a conviver, muitos anos mais tarde, no gabinete de Aldo de Assis Dias e Arthur Oliveira Costa, inesquecíveis juízes de menores.

O cine Santa Helena funcionava no Palacete Santa Helena (demolido em 1971)

As películas japonesas, com sua atmosfera sombria, podiam ser vistas no Nippon e no Niterói, próximos do Largo da Glória, onde existiu, no século XIX, a Chácara dos Ingleses, em cujo casarão teriam se passado as cenas que inspiraram a Álvares de Azevedo a Noite na Taverna.

Filmes alemães eram exibidos no Ufa, que, posteriormente, passa a chamar-se Art Palácio, na Avenida São João.

Perto dali tremia o "pulgueiro" Avenida, baratíssimo e frequentado pela malandragem das imediações. Malandros que jogavam snooker em cima do cine Paratodos na Santa Ifigênia, ou nos bilhares existentes na Rua D. José de Barros, na 7 de Abril e na Barão de Itapetininga, enquanto boêmios e estudantes confraternizavam em torno das mesas do Ponto Chic e dos balcões do Juca Pato e do Jeca.

Na São João aparecia o cine Broadway, onde se apresentou ao vivo a cantora de tangos Libertad Lamarque interpretando Riendo, Cantando, Vieja Pared del Arrabal.

Em frente ao Sport Club Germânia, no local do Cabaré Imperial, surgiria, na Rua D. José de Barros, o cine Opera.

Em plena Consolação, entre a Rua Araújo, que se chamou, um dia, Beco do Mata Fome, e o solar da família Souza Queiroz, onde funcionou a Rádio América, aparece na década de 1930 o cine Odeon da Cia. Serrador, com suas salas Azul e Vermelha. Odeon das frisas namoradeiras e salões que abrigavam "alucinantes bailes de carnaval". Próximo à Avenida Paulista, nas imediações do futuro Belas Artes, discretamente agonizava o cine Astúrias.

A Paulista, que foi no passado predestinada Rua da Real Grandeza, receberia, no terreno da casa da família Von Büllow, o Edifício Cásper Libero com os cinemas Gazeta e Gazetinha.

Na Rua Augusta, antes da instalação dos cines Majestic e Picolino, e dos cinemas do Conjunto Nacional, somente existia o cine Paulista, no local onde está hoje o Teatro Procópio Ferreira.

Em frente aos plátanos da Praça da República, o República ia se transformando em cinema, rinque de patinação, salão de baile, diretório político e palco de luta livre.

O Largo do Arouche abrigava o Colyseu Paulista na esquina da Rua Duque de Caxias. Alguns quarteirões abaixo, na região do Hotel Comodoro, de Paulo Meinberg, existiu, um dia, o palacete de D. Olívia Guedes Penteado com seu salão modernista. Ao lado, as residências de suas filhas Carolina Silva Telles e Maria Camargo, amigas que lembro com saudade.

Colyseo Paulista com o Baile dos Artistas, explodindo, no primeiro grito de carnaval, as terras do general Arouche ao som do canto de Francisco Alves e Orlando Silva.

Colyseo Paulista

O bairro da Barra Funda guardaria, por muito tempo, a voz de Ramon Navarro no filme O Pagão, que inaugurava, em setembro de 1929, o cine Rosario. Foi dos primeiros celuloides falados que São Paulo conheceu e repetiria The Pagan Love Song na tela do cine Roma, que no futuro viraria mais um rinque de patinação. Acompanhando as mudanças, o cine São Pedro passaria a ser teatro.

Na Rua Sebastião Pereira, antiga Chácara de D. Angélica de Barros, o cine Royal e, mais adiante, o cine Santa Cecília viam passar as gerações de frequentadores.

A Avenida São João, pouco a pouco, ia se transformando na Cinelândia. Deixava de ser a "Prainha", ponto de encontro de artistas e de valentes, para se tornar artéria onde transitavam famílias e namorados em busca de um pouco de ilusão.

Apagavam-se as luzes do Tabu, do Lido, do Tropical, do Maravilhoso e do OK, e se acendiam luminosos que falavam: cine Metro, Broadway, Ritz, Marabá, Marrocos e Ipiranga.

O Ipiranga, com pullman e poltronas para fumantes e o órgão que abria musicalmente as sessões noturnas. Esse cinema, assim como o Art Palácio, foram obras do arquiteto Rino Levi, companheiro de noitadas históricas no Clube dos Artistas e Amigos da Arte, na Rua Bento Freitas.

Tempo de incursões ao Brás, com a massa das cantinas 1040 e Balila coroando matinês do Universo e do Braz Polytheama.

Época em que os seriados ficavam sempre para o "próximo domingo", e o galope dos Bandoleiros do Vale do Fogo e os Perigos de Paulina naufragaram com o submarino do filme alemão Heróis do Mar.

Nesses dias, para não gastar com ingressos as curtas mesadas, a turma costumava penetrar de costas no cine Metro, no momento em que a sessão anterior despejava na Rua dos Timbiras seus frequentadores. Outra proeza que nem sempre dava certo era fazer saltar com um cartão o trinco da porta de saída do cine Bandeirantes e entrar diretamente na sala, depois do apagar das luzes.

A brincadeira terminou quando, numa tarde, com o cinema quase vazio, o lanterninha veio buscar cada um dos cabuladores de aula que acabou trancado na sala do gerente, esperando, temeroso, a chegada dos pais!

Era uma década em que vivíamos cinematograficamente, vestindo os paletós de camurça dos jovens da família do juiz Hardy, amando Greta Garbo e encontrando, às escondidas, com a nudez de Heidy Lamar, em Êxtase.

Ingênua geração de cinemeiros projetados na tela que principiava a sangrar com a chegada da Segunda Grande Guerra.

Texto do livro "Insólita Metrópole - São Paulo nas Crônicas de Paulo Bomfim", de Ana Luiza Martins (organizadora) - Ateliê Editorial - 2013. Publicação autorizada pela editora.


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Não sei se o leão ainda ruge

Por Frederico Branco (1927-2000) (Crônica de 1988 para o "Jornal da Tarde", publicada no livro "Postais Paulistas" - 1993)

Quando a vida é longa e as datas muitas, podem ocorrer derrapagens no tempo. Como me ocorreu, no caso do Metro, agora cinquentão [em 1988]. Se não fosse o registro do Carlos Hee [jornalista e escritor] e a boa memória do Rubem Biafora [1922-1996 - cineasta e crítico de cinema], no "Jornal da Tarde", não me teria dado conta do aniversário do cinema inaugurado nos idos de março de 1938, um dos acionadores de nossa Cinelândia. E teria também esquecido o OK, [*taxi-dancing] situado no lado oposto da Avenida São João, que me poupou de boa.



Por ser ainda pequeno, eu não fazia ideia do que o Metro viria a representar. Nem me interessei muito pelo próprio. Fui praticamente arrastado à sua inauguração. Sabia que a fita de estreia seria uma daquelas chatas, de amor, sem tiros, mocinhos, cavalos ou índios. Por mim, bem que teria ido ao Avenida, velho e simpático pulgueiro situado um pouco mais abaixo na Avenida São João. Lá estariam à minha espera, em sessão dupla, Buck Jones, Silver, montes de bons bandoleiros, a serem curtidos com pipoca e algodão-doce. Mas meu pai era amarrado a musicais e não houve como induzi-lo a trocar de programa. Devo ter dormido durante boa parte do tal "Melodia da Broadway", sem dar maior atenção ao que fazia o Robert Taylor ou sapateava a Eleanor Powell. Não faziam meu gênero.

Só muito depois disso comecei a compreender a importância do papel do Metro, como precursor de uma revolução, no que viria a ser o que chamávamos de nossa Cinelândia.

Antes de sua inauguração, até os cinemas mais importantes entre os lançadores do Centro - o modernoso Ufa, que viraria Art Palácio, o Broadway, do lado direito da Avenida São João, o Alhambra, da Rua Direita, o Rosário, da Rua São Bento - não tinham muito a oferecer além das fitas exibidas. A projeção variava muito e os sistemas de som eram sujeitos a frequentes distorções. Quando a fita era boa, as espartanas poltronas de madeira - espécie de baldes em que o espectador tinha de acomodar-se - eram toleráveis, mas duras como o diabo quando o programa não correspondia ao que era esperado. No verão, os cinemas funcionavam como estufas, no inverno como geladeiras. Isso, quanto aos lançadores do Centro. Dos demais, de segunda linha, como o citado Avenida, o Apollo, o Pedro II, o Santa Helena e o Recreio, nem se fala. E o mesmo se aplicava aos reexibidores de bairro, como Santa Cecília, o Phenix, o Paulista ou o Rex.

Iam as coisas nesse pé quando o Metro chegou, para arrebatar corações e resgatar traseiros maltratados, como ponta de lança de uma revolução. A preços bastante módicos oferecia o que os outros não tinham: o conforto de poltronas estofadas, de couro vermelho, projeção impecável, sonorização perfeita, tapetes macios, decoração chegada ao bolo de noiva, muito apreciada na época, com motivos supostamente orientais. Além disso, ar-condicionado, até então desconhecido no Brasil. Não era apenas confortável, mas muito chique, estabelecendo novos padrões: senhoras e senhoritas compareciam paramentadas, de chapéu e luvas, sapatos e bolsas combinando, ao passo que os cavalheiros, obrigatoriamente, de paletó e gravata.

E o padrão Metro deu origem a uma de nossas transitórias vaidades municipais. Pobres de belezas naturais, não tínhamos o Pão de Açucar, Copacabana e o Corcovado, mas os cariocas tinham de curvar-se ante nossa Cinelândia, a constelação de cinemas de alta classe que surgiria no Centro, para concorrer com o Metro. Na competição, que se iniciou a partir de 1938, os lançadores centrais tiveram de adaptar-se ao novo padrão, como aconteceu com o Art, o Opera, o Rosário e o Broadway. Outros já nasceram equipados para concorrer, como o Bandeirantes, com sistema especial de iluminação, o Marrocos, com bar interno, o Ipiranga com as novidades do Pullman [luxuosa plateia superior, como as atuais salas VIP] e organista no palco, o Olido e o Ritz, com orquestras que tocavam durante os intervalos nas sessões noturnas, melhor projeção, sonorização adequada e o conforto de poltronas estofadas. Tudo desencadeado pelo pioneirismo do Metro. Daí o desenvolvimento da Cinelândia paulistana.

Pena que ela, justa razão de vaidade local, não tenha durado muito. As limitações ao entretenimento de massa - confinados ao trio futebol-rádio-cinema - acabaram sendo superadas pelo advento da TV, da industria automobilística nacional e pelas consequências da descentralização. O antigo Centro passou a ser esvaziado por causa dos bairros, entrando num processo gradativo de deterioração. O que tinha sido muito chique passou a ser brega. Só demandava ao Centro quem precisava - e com isso foi-se a não tão velha Cinelândia. Muitos dos cinemas lançadores centrais - Opera, Broadway, Rosário - desapareceram. Para sobreviver, os que restaram tiveram de ajustar-se às novas condições. Uns viraram "pornocines", como foi o caso do Ouro, filho temporão do velho Bandeirantes no Largo do Paiçandu. Outros, como o Ipiranga, Art, Marrocos, tiveram de redimensionar-se em salas menores ou recorrer a programas duplos. Nem mesmo o próprio Metro, pioneiro da renovação, escapou. Hoje [em 1988], cinquentão e competindo com os demais do Centro, remanescentes da Cinelândia, também está dividido em duas salas, com fórmica no lugar da antiga suntuosidade de inspiração pretensamente oriental, como lamenta o Biafora.

Inevitavelmente, para quem no Metro original se emocionou com a "Rosa da Esperança", encantou-se com o "Desfile da Páscoa" e riu com "Escola de Sereias" - que dizer de "... E o Vento Levou"? - a decadência deve ter sido amarga.

Dela, por pura sorte, fui poupado pelo OK, o velho "taxi-dancing" que funcionava no lado oposto da São João. Muito antes da deterioração da Cinelândia e da remodelação do Metro, eu já tinha cruzado a avenida, devidamente equipado com calças compridas e um buço promissor. Dava as costas às tão belas quanto insubstanciais Vivian Leigh, Lana Turner e Cid Charisse pelas talvez não tão lindas mas muito mais substanciais Lulu, Katia e Silvinha, que giravam comigo na pista iluminada do OK, ao compasso taxi-metrado de bolerões lacrimosos e tangos arrabalescos.

Foi assim, graças à cortesia especial do OK e suas garotas - por onde andarão elas? -, que não cheguei a ressentir a morte da velha Cinelândia paulista. E nem ao menos sei se o velho leão ainda ruge lá dentro do desfigurado cinquentão que é o Metro da São João.

O cine Metro fechou em 27/02/1997 e hoje abriga uma igreja evangélica.

*taxi-dancing - Salões de baile onde havia dança de aluguel. Pagava-se para bailar com dançarinos.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.