Arquitetura da tela grande

Por Renato Gama-Rosa Costa (Pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e autor do livro "Salas de Cinema Art Déco no Rio de Janeiro")
Estilo art déco tornou-se a cara do cinema do século XX, quando o Rio de Janeiro abrigou verdadeiros palácios de exibição. 
Onde havia palácios cinematográficos, hoje funcionam igrejas, farmácias, livrarias. A maioria dos cinemas de Rua do Rio de Janeiro não existe mais, e essa perda é tão significativa para a memória da cidade que um instituto da prefeitura decidiu cadastrá-los para colocar placas informativas sobre a importância cultural de cada um dos cinemas.
Várias salas que encantaram gerações de cinéfilos foram edificadas em art déco, o estilo arquitetônico que consolidou a identidade plástica do cinema, graças a uma mescla de influências tradicionais e de vanguarda.

A linguagem déco foi adotada com sucesso após tentativas fracassadas de se associar o cinema ao art nouveau. O nouveau parecia ser a resposta formal para a arquitetura das salas de cinema, uma vez que surgiu exatamente com o cinema, nos últimos anos do século XIX. Além disso, como produtos da era industrial, ambos ambicionavam ser populares. O art nouveau representava a natureza dominada pela tecnologia industrial. Com o arrefecimento do art nouveau, ao fim da primeira Grande Guerra (1914-1919), as salas de exibição ficaram órfãs de um estilo que respondesse a seus ideais estéticos. E essa parceria não poderia se dar com o movimento moderno – de linhas puras e retilíneas e rejeição à tradição decorativa.

Na busca por uma expressão plástica de apelo a um público próprio – que precisava se diferenciar daquele que frequentava os teatros, os circos, os cabarés e os music halls – o cinema, tanto nos filmes como na arquitetura, deixou-se seduzir pelo movimento do art déco, sobretudo o realizado nos Estados Unidos nos anos 1930. Essa aproximação soube unir a tradição das artes europeias à modernidade norte-americana, com seus arranha-céus, cidades cosmopolitas e as linhas arrojadas da velocidade. A arquitetura perpetuava a imagem de modernidade e glamour que se via na tela: os filmes influenciavam a construção das salas.

No Rio de Janeiro, o apogeu desse tipo de diversão começou com a construção das quatro salas da chamada Cinelândia, realizada pelo empresário espanhol Francisco Serrador em 1925, mesmo ano em que se estabelecia na Europa o art déco. O Cine Glória e os cinemas Império, Capitólio e Odeon (o único ainda em atividade) receberam o tratamento merecido: conforto, amplidão e segurança. Ocupando até os quatro primeiros andares dos edifícios, os cinemas passaram a ter uma presença forte na paisagem urbana, incorporando-se à estética dos arranha-céus.

O art déco da Cinelândia estabeleceu um novo padrão para os espaços de exibição cinematográfica por toda a cidade durante uma década. Entre 1928 e 1936, casas semelhantes seriam erguidas em outros bairros da cidade, como em Vila Isabel, Bonsucesso, Méier, Ipanema e Marechal Hermes. O cine Metro, inaugurado na Rua do Passeio em 1936, foi a mais perfeita tradução do movimento déco proveniente dos Estados Unidos, com luxo e decoração pesada aliada às técnicas mais modernas de construção e instalações para salas de cinema, dando ao termo palácio cinematográfico um sentido ainda mais completo. Localizados em centros de terreno ou valorizando esquinas estratégicas para os bairros – em praças, principais ruas ou nas áreas em torno das estações de trem do subúrbio – os palácios de cinema contribuíram para a consolidação desses espaços urbanos como polos atrativos das populações fixa e flutuante.

Tanto no Rio quanto em São Paulo, os cinemas da cadeia Metro tinham arquitetura art déco já madura e definitiva, tendo como modelo a indústria cinematográfica norte-americana. A sala era do tipo stadium, em forma trapezoidal, à semelhança de um leque se abrindo a partir do palco e com inclinações estudadas para permitir que o espectador em seu assento não atrapalhasse aquele que estivesse atrás. O Cine Metro introduziu ainda duas novidades para as salas de cinema: o tratamento acústico e o sistema de refrigeração central.

As inovações introduzidas na década de 1930 – entre as quais o advento do cinema sonorizado – obrigou muitos exibidores a modernizar as salas existentes e a construir novos espaços maiores e mais bem equipados. Foi o que fez Luiz Severiano Ribeiro, a partir da bem-sucedida experiência com o cine São Luiz, inaugurado no Largo do Machado em 1937. Surgia com ele um circuito exibidor independente, à margem das salas importantes do centro da cidade, com construções em bairros da zona sul, da zona norte e do subúrbio. A partir de então, cinemas de excelente qualidade foram abertos em Campo Grande, Realengo, Ramos e Madureira (1938), Copacabana (1938 e 1941), Vaz Lobo (1940), Irajá e Tijuca (1941), além de outras ruas do centro da cidade, em torno da Cinelândia, como os cinemas Plaza (1936) e Vitória (1941). Na Praça Saens Peña, na Tijuca, seria erguida na década de 40 a maior sala do Rio: o Cine Teatro Olinda, com 3.500 lugares.

A superocupação das salas não era problema para o carioca, que aceitava assistir a filmes mesmo em pé, fosse às “quintas-feiras, aos sábados, aos domingos, quer nas matinés, quer nas soirées”, como registrou, em 1936, reportagem do periódico Cidade Maravilhosa. Segundo o IBGE, o número de espectadores no Rio de Janeiro passou de 25 milhões de pagantes em 1937 para mais de 57 milhões em 1955 – para uma população que não passava de 2,5 milhões de habitantes.

Historiadores da arquitetura brasileira reconhecem na estética déco uma modernidade pragmática fora dos manuais. Ao contrário do movimento modernista, que procurava adotar uma linguagem internacional, nossa vertente local estaria inserida em um movimento de valorização da cultura nacional, seguindo uma tendência de regionalização que ocorria em toda a América Latina. No Brasil, uma importante contribuição decorativa veio da arte indígena, principalmente aquela originária da ilha de Marajó. Nos detalhes arquitetônicos, havia elementos como cocares indígenas, conchas, palmeiras e coqueiros, misturados aos consagrados via Europa (como a flor de lótus e as fontes de água), Estados Unidos (como as linhas cubistas multifacetadas) e países latinos (traços asteca e inca). Tudo isso estava presente nas fachadas e nos interiores dos cinemas construídos na época. Pouco restou.

O cine Vitória, no Centro, é um exemplo dessas salas que se perderam quase por completo. Fechada depois de anos de abandono – chegou a abrigar um estacionamento no final dos anos 2000 – reabriu recentemente como livraria, mantendo apenas um apelo simbólico junto ao público apreciador de cultura. Construído com requinte e sobriedade, tinha mármores revestindo paredes e pisos, espelhos e painéis de madeiras nobres e elementos decorativos discretos, mas de forte efeito dramático no interior da sala de espetáculo e em seus acessos principais. No foyer principal, um belo painel decorativo em linhas déco, que o arquiteto Paulo Santos, na década de 1980, definia como “figuras alongadas, com pernas, braços e corpos cilíndricos e a cabeça ligeiramente pendida para o lado, à maneira de Modigliani”, reproduzia cena de caça; ali também havia sancas, colunas em gesso, luminárias, esquadrias de ferro, vidros e fenestrações. Uma singularidade do projeto era o teto escalonado acompanhando a inclinação do balcão, elemento pouco visto em nossas salas exibidoras. Tal efeito atrai ainda mais a direção do olhar do espectador para a grande tela, delimitada e protegida por cortinas que abriam ao som de gongos evocadores de tradições teatrais.

A maioria das salas de cinema não soube resistir às mudanças de hábito impostas inicialmente pela televisão e mais recentemente pelas novas tecnologias digitais. O fato de se localizarem em áreas valorizadas acabou acelerando sua destruição em favor da especulação imobiliária. No pós-guerra, o cinema começou a perder seu público, seduzido pelos pequenos aparelhos domésticos que pareciam indicar uma volta aos primórdios da diversão audiovisual: um número reduzido de espectadores em frente a uma tela de pequenas proporções. Nas décadas que se seguiram parecia que a diversão de massa mais popular do século estava fadada a acabar. Hoje voltamos às dimensões e às lotações das salas do início do século XX, com média de 200 lugares, mas agora localizadas dentro de shopping centers. Novos estilos de vida e novas tendências arquitetônicas, para uma arte que sabe se reinventar.

Caminhos do “jazz-moderno berrante”.

Por muito tempo o art déco foi considerado apenas um “gosto” associado aos anos 1920. Mas a partir da década de 1990 eventos de redescoberta e valorização lhe garantiram reconhecimento como um movimento possuidor de linguagem própria. Embora entendido como uma manifestação de modernidade, a maioria dos estudiosos enaltece o que tem de extravagante e requintado – em aparente contradição com os princípios do modernismo estabelecidos com a revolução industrial.

Sua denominação definitiva se deu apenas em 1966, a partir de uma exposição realizada em Paris, no Museu de Artes Decorativas, em comemoração à célebre Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes, de1925. Nas décadas anteriores, foram tentadas outras formas para se compreender o movimento, com denominações como cúbica ou cubista, “estilo 1925”, “jazz-moderno berrante” ou art décoratif – a mais utilizada durante certo período, antes da adoção da abreviação art déco.

O art déco ganhou impulso e um caráter mais autêntico ao incorporar propostas estéticas do movimento futurista italiano, do expressionismo alemão, do De Stijil holandês, do racionalismo francês e do construtivismo russo. Ao migrar para os Estados Unidos nos anos 1930, somou-se às propostas de Frank Lloyd Wright e da Escola de Chicago em sua inspiração nos arranha-céus. Foi quando o art déco atingiu seu apogeu e uma característica ainda mais autônoma, influenciando produções artísticas e arquitetônicas por toda a América Latina.

Saiba mais

Art Déco na América Latina. Centro de Arquitetura e Urbanismo. Secretaria Municipal de Urbanismo/ Solar Grandjean de Montigny. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 1997.

BRESLER, Henri. “O art décoratif moderno na França”. In: Art Déco na América Latina. Centro de Arquitetura e Urbanismo. Secretaria Municipal de Urbanismo/ Solar Grandjean de Montigny. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 1994.

GONZAGA, Alice. Palácios e Poeiras. Rio de Janeiro: Editora Record/ Funarte, 1996.

Guia Art Déco no Rio de Janeiro. Centro de Arquitetura e Urbanismo. Secretaria Municipal de Urbanismo/ Solar Grandjean de Montigny. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2000.

SANTOS, Paulo. Quatro Séculos de Arquitetura. Rio de Janeiro: IAB, 1981.

SEGAWA, Hugo. “Modernidade Pragmática: uma arquitetura dos anos 1920/40 fora dos manuais”. Revista Projeto, nov. 1995.


Os cinemas do Palacete Santa Helena

Inaugurado em 1925, o Palacete Santa Helena era considerado um dos maiores edifícios de São Paulo, tanto em altura como em área construída. Situava-se na Praça da Sé, no coração da cidade. Destinado inicialmente a atividades comerciais e de serviços, acabou incorporando, no decorrer de sua execução, um luxuoso cine-teatro (e, depois, mais um pequeno cinema no subsolo) - resposta à crescente agitação cultural da cidade naquele início de século.



A partir dos anos de 1930, o edifício abrigaria um grupo de pintores de origem operária que ganhou relevo na arte brasileira - conhecido como Grupo Santa Helena -, entre os quais destacavam Alfredo Volpi, Francisco Rebolo, Mário Zanini, Nélson Nobrega e José Pancetti.

Seus elaborados elementos arquitetônicos exprimem um momento importante de nossa construção civil, com a colaboração de competentes profissionais, engenheiros, arquitetos, artesãos e artistas, muitos deles italianos, em um processo de trabalho ao mesmo tempo moderno e artesanal. Utilizou pioneiramente um novo material, na época ainda importado e muito caro - o concreto armado. O edifício inovou a arquitetura do centro de São Paulo e foi negligentemente demolido em 1971, para dar lugar à Estação Sé do Metrô.


O Cine-teatro Santa Helena (inaugurado em 12/11/1925) ocupava os três primeiros pavimentos do bloco central do Palacete, oferecendo a seus espectadores plateia com frisas no térreo, uma área com camarotes no mezanino e uma galeria no piso superior.

Acesso ao subsolo
Na planta original era previsto um salão de festas no subsolo (sob a plateia); nessa área foi instalado, posteriormente, um outro cinema, o Moinho do Jéca (inaugurado em 22/12/1933), depois Cinemundi (em 05/07/1940).



O cine-teatro era dotado de uma plateia com 27 metros de vão, coberto por uma estrutura semi-elipsoidal, de componentes metálicos. A capacidade da plateia era de 680 lugares; as frisas para 5 assentos eram, em projeto, 24; e os camarotes para 5 assentos eram 30. As acomodações eram, no total, de 950 assentos, sem contar os lugares da galeria superior. Notícias da época dão conta de que a lotação correspondia à ocupação de 1500 lugares: a revista L'Illustrazione Italiana comenta a inauguração do prédio, cujos construtores e arquitetos eram italianos, trazendo várias informações, entre elas, a capacidade do teatro.



O cine-teatro, que não fazia parte do primeiro projeto enviado à Prefeitura, foi incorporado ao projeto inicial logo em seus primeiros modificativos. Esse fato, juntamente com as demais modificações e ampliações por que passou o projeto do Palacete, demonstra a volatilidade dos interesses imobiliários e a crescente agitação cultural de São Paulo nas décadas iniciais do século XX. Nesta época, os paulistanos tinham a curiosidade despertada por um invento recente: o cinematógrafo. O sucesso inicial do cinema foi tanto que já em 1907 se abriu a primeira sala montada especificamente para a exibição regular de filmes - o Bijou Theatre. No primeiro pós-guerra começam a surgir salas mais luxuosas, como o Cinema Central, no Anhangabaú, o exótico Santa Cecília e o próprio Santa Helena, que exibia as maiores produções americanas e realizava vesperais exigindo que os cavalheiros usassem "smoking".


O arquiteto que originalmente idealizou o projeto foi Giacomo Corberi, também responsável pelas primeiras alterações: redesenho da fachada e inserção do cine-teatro. A inclusão do cine-teatro representava um novo patamar para o empreendimento, que ganhava prestígio e tornava-se uma aposta na movimentação cultural de São Paulo, coincidindo exatamente com a Semana de Arte Moderna de 1922. Não apenas o edifício tornava-se multifuncional, de forma pioneira, mas o novo elemento da paisagem urbana destacava-se pelo luxo da decoração prevista e pela modernidade das instalações, que incluía maquinaria de projeção de filmes, ventilação mecânica e todos os equipamentos de bastidor de um grande teatro.

Em relação à decoração interna do teatro e à pintura de seu teto, houve a identificação do responsável, o artista, também italiano, Adolfo Fonzari. Fotos da época revelam o requinte dos detalhes, o apuro da execução e a qualidade técnica das pinturas e elementos utilizados.

Na porta central do cine-teatro foram postas as figuras que representam a Glória e a Fama, anunciando por meio de trompetas a entrada triunfal dos visitantes. O cine-teatro apresentava produções hollywoodianas, além de espetáculos cênicos e musicais.


Fonte de pesquisa :
Informações do Banco de Dados do blog Salas de Cinema de São Paulo e do livro "Palacete Santa Helena: um pioneiro da modernidade em São Paulo", de Candido Malta Campos e José Geraldo Simões Júnior (organizadores) - Editora Senac São Paulo - Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - 2006


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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.