Exemplos de preservação dos cinemas de rua pelo Brasil: Cine Brasília - Distrito Federal

Por Marcella Oliveira (para o site GPS Brasília – 16/10/2014, atualizado em 30/07/2015)

A casa do cinema de Brasília

Um dos mais belos cinemas do Brasil, o Cine Brasília quer reconquistar o brasiliense. Palco de avant premières até os anos 70 e anfitrião do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o espaço foi recuperado e apresenta sua melhor estrutura desde a sua abertura, há 54 anos.

Ele está ali, no meio dos prédios da Asa Sul. Às vezes, parece estar esquecido. Mas ao longo de uma semana, uma vez ao ano, fica tão cheio que há quem tenha de sentar no chão. Eventualmente, fica movimentado com mostras, festivais e os chamados filmes clássicos e cults. Há 55 anos o Cine Brasília resiste ao tempo, ao surgimento dos cinemas dos shoppings e mantém uma programação que valoriza o cinema brasileiro e, principalmente, o brasiliense.



O Cine Brasília é o mais antigo da cidade, foi aberto um dia após a inauguração da Capital, um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. Traz duas características que não são mais vistas nos cinemas atuais: seu tamanho, tem 600 lugares, e sua localização é na rua. Parece mais um teatro do que um cinema. Sua grande sala tem poltronas espaçosas e confortáveis, uma tela de 14 x 6,30 metros, um sistema de projeção digital e também os tradicionais rolos para os filmes em película 35 mm.



Não é simplesmente uma sala de exibição, como as outras da cidade. É um cinema que tem história. “O Cine Brasília é o sobrevivente dos cinemas de rua. Os outros foram transformados em igrejas ou shoppings”, diz Sérgio Fidalgo, coordenador de audiovisual da Secretaria de Cultura, que administra o cinema.

Foi uma das primeiras opções de lazer da nova Capital. Na década de 60, as filas para suas exibições eram enormes. Dividia o público com os já extintos cines Atlântida, Karin e Márcia. Mas foi perdendo espaço com a chegada de inúmeras redes de cinema.




Não fechou as portas por pertencer ao Governo do Distrito Federal. Não tem lucro, seus funcionários são pagos pelo governo, independentemente do movimento. As mostras normalmente têm entrada gratuita. Nos filmes da programação normal, 50% do que é arrecadado vai para a distribuidora e os outros 50%, para o GDF. “Esse valor é muito pequeno, nem dá para quantificar. O ingresso tem um custo baixo e o público ainda é tímido”, revela Fidalgo, referindo-se aos R$ 12 cobrados pela entrada.

Não é um centro de entretenimento. É um ponto de encontro de amigos e amantes da sétima arte. Um público formado por intelectuais, estudantes e quem trabalha com audiovisual. Todos os dias, são exibidas quatro sessões, às 15h, 17h, 19h e 21h. Às vezes, tem apenas cinco espectadores. Outros dias, fica mais cheio. Mas o público é cativo. Muitos se conhecem, chamam o porteiro, o bilheteiro e o pipoqueiro pelos nomes. Um passeio cheio de charme, que sai mais em conta do que outros. O estacionamento é público. O ingresso e a pipoca super em conta.



Rolos

O cinema tem 20 funcionários, que trabalham em escala de plantão. A cada sessão, são dez. Há o porteiro, o bilheteiro, o projecionista, os faxineiros, o lanterninha e a parte administrativa.

Na sala de projeção, por mais que hoje a maioria dos filmes já seja no formato digital, muitas produções ainda usam os clássicos rolos, que chegam nos cinemas em latas. São os filmes em película 35 milímetros. Um filme de duas horas, por exemplo, tem seis latas. Cada lata tem o nome do filme e um número, para não ter erro na hora de juntar as partes.



Há 21 anos no Cine Brasília, o projecionista Carlos Camurça é um dos funcionários que fica atrás daquela janelinha iluminada no fundo da sala, por onde sai a imagem. “Cresci frequentando o Cine Brasília e me apaixonei pelo cinema de arte”, conta.

Camurça diz que o filme digital é mais fácil. “Basta pegar o DVD ou pendrive e colocar no aparelho”, conta. Mas o projecionista destaca que o grande charme está nos rolos de filmes. A emenda é feita no próprio cinema. O projecionista usa um aparelho chamado “coladeira” para grudar um rolo no outro.



Não é um trabalho simples, exige atenção. A emenda tem que ser perfeita para o filme não ficar fora do quadro. Não pode confundir as latas, nem misturar os filmes. Tudo tem que ser muito organizado. Depois, o filme é exibido na tela para saber se está tudo certo com ele. Quando o filme sai de cartaz, as emendas são cortadas e os rolos voltam para as latas.

Do lado de fora, um trabalhador que não é funcionário do cinema, mas faz parte da família do Cine Brasília. O pipoqueiro José de Arimatéia da Silva, conhecido como Ari, chama muitos expectadores pelo nome. Ele está ali há 22 anos. Lembra de quando o cinema era muito movimentado e lamenta que tenha perdido público. “Não consigo entender por que as pessoas não vêm aqui. É um cinema com um clima diferente, falta só o público”, diz Ari, que muitas vezes aproveita para dar uma espiada no filme em exibição.

Programação

Além de sua estrutura, o diferencial do Cine Brasília está em sua programação, que é antagônica à perspectiva das salas comerciais. O fato de ser uma sala do governo não a deixou refém do mercado, ou seja, abre espaço para filmes menos comerciais. Prioriza o cinema produzido em Brasília, o cinema brasileiro mais independente e a boa produção internacional.

“A gente traz um cinema que, de outra maneira, estaria fora da possibilidade do público de ver. As distribuidoras têm dificuldade em emplacar alguns filmes nas salas comerciais e damos espaço para eles”, conta Sérgio Moriconi, responsável pela programação do cinema há oito meses. “O Cine Brasília nunca vai ser igual ao de circuito, mas não elimina filmes comerciais. Não está fechado para um grande potencial de público, mas ele tem que ter um sentido cultural, não ser apenas um caça-níquel”, acrescenta Moriconi.

Se no dia a dia o movimento não é grande, durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro o local fica lotado. É o festival mais antigo do Brasil e o único com programação exclusiva de filmes brasileiros. Neste ano, acontece entre os dias 15 e 22 de setembro.

Para manter o local agitado, outros festivais também são realizados, a maioria com entrada gratuita. Todos os anos, há o Curta Brasília, voltado para produções locais. Outras mostras e festivais, muitas delas em parceria com embaixadas, dão a oportunidade de conhecer o melhor das produções internacionais, filmes que dificilmente ganham espaço em outros cinemas da cidade.




No segundo semestre, a Secretaria de Educação vai resgatar o projeto Escola vai ao cinema, que foi suspenso com a reforma e ainda não retomou. A ideia está ligada à Educação Integral e é uma das atividades para o aluno fazer no contra turno. “É fundamental para criar um público que virá frequentar o Cine Brasília. Retomar o vínculo entre educação e cultura, que nunca deveria ter sido desfeito”, espera Moriconi.

De acordo com o responsável pela programação, também estão articulando atividades na área externa, como feiras e eventos. “Objetivo é atrair a comunidade, o pessoal das quadras vir prestigiar, aproximar as pessoas do cinema”, afirma. “Nosso desafio é fazer o Cine Brasília voltar a ter um público numeroso. Se tivermos uma média de 250 pessoas, já será excelente”, conclui.

Ir ao Cine Brasília é experimentar a verdadeira atmosfera do que é ir a um cinema. Sem a distração das lojas e lanchonetes pré e pós filme, que se tem nos shoppings. É sentar, pegar seu tradicional saco de pipoca e se concentrar na tela. Simples assim.

História

Uma nova Capital não podia ter apenas palácios, ministérios e residências. Era preciso diversão. Junto com a cidade, nasceu o Cine Brasília, inaugurado em 22 de abril de 1960. Os primeiros moradores da cidade frequentavam o local com roupas de gala em noites de estreias cheias de glamour, para seletos convidados. Os filmes eram exibidos ao público em geral somente no dia seguinte.





Desde o início, o intuito da construção do cinema foi incentivar a produção cinematográfica brasileira. Então, em 1965, foi realizada a Semana do Cinema Brasileiro, que dois anos depois passou a chamar Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Em setembro, será realizada sua 48ª edição. Das 47 edições, 39 foram no Cine Brasília, seis foram no antigo Cine Atlântida, uma foi no Cine Karin, uma no ParkShopping e, em 2012, durante a reforma do cinema, foi no Teatro Nacional.

Desde 1975 o cinema não passava por uma grande reforma. Em janeiro de 2012, foi fechado e ficou quase dois anos em obra. Foi reaberto em 11 de setembro de 2013. “A reforma era necessária. Todo ano a gente tinha que maquiá-lo para o festival”, lembra Sérgio Fidalgo.

A fachada de tijolinhos foi mantida como no projeto original, protegidos por um verniz antipichação. As bilheterias deixaram o hall e agora ficam na área externa. Dentro da sala, uma obra do artista Athos Bulcão na parede lateral esquerda foi mantida: um trabalho em relevo em madeira e laminado, em vermelho e amarelo. Os assentos foram trocados por novos. Na lateral direita, onde tinha apenas escadas, há agora uma rampa.

O Cine Brasília foi todo adaptado para atender a Lei de Acessibilidade. Há uma área especial para cadeirantes, poltronas para obesos, rampa com piso tátil, elevador de acesso ao palco e banheiros com acessibilidade. E também foi realizada a troca das instalações elétrica, hidráulica e mecânica, ar-condicionado e controle de incêndio, impermeabilização e instalação de para-raios.

Cine Brasília 
Endereço : EQS 106/107 - Asa Sul  - Distrito Federal
Telefone : (11) 3244.1660

Caixa Belas Artes comemora um ano de reabertura

No dia 19 de julho de 2014, a Prefeitura de São Paulo, em parceria com a sociedade civil, devolvia à capital paulista um de seus espaços culturais mais simbólicos: o cine Belas Artes – hoje, CAIXA Belas Artes, em decorrência do apoio do patrocinador.
“Há um ano a cidade reabriu um dos seus cinemas mais queridos, e isso não teria sido possível sem a articulação entre Prefeitura e Caixa, e sem o apoio de milhares de pessoas do Movimento Cine Belas Artes (MBA)”, diz Nabil Bonduki, Secretário Municipal de Cultura.

Reinauguração em 19/07/2014 - Foto: Cesar Ogata/SECOM


A reabertura do espaço foi conquistada depois de uma série de negociações que envolveram Secretaria Municipal da Cultura – quando o então secretário era Juca Ferreira, atual Ministro da Cultura –, Caixa Econômica Federal, Movimento Cine Belas Artes (MBA) e o diretor de programação do espaço, André Sturm. No dia, uma multidão de cinéfilos se aglomerou na frente do cinema em clima de celebração.
“Depois de três anos fechado, o desafio era imenso. Foram meses de negociação para chegarmos ao patrocínio e ao acerto jurídico. Faltava o poder público afirmar o valor inestimável do cinema e se unir ao movimento, e isso sensibilizou a Caixa”, explica Alfredo Manevy, diretor-presidente da Spcine que, à época, era secretário-adjunto da Secretaria Municipal da Cultura.
Entre as contrapartidas negociadas com a Caixa e o gestor do cinema estão uma sala programada diretamente pela Spcine, um programa educativo pelas manhãs, além de preços mais acessíveis de ingresso e itens da bombonière. Para Sônia Regina, gerente de marketing cultural da Caixa Econômica Federal, é com sensação de dever cumprido que a instituição celebre o primeiro ano do cine CAIXA Belas Artes. “Para nós, mais do que um espaço de cultura e lazer, o cinema é um símbolo da cidade, um espaço democrático, acessível, com programação de qualidade. Participar deste projeto significa apoiar a promoção da cultura para todos os cidadãos de São Paulo”, declara.
“Eu assumi um compromisso de que a Prefeitura atuaria no sentido de reabrir o Belas Artes. Nós encontramos uma forma muito interessante que é a venda de direitos de nome. Então, foram conseguidos os recursos necessários para viabilizar o empreendimento do ponto de vista econômico e financeiro. Foi uma operação muito bem sucedida”, afirmou o prefeito Fernando Haddad no momento da reinauguração.

Reinauguração em 19/07/2014 - Foto: Cesar Ogata/SECOM


Exatamente um ano depois, 19/07/2015, às 18 horas, todos os atores envolvidos na reabertura do espaço se reúnem para celebrar a data no próprio cinema. Na ocasião, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e o Movimento Cine Belas Artes lançam oficialmente o Conselho de Amigos do Cine Belas Artes (um grupo de 21 conselheiros, entre os quais cineastas, lideranças culturais, autoridades do executivo e representantes da sociedade civil). Uma das missões deste conselho é assegurar a preservação do cinema como patrimônio histórico, cultural e afetivo da cidade.

“Esperamos que o conselho inspire políticas de incentivo a espaços culturais no contexto de uma cidade mais sustentável”, completa Beto Gonçalves, integrante do MBA e um dos conselheiros. Também estão na lista nomes como Eduardo Suplicy, Facundo Guerra, Renata de Almeida e Tata Amaral.

Depois do anúncio do novo conselho, uma placa homenageando à grande mobilização de reabertura é inaugurada no cinema. 

Em seguida, às 19h30, na Sala 4 - Spcine, representantes da Prefeitura de São Paulo, da Spcine, Caixa Econômica Federal e cine CAIXA Belas Artes assinaram a renovação do contrato de patrocínio. Premiado nos festivais de Berlim e Sundance em 2015, a exibição do filme “Que Horas Ela Volta?”, dirigido por Anna Muylaert e estrelado por Regina Casé, encerrou a cerimônia.

Inauguração da placa que homenageia à mobilização de 2014


Inauguração da placa que homenageia à mobilização de 2014

Inauguração da placa que homenageia à mobilização de 2014

Integrantes do Movimento Cine Belas Artes (MBA)

André Sturm, proprietário e programador do cinema abrindo a cerimônia de renovação do contrato de patrocínio com a Caixa Econômica Federal 

Cerimônia de renovação do contrato de patrocínio com a Caixa Econômica Federal

O produtor Fabiano Gullane apresentando o seu filme "Que Horas Ela Volta?", exibido no encerramento da noite festiva

Caixa Belas Artes - Estatísticas
Em um ano, o cinema exibiu mais de 560 filmes, dos quais 97 nacionais e 21 estreias exclusivas. Foram promovidas oito mostras especiais e 11 madrugadas do “Noitão”, com a projeção de 60 filmes, além de 12 “Cineclubes”. “Nosso desejo é dar aos filmes a chance de permanecer mais tempo em cartaz para que encontrem seu público. Sempre em busca de diversidade e originalidade”, afirma André Sturm.
Circuito Spcine de Salas de Cinema
Com 144 lugares, a Sala 4 Spcine/Aleijadinho, programada pela empresa, é um dos espaços do CircuitoSpcine de Salas de Cinema. Com a licitação em curso, o programa prevê a implantação de 20 salas de cinema na periferia e na região central da cidade. “Um circuito de salas de rua em toda São Paulo é fundamental para garantir acesso e diversidade de programação”, conclui Alfredo Manevy, diretor-presidente da Spcine (Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo).
Movimento Cine Belas Artes
Em junho de 2015, o MBA foi agraciado com a Menção Honrosa no Prêmio Milton Santos, que homenageia entidades e iniciativas que contribuem para o desenvolvimento social e cultural de São Paulo. 

* Conselho de Amigos do Cine Belas ArtesConselho inovador vai trabalhar pela preservação definitiva do cine Caixa Belas Artes. Como parte do termo de cogestão entre Prefeitura de São Paulo e o gestor do cine Caixa Belas Artes, o Secretário Municipal da Cultura, Nabil Bonduki, assinou, no dia 16/07/2015, a Portaria nº 050/SMC-G/2015 nomeando os 21 membros do Conselho de Amigos do Cine Belas Artes, composto por representantes da sociedade civil e do poder público, e nomes sugeridos pela Secretaria Municipal da Cultura (SMC), pelo Movimento Cine Belas Artes (MBA) e pelo gestor André Sturm, que também participará do organismo. O MBA espera que o Conselho (proposta inovadora de incentivo á preservação de cinemas de rua pelo Poder Público em parceria com a sociedade civil) inspire políticas de incentivo a espaços culturais no contexto de uma cidade mais sustentável nos pontos de vista econômico, ambiental e cultural.
Objetivos
Zelar pelos valores e princípios fundadores do Belas Artes e assegurar a preservação definitiva do cine Belas Artes como patrimônio cultural, histórico e afetivo da cidade de São Paulo e do Brasil. 
Atribuições
- Acompanhar o cumprimento das contrapartidas ao patrocínio da Caixa, negociadas entre SMC e gestor;
- Formular propostas, projetos e ideias para aprimorar a programação;
- Colaborar para tornar o cinema uma Zona Especial de Preservação Cultural - Área de Proteção Cultural (Zepec-APC);
- Contribuir para integrar o Belas Artes aos projetos de revitalização inclusiva do entorno da esquina da consolação com Paulista, no contexto do futuro Corredor Cultural Consolação/Paulista e do Território de Interesse da Cultura e da Paisagem Luz-Paulista (TICP), previsto no novo Plano Diretor Estratégico de São Paulo;
- Avaliar e efetuar recomendações sobre o funcionamento da sala Spcine e programação educativa;
- Estimular e acompanhar o acesso do cinema a incentivos fiscais, linhas especiais de crédito e programas públicos de preservação e fomento ao cinema de rua e de galeria;
- Promover a integração do Belas Artes ao circuito público e alternativo de cinema de rua e galeria a ser implementado pela SMC na cidade de São Paulo.

Texto redigido pela equipe jornalística do Movimento Cine Belas Artes (MBA).

Uma cidade é uma escolha - O cine Belas Artes está de volta

Por Afonso Lima 
(Historiador, mestre em filosofia pela PUCRS e escritor)
Fotos: Cesar Ogata/Secom/PMSP

Em 2011, o cinema Belas Artes, de quase setenta anos, fechou as portas por não poder pagar um aluguel de 120 mil reais por mês. Estava sem patrocinadores.

Foram três anos de audiências, coleta de assinaturas, manifestações (umas com cem, outras com cinco pessoas), procura de apoios políticos e, principalmente, incontáveis vezes levando informações que faltavam ao grande público, por exemplo: "como anda o caso?" O exemplo mais dramático, para mim, foi uma audiência na Assembleia Legislativa de São Paulo quando compareceram dois vereadores, um deputado, e apenas eu e mais quatro pessoas do movimento. Pois é, essa cidade, sem espaço público, desencontra.

Várias são as questões que surgiram. Em primeiro lugar, o espaço público, seu planejamento, sua qualidade. As forças conservadoras diziam que as coisas são assim, o mercado determina tudo; é a lógica do “deixa rolar”, uma questão “comercial”. Um secretário afirmou que “agora cinema é em shopping”. As pessoas, isoladas, dentro do apartamento, adoecem, as ruas ficam desertas e violentas.



Obviamente, a questão do patrimônio cultural é a primeira que nos vem à mente. Que valores, modos de vida, que história e identidade queremos preservar. Além disso, a questão de que temos algo que funciona bem, tem um impacto enorme na vida da população e educa/educou várias gerações, algo que sofre com efeitos da valorização do mercado, de modo que precisamos de um gestor público que saiba olhar o caso e pensá-lo. Esse gestor está ausente ou servindo a outros interesses. Com mil explicações, nada podia ser feito. Assustava-me a sensação dos paulistanos de que sempre perdiam.

Uma das coisas mais interessantes a ser analisada aqui é o papel da imprensa. Contamos com o apoio de valorosos jornalistas empenhados em avançar na discussão, mas é óbvio que muitas vezes o impacto de notícias como “tombamento não resolve” e “para reabrir o Belas Artes temos que aumentar o IPTU”, causavam muito mais a sensação de que nada pode ser feito porque nunca foi feito. Outras opções sumiam de vista.

A questão principal – a resolução desse problema como quer a população – pareceu muitas vezes soterrada por um fatalismo que simplificou as questões, causando desânimo e a sensação de que “não adianta mais”. Um exemplo disso é a opção do tombamento, que consta na Constituição como um dos meios de se preservar o patrimônio. A discussão sobre o tombamento é longa, exaustiva. Fomos falando com diversos especialistas e percebemos que não há consenso (tomba-se o prédio, não o uso; neste caso, um passo apenas). Mas existe pelo menos um debate (o DPH foi a favor do tombamento por motivos históricos). Esse debate foi encerrado cedo demais.



Outra coisa que me surpreendeu bastante foi a incapacidade de resolvermos problemas atuais, nossa tendência a nos afundarmos em discussões escolásticas. A impossibilidade de criarmos conceitos complexos para questões complexas. Cada especialista explicava por que não se poderia fazer nada, mas nunca como se poderia fazer algo. O conceito está correto em si, mas no contexto torna-se omissão.

Precisamos repensar urgentemente os conceitos sobre o patrimônio – tudo que o cine Belas Artes significa como memória e cultura viva não podia ser incluído no conceito de patrimônio imaterial para alguns, pois esse seria apenas práticas e não locais; os donos dos prédios tombados preferem deixar que apodreçam a terem que cuidar deles; desapropriação é um palavrão na democracia dos indivíduos solitários (o relatório final da CPI na Câmara foi a favor da desapropriação, a Câmara engavetou). O Conpresp, por exemplo, usou a desculpa de que o melhor seria desapropriar para evitar uma proteção ao imóvel, o que, na prática, acabaria levando ao uso por uma loja ou à demolição. Por outro lado, a Prefeitura dizia que cabia ao Conpresp tombar e, desse modo, também não fazia nada. O Condephaat tombou a fachada (o que evitou que uma loja surgisse ali) e queria destombar. Mudemos os conceitos se eles atrapalham a vida!

A questão mais séria diz respeito à representatividade da suposta democracia. Existem órgãos, representantes e leis, mas o cidadão comum está alienado do poder. Isso explica as manifestações de junho, entre outros fatores. Por sorte esse movimento de concentração tem brechas, políticos abertos, como estes que acabaram intermediando a questão.



Mas o que sentimos o tempo todo é que existem modos de atuar que pensam a cidade em nome dos grandes proprietários individuais - se o mercado imobiliário fala, em geral os políticos, por exemplo, os vereadores "patrocinados" por doações de campanha, abaixam a cabeça (enquanto se ouve que a gestão Kassab gastou 605 milhões em projetos e consultorias). Isso gera a sensação de estarmos perdidos em uma cidade governada por forças ocultas, de isolamento, e, claro, a sensação de que tudo é inútil, de que tanto faz votar ou não. Ou seja, mais abandono.

O Movimento pelo Cine Belas artes participou de reuniões com o secretário Juca Ferreira, que ouviu, dentre várias sugestões a de buscar patrocínio estatal; o cinema, após muita luta e percalços de todo tipo, vai ser reaberto com apoio da Caixa Econômica Federal. Agora, o que ficou provado é que uma boa ideia e paciência podem ter efeito. Cinco ou seis malucos persistentes, em sintonia com milhares, podem mudar paradigmas. É possível pensar junto, e foi uma bela trajetória: contamos com apoios de todas as ordens, políticos, promotores, acadêmicos, jornalistas, artistas, pessoas comuns que mandaram seus e-mails ao Conpresp e apoiaram no Facebook, atraindo olhares. Estamos em processo de construir uma democracia. Vamos fazer uma cidade boa para todos.

Impressões - O novo CineSesc

Por Alexandre Rodrigues - Cineasta e diretor de cena na Camaleon Films, que me acompanhou e ajudou na cobertura do evento de *reabertura do CineSesc. Fotos: Antonio Ricardo Soriano.

"Estou emocionado!". Essa foi a primeira coisa que ouvi de um amigo ao entrar no novo CineSesc.



Somente cinemas de rua podem nos trazer lembranças tão vivas e ricas. A mulher da poltrona, atrás da minha, discutia com as amigas quais foram os primeiros filmes que viram em um cinema. A mulher que propôs a discussão assistiu "A Lagoa Azul". Depois de ouvir o filme dela me peguei curtindo a nova sala.

Tive um grande privilégio, pois entrei com um amigo antes da sessão começar e pude ser um dos primeiros a pisar no novo carpete, sentir o cheiro do couro novo das poltronas, subir ao palco e tocar na tela; eu senti em minhas mãos um pouco das histórias que ali foram contadas.




Andei como uma criança que quer descobrir um novo mundo, mas escondendo as emoções para ninguém julgar, admirando cada detalhe do velho cinema contrastando com o novo.

Sentei nas espaçosas poltronas que não devem em espaço as poltronas da primeira classe da Emirates, tenho 1,82 metros e mesmo com as pernas esticadas ainda era possível passar alguém entre as fileiras sem esbarrar em mim.





Visitei a cabine de projeção e o coração bateu forte, são poucas as salas que podem exibir praticamente todos os formatos. É impressionante ver o velho e o novo, lado a lado.





A projeção e o som me transportaram para dentro do filme. As lágrimas que brotaram em meus olhos não eram por causa de uma cena em especial, mas pelo fato de eu, simplesmente, estar naquele cinema.

Era uma noite especial, festiva, pois era a reabertura do cinema (depois de muitas melhorias) e da abertura do tradicional Festival Sesc de Melhores Filmes. O Alceu Valença exibiu seu filme de estreia como diretor e disse que a sala o fazia lembrar do "seu" cinema Rex, em São Bento do Una (PE).

O CineSesc, com seus grandes festivais e mostras, as descobertas cinematográficas, os debates e palestras, foi essencial na minha formação como diretor. O que já era muito bom, ficou ainda melhor.

Repetindo o que disse Eugenio Puppo, ao receber o prêmio de melhor documentário: "Vida longa ao CineSesc!".

* Após três meses fechado para reformas, o CineSesc reabre em 01/04/2015 com a exibição do filme "A Luneta do Tempo", escrito e dirigido pelo cantor Alceu Valença. O evento também marcou a abertura do Festival Sesc Melhores Filmes 2014.

Cinesala: o tradicional cinema de rua do bairro de Pinheiros

Por Antonio Ricardo Soriano

No mesmo endereço do Cinesala (Rua Fradique Coutinho, 361), funcionava o cine Fiammetta, inaugurado em 12 de julho de 1962, com o slogan "O CINEMA ELEGANTE DE S.PAULO". O primeiro filme exibido é "Esse Rio Que Eu Amo", com direção de Carlos Hugo Christensen, roteiro de Millôr Fernandes e, no elenco, Jardel Filho, Odete Lara e Tônia Carrero.


Já nos anos de 1980, o antigo Fiammetta exibia apenas filmes pornográficos. 25 anos depois de sua inauguração, o cinema é arrendado pela Cia. Cinematográfica Franco-Brasileira, que o reinaugurava em 27 de dezembro de 1987, com o nome Studio ABC e o slogan "SEMPRE OS MELHORES FILMES".

O cinema passou a exibir filmes clássicos como "Quanto Mais Quente Melhor" (de Billy Wilder), "A Viúva Alegre" (de Ernst Lubitsch), "Uma Noite na Ópera" (dos Irmãos Marx) e "Casablanca" (de Michael Curtiz). A ideia do proprietário e exibidor Roberto Valansi era conquistar um novo público e transformar o espaço em ponto de encontro dos cinéfilos. O Studio ABC ganhou nova pintura e poltronas (436 lugares). O ambiente era simples, mas agradável, bem no gênero "cineclube".


Em junho de 1988, a Cinemateca Brasileira arrenda o cinema ao preço equivalente a 20% da bilheteria ou aluguel mínimo de Cz$ 100 mil (reajustável semestralmente). Passou a ser um espaço próprio que há anos era almejado, para que a Cinemateca pudesse estender suas atividades, tradicionalmente restrita aos campos da pesquisa, preservação e restauração de filmes.

O cinema passa por uma grande reforma, patrocinada pelo antigo Banco Nacional, já que as instalações do antigo cine Fiammetta estavam bem danificadas, incluindo sérios problemas de refrigeração e no telhado. O projeto de restauro, do arquiteto Walter Ono, recuperou as características originais do edifício, próprias do estilo dos anos de 1960, como colunas revestidas de vidrotil e paredes com tijolos de vidro. Os projetores foram trocados e adaptados para filmes mudos, com a inclusão de uma cabine para tradução simultânea. No saguão de entrada, cafeteria e livraria, além de monitores de vídeo (que exibiam imagens raras do acervo da Cinemateca) e um gongo para avisar o início das projeções (como nos antigos cinemas).

O então diretor executivo Carlos Augusto Calil afirmou na época: "A Cinemateca não teria como viabilizar a reforma do antigo cine Fiammetta caso dependesse de financiamento público". E disse mais: "Se depender de recursos governamentais, a Cinemateca paralisa suas atividades".



Com a abertura da sala, a Cinemateca Brasileira dava mais um passo rumo ao efetivo cumprimento de sua missão, nas palavras de seu sócio-fundador Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977): "Transformar a cidade de São Paulo no principal centro de irradiação da cultura cinematográfica do Continente".

A inauguração da Sala Cinemateca, em 10 de março de 1989, coincidiu com o 40º aniversário da sessão inaugural (em 10/03/1949) da Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo, acervo de filmes do Clube de Cinema de São Paulo (futura, Cinemateca Brasileira), fundado em 1940. O filme inaugural da Sala Cinemateca é o mesmo da inauguração da Filmoteca do MAM: o clássico mudo "A Paixão de Joana D'Arc/La Passion de Jeanne D'Arc" (França, 1928), do dinamarquês Carl Theodor Dreyer, só que desta vez uma versão restaurada pelo Danske Filmmuseum, a cinemateca dinamarquesa. 



A Sala Cinemateca exibe na primeira semana, uma mostra inaugural de cerca de 60 filmes raros e inéditos, entre eles: "Sodoma e Gomorra" (Inglaterra, 1922), de Michael Curtiz (cópia restaurada em 1987 pelo Ostereiches Filmarchiv, a cinemateca austríaca); a primeira exibição de "Fronteira das Almas" (Brasil, 1989), de Hermano Penna; a pré-estreia de "Mississipi em Chamas" (EUA, 1988), de Alan Parker; a estreia nacional de "Corações em Luta" (Alemanha, 1920), de Fritz Lang (considerado perdido, até que em 1986, teve uma cópia identificada nos arquivos da Cinemateca Brasileira).

Nos anos de 1990, a sala se torna um tradicional ponto de encontro de cinéfilos interessados em assistir os clássicos do cinema e filmes alternativos, com a opção de serem sócios da Sociedade Amigos da Cinemateca (criada para apoiar a Fundação Cinemateca Brasileira). A Sala Cinemateca encerra suas atividades, neste endereço, em 21 de agosto de 1997, com a Mostra "Homenagem aos 25 anos do Festival de Cinema de Gramado". As sessões passam à ser exibidas na sede da Cinemateca Brasileira, no Largo Senador Raul Cardoso, 207 (Vila Clementino), em 5 de novembro de 1997.

O antigo cinema fica fechado até outubro de 1999, quando passa a ter novos administradores, Leon Cakoff (diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo) e Adhemar Oliveira (do Espaço Itaú de Cinemas). Com a ajuda financeira de uma empresa patrocinadora, o espaço é inteiramente reformado e reinaugurado em 21 de Janeiro de 2000, como Sala UOL de Cinema. A nova sala (com 303 lugares) recebe tecnologia digital, novo sistema de ar condicionado, acesso para deficientes, poltronas para obesos, café com três terminais de acesso grátis à Internet e uma uisqueria. A programação da sala começa com a "Mostra Verão" (com filmes que foram sucesso de público na Mostra Internacional de Cinema de 1999) e com a "Sessão das Onze" (com clássicos e pré-estreias).



Em 2007, com os recursos de uma nova empresa patrocinadora, o cinema ganha nova tela e poltronas, som e projeção digital. A partir de 19 de outubro de 2007, passa a chamar-se IG Cine (agora, com 271 lugares). Inicia sua programação exibindo filmes da 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Sem patrocínio, a sala é reinaugurada, em 4 de julho de 2009, com o nome provisório de Cinema da Vila. No ano seguinte, uma nova empresa passa a ajudar a preservar este tradicional "cinema de rua", um dos últimos "cinemas de bairro" da cidade de São Paulo, que passa a chamar-se Cine Sabesp (com sessão solene para convidados em 16 de junho de 2010).




Adhemar Oliveira, um dos sócios do Circuito Cinearte, rede de cinemas proprietária do Cine Sabesp, declara na época da reinauguração: "ao assinar o patrocínio da tradicional sala de cinema da Rua Fradique Coutinho, a Sabesp reafirma o compromisso com a qualidade de vida da população paulistana e com a produção cultural do cinema, área em que é uma das maiores fomentadoras". Disse mais: "Cada sala de cinema de rua preservada é uma garantia de preservação urbana, ao mesmo tempo em que contribui para a diversidade cultural de nossa gente". Disse também: "Apesar de ser um cinema de rua, com uma só sala, que vai à contramão, temos um público fiel de moradores do bairro e de frequentadores da Vila Madalena".





Em agosto de 2014, o cinema é mais uma vez reformado e modernizado, passando a chamar-se Cinesala Sabesp. Trata-se do primeiro espaço do projeto "Cinesala", criado pelas empresa Raí+Velasco e Cinearte. O "Cinesala" tem como objetivo desenvolver cinemas especiais.

Nesta última reforma, foram recuperados e preservados detalhes da arquitetura original do cine Fiammetta de 1962, como colunas revestidas de pastilhas de vidro e paredes de tijolos de vidro. Na decoração, móveis projetados pelo arquiteto Ruy Ohtake e pelo designer Zanine Caldas. Como novidades, uma sorveteria no hall de entrada e, na primeira fileira da plateia, sofás para duas pessoas.



Cinesala Sabesp tem como sócios: Adhemar Oliveira (do Espaço Itaú de Cinema e Cine Livraria Cultura), Paulo Velasco, Raí Oliveira (ex-jogador de futebol) e Rodrigo Makray.

Em 2015, a Sabesp deixa de patrocinar o cinema que é rebatizado como Cinesala.








Cinesala
Endereço: Rua Fradique Coutinho, 361 - Pinheiros
Telefone: (11) 5096.0585
Exibidor: Circuito Cinearte
Capacidade: 271 lugares
Projeção: digital e 35 mm.
Som: Dolby Digital
Com ar-condicionado, bilheteria informatizada e acesso para deficientes.





Principais fontes de pesquisa:
Artigo "Os 40 anos da Cinemateca, no novo Studio ABC", de Luíza Lusvarghi (Jornal "O Estado de S.Paulo", 10/03/1989).
Artigo "Cinemateca abre nova sala com o filme "A Paixão de Joana D'Arc", de Amir Labaki (Jornal "Folha de S.Paulo", 10/03/1989).
Colaboração de Luiz Carlos P. da Silva em pesquisas de acervos digitalizados de jornais de São Paulo na internet. 
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.