Porque lembrar é viver!

Por Priscila Constantino Sales (Historiadora)

Um pouco do que se sabe e um pouco do que se imagina do cinema em Assis (SP).

Território e memória: as cidades se fundem nessas duas topografias. Palco de atuações do trabalho coletivo, das lutas políticas e simbólicas, mas também das mais fascinantes ações imaginativas. Lugar de contradições e vivências, as cidades, mesmos as menores e mais distantes dos centros, tornaram-se também espaços de atuação cinematográfica. Com essas linhas iniciais, convido os leitores para rememorar um pouco da trajetória das imagens na cidade de Assis através das salas de cinema, que tanto fascinaram a população urbana, e que ainda se fazem presente, mesmo que sua arquitetura tenha dado lugar a outras funções e formatos ou desaparecido da paisagem da cidade.



O ato de demolir e reconstruir sentidos para os espaços e memórias do passado é característica dessa mesma modernidade que, ao trazer movimento, velocidade, estímulo e mudança no ritmo de vida, tanto cria vivências como ligeiramente as apaga de nossas vistas. Contudo, essa memória subterrânea da cidade ainda sobrevive por meio de narrativas, que mesmo fragmentadas, dão conta de reviver as mais diversas experiências, das quais o cinema felizmente não se esquiva.

O cinema adentra o início do século XX e rapidamente insere-se no universo da cultura moderna, ao criar uma nova linguagem e se constituir como artefato de intensa comunicação com a população, influenciando decisivamente a forma de perceber e estruturar o mundo. De origem popular, exibido juntamente com narradores, dançarinas, música ao vivo em feiras de atração e parques de diversão, a novidade das imagens em movimento torna-se parte do cotidiano dos grandes espetáculos e ganha seu próprio ritual nas salas de cinema.

No estado de São Paulo, esse universo ganha contornos com Francisco Serrador, grande empresário da exibição cinematográfica que em 1905 organiza a trupe ambulante “Empresa Richabony” e realiza as primeiras exibições no interior paulista. Não temos relatos de que essa trupe tenha chegado ao vilarejo de Assis, mas poucos anos separam a chegada da ferrovia – com seu apito gritante, sua fumaça escura e sua janela que em forma de quadro possibilitava aos passageiros a visão de imagens que rapidamente movimentava a paisagem – e a chegada do primeiro cinema à Assis.



Já na década de 20, o cinema encantou os assisenses, que se aglomeravam em filas para assistir as sessões de filmes. Era o lendário cinema mudo exibido no cine Gato Preto que, após sociedade com a empresa Peduti, tornou-se Cine Theatro Avenida. O responsável pela exibição de alta qualidade era o moderno projetor Holmes distribuído pela empresa Bygthon & Cia., que tinha como “cúmplice” na tarefa de encantar o público, a execução de música ao vivo que ora se davam pelas mãos dos pianistas Célia Valente, Zenite de Almeida e Waldermar Hansted, ora pelas diferentes bandas que se revezavam por trás da tela. Os intervalos para a troca de rolos de fita iluminavam uma plateia atenta: homens e mulheres com trajes de noite, adolescentes e personalidades assisenses. Responsável pela exibição dos maiores sucessos hollywoodianos, o cinema apresentava as comédias de Charles Chaplin, as aventuras de Bang-Bang e as grandes estrelas do cinema que nesse momento se tornavam atrações dos filmes, por intermédio das quais Assis entrava em contato com novos costumes de vestir, falar e se portar. Foi ainda em 23 de agosto de 1930 que o cinema falado, que tanto alarmou o mundo cinematográfico e criou inúmeros obstáculos para a produção e exibição do cinema brasileiro, chegou ao território assisense com o filme "Alvorada do Amor".

Outro cinema importante foi o cine São José, construído pela Empresa Teatral Peduti e que teve seu auge nas décadas de 50, 60 e 70 (quando se esvazia pela democratização da televisão em Assis). A programação se dividia entre os filmes épicos, comédias e faroestes, com destaque para o western spaghetti italiano, que naquele momento alcança amplo sucesso com suas cenas de duelo, nas quais o herói faz justiça com as próprias mãos, e seus recorrentes personagens Django, Sartana, Sabata, Trinity, entre outros. Localizado em ponto estratégico perto do centro da cidade, foi também marcado por intensa sociabilidade ao seu redor. Popular entre a população local, o findar das sessões de cinema nos finais de semana eram marcadas por encontros, amizades, namoros, paqueras e confrontos tão típicos das noites das cidades interioranas.



Nos anos de 1960, o antigo Centro Católico se torna cine São Vicente, que na década de 1980 dá lugar ao atual Teatro Municipal. Localizado na Rua Floriano Peixoto, o prédio leva o nome do Padre Enzo Ticinelli, tendo sido um ponto central de sociabilidade da comunidade assisense, recebendo até mesmo excursões de habitantes das cidades vizinhas para as sessões cinematográficas que depois se aglomeravam na praça em frente do cinema, que contava inclusive com bandas tocando no coreto. Segundo Marcos Barrero, o cine São Vicente tem como maior bilheteria o filme italiano "Dio Come TiAmodirigido por Miguel Iglesias: a fita leva o nome da canção de sucesso da cantora e estrela do filme Gigliola Cinquetti. Quando exibido no Brasil, levou multidões às salas de cinema e na cidade de Assis não foi diferente.





Por fim, temos o cine Peduti (depois cine Regina, atual Cinema FAC), que surge no início da década de 1970, de propriedade da Empresa Teatral Peduti, apresenta como diferencial uma arquitetura luxuosa e moderna, excelente sistema de som e ótima programação. Esbarrando no fenômeno da TV, logo atrairia público intelectual e estudantes universitários e firmaria convênio com o Clube de cinema de Assis.



Podemos notar que as imagens cinematográficas tiveram vida intensa na cidade de Assis, tanto no quesito exibição quanto na conformação da sociabilidade e dos costumes. Notamos também o pouco espaço que tiveram os filmes brasileiros e os que não se enquadravam nas fitas da “moda”. O papel de oferecer espaço a esses segmentos seria desempenhado pelo Clube de Cinema (1966-1983) de Assis, primeiramente dentro da UNESP/Assis e posteriormente na cidade, juntamente com o cine Peduti. O Clube teve como objetivo promover a apreciação e o debate da arte cinematográfica, por meio de projeções, debates, mostras, cursos, ciclos de cinema, trazendo para Assis uma nova forma de recepção no campo da cultura cinematográfica; buscou integrar escolas de Ensino Médio e Fundamental, promovendo ciclos de filmes infantis; trouxe, ainda, nomes importantes, tanto de diretores quanto de estudiosos e críticos de cinema. Os jornais de Assis foram testemunhas dessa agitada movimentação em torno do cinema.

Trezentos e quarenta e sete pessoas assistiram o "M, O Vampiro de Dusseldorf", exibido sábado no Peduti, pelo Clube de Cinema da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis. Após a projeção, cerca de oitenta pessoas ficaram para o debate, que durou quase duas horas - VOZ DA TERRA, 27/09/1967

Hoje, a cidade de Assis conta com o Cinema Municipal Piracaia (Cinema FAC), única sala de cinema de rua da cidade ativa até os dias atuais, o cine Plaza Assis, pertencente ao Grupo Chainça de Cinema, e outras formas fragmentárias de exibição fílmica protagonizada por instituições, associações e amantes do cinema. Este momento que trás outras causas e coisas já é outra história... mas permite dizer que reviver essa memória dos cinemas de ontem nos ajuda a contar muito do cinema de hoje.






Para mais informações:
Arquivo Clube de cinema de Assis/ CEDAP/UNESP-Assis.
BARRERO, M. Assis de A a Z: a enciclopédia do século 1905 2005. 
           São Paulo: L2M comunicação, 2008.
GALVÃO, M. R. E.. Crônica do cinema paulistano. São Paulo: Ática, 1975.
CHARNEY, L.;SCHWARTZ, V. R.(Orgs) O cinema e a invenção da vida moderna. 
           São Paulo: Cosac Naify, 2004.
CHRISTOFOLETTI, R. Assis em Mosaico: caminhos para a construção de uma história. 
           São Paulo: All Print editora, 2009.

Texto publicado na revista Circuito - Publicação Cultural Online.

Foto do Cine Theatro Avenida: Ivani Cury
Foto do cine São José: Kensho Kanashiro
Fotos do Cinema FAC: Antonio Ricardo Soriano (2012)
Outros cinemas não citados no artigo:
Cineminha das Três Porteiras
Cinema da Paróquia da Vila Operária
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.