Projecionista: profissão protagonista

Por Ana Elisa Faria (para o jornal "Folha de S.Paulo")

Os projecionistas Alfredo e Francisgleydisson, protagonistas de "Cinema Paradiso" e "Cine Holliúdy", respectivamente, tendem a permanecer somente na ficção. Com a popularização dos filmes digitais, o ofício, como foi retratado nas obras de Giuseppe Tornatore e de Halder Gomes, está acabando.

"Na projeção digital [modelo adotado pelas grandes redes], você mal precisa do projecionista", afirma Alexandro Nascimento Genaro, que trabalha há mais de dez anos na Cinemateca Brasileira.

Foto: Leo Eloy


Ele diz, porém, que o seu emprego e o de alguns colegas ainda não está ameaçado. "Ao menos nos cineclubes precisam muito da gente, já que as exibições nesses locais costumam ser em película e o acervo de filmes é grande".

O projecionista à moda antiga, como Genaro, sabe manusear, por exemplo, filmes em formato 35 mm. - aqueles em rolo, que precisam ser encaixados de forma correta no projetor e trocados a cada 20 minutos, em média, para dar continuidade ao filme.

Mas e o trabalho do projecionista moderno, aquele que lida com o projetor digital? Basicamente, basta apertar alguns botões. Genaro explica que, hoje, para treinar uma pessoa a fim de exercer a função não é necessário mais do que um dia. "Antigamente, eram necessários até cinco meses para ensinar alguém. Agora, em poucas horas, qualquer um consegue projetar".

Com mais de duas décadas de carreira, há cerca de oito anos, Genaro teve de se "modernizar" e aprendeu a mexer na parafernália eletrônica. De acordo com ele, o lado bom é que, na exibição digital, um longa-metragem quase não apresenta problemas. Por outro lado, é mais fácil notar falhas no filme em rolo. "Dá para saber se há algo de errado quando ele ainda está dentro da lata".

Em épocas de mostras, na Cinemateca, Genaro comanda, por dia, cerca de quatro sessões. Mas, apesar de gostar de cinema desde jovem, ele revela que não vê realmente os filmes enquanto os projeta. "Não dá, fico atrapalhado. Durante cada sessão, tenho inúmeras outras coisas para observar e fazer, como ver se a película vai vibrar na tela e trocar os rolos".

O cine que me fez perder a cabeça

Por Luiz Saidenberg (Quadrinistaartista plástico e blogueiro)
Olho para minha estante, na sala. Do alto, quatro grotescas faces me contemplam, com seus  grandes olhos e as ferozes bocas, agudos dentes à mostra. As cores são vivas, mas formam um conjunto harmonioso. São cabeças em tamanho natural, máscaras tailandesas, da dança Khon. Que conta sobre o mítico drama Ramayana, ou Ramakyan, a luta de Rama, na sua reencarnação como Shiva, contra as forças do mal.

Quem as fez fui eu, num exercício de ceramista amador. Não só fiz estas, como pretendo fazer outra. Fiz por achar bonitas, raras por aqui, embora tradicionais no ex-reino do Sião, tão distante. Será por isto, mesmo? Por que recorrer a um folclore assim longínquo, sem nada a ver com as tradições brasileiras? Terei perdido enfim a cabeça, para espelhá-la nas destas máscaras?
Mas, não terão nada mesmo a ver, apenas uma caprichosa fantasia? Eu discordo, pois minha relação com essas faces ferozes é antiga. E tem muito, mesmo, a ver com a São Paulo de décadas atrás.
Quando existia um belo cine chamado Santa Cecilia, na Av. Olimpio da Silveira.

Estamos agora no final da década de 50. Casualmente quase, numa tarde de sábado, adentro o Santa Cecilia, sem dar-lhe seu devido valor de - literalmente - templo do cinema. Estou acostumado a frequentá-lo, mas mesmo assim, mais uma vez chamam-me a atenção a mesa central com patas de elefante e as poltronas, com descansa braços elefantinos...
Lá dentro, a verdadeira e antiga influência das minhas futuras máscaras bravias: guardiões tailandeses cercam a plateia, com suas faces de demônios e olhos luminosos, que se apagam gradativamente quando se inicia a projeção. Isto me impressionou fortemente, mas com o tempo perdi a noção da verdadeira imponência e riqueza da ornamentação do cine.
Recuperei-a, deslumbrado, alguns dias atrás. Meu caro Fabio Santoro, cinéfilo inveterado, enviou-me páginas de "A Revista", edição de 1999. Nelas, um texto de Roberto Bicelli sobre duas glórias da velha Pça. Marechal: o Circo Piolim... e o Cine Sta. Cecilia.
E, enfim, as fotos! Maravilha! Emocionado, revi, pela primeira vez em cinquenta anos, os suntuosos salões e plateia de meu cine favorito. Numa exuberância oriental fantástica, um sonho das mil e uma noites, o velho "Santa" voltava à vida. E que vida!

Sobre a plateia, uma abóbada celestial. Estrelas a luzir, como uma noite alucinada de Van Gogh  nos domínios dos marajás moguls, ou no antigo Reino do Sião, que hospedou, num caso verdadeiro, a professora inglesa Ana.
Tudo muito além do que jamais poderia supor nossa vã imaginação, ou nossas pobres lembranças.  Agora, sim, sentimos: que perda absurda, a estúpida destruição do esplendoroso cine, pecado destes que jamais poderão ter perdão.
Então, só mesmo chorando... ou fazendo máscaras exóticas de uma cultura estranha, uma humilde, mas sincera homenagem póstuma ao grande Santa Cecilia.

O luxuoso cine Metro de 1938

Em São Paulo está surgindo a Cinelandia ao longo da Avenida São João. Agora é o cine Metro que se inaugurou nas cercanias do Ufa e do Broadway.
O cine Metro foi construído pela Cia. Constructora Nacional S.A., para a Metro Goldwyn Mayer com os mesmos característicos das casas de exhibições dessa importante firma productora, nas grandes capitães do mundo.
Aliás, a Metro Goldwyn Mayer estabelece um systema standard para os seus cinemas. Dahi possuir o cine Metro todos os aperfeiçoamentos das salas de exhibições da Broadway, em New York ou da Champs Elysés, em Paris.
Construcção de concreto armado, a fachada é simples e sóbria, linhas horizontaes e verticaes.
O hall amplo em mosaico granito róseo; duas escadarias para os balcões; portas envidraçadas em que o jacarandá resalta bellamente são as impressões iniciaes.
As decorações internas, carregadas de motivos inspirados dos egypcios.
Sala commoda, em dois planos, platéa e balcões em que se percebe a preoccupação de se dar um máximo de conforto ao espectador.
Um systema de ar condicionado medido, lavado, filtrado e seccado é insuflado atravéz dos motivos decorativos do tecto e das paredes; esse ar é exhaurido sob as poltronas em dispositivos especiaes, permitindo assim continua, agradável e racional renovação de ar.
Ao espectador é dada visibilidade total; as poltronas são locadas em círculos concêntricos com a tela e distanciadas 87 centimetros, um maximo de espaço e commodidade.
As paredes arrematadas com lambris de imbuia dão um contraste agradável com o restante do revestimento.
Um tapete único e maravilhoso cobre o piso ambiente tão bem estudado para sala de projecção.
Acústica perfeita; existe um oco entre o revestimento interno e o concreto armado, e mesmo toda a construcção obedece ao systema de concha para limpidez do som.
As installações de illuminação, projecção e som possuem tudo o que há de mais perfeito e até o maximo que a technica conseguiu em effeitos dessa natureza.
A luz irradia da própria cabine do operador, luz colorida e variável. A projecção é feita de maneira a dar a impressão de que a scena é vista em um palco e não sobre um panno simples.
As photographias que acompanham estas ligeiras notas evidenciam muito daquilo que affirmamos e demonstram, perfeitamente, que está de parabéns o publico paulistano ao lhe ser entregue, aos seus cuidados, um dos cinemas mais perfeitos do Brasil.
Texto (integral, com o português e a ortografia da época) e fotos da revista Acrópole nº. 1 (Maio de 1938).







Mais informações sobre o cine Metro (Clique aqui).

Cine Metro: ontem e hoje

Inauguração : 15/03/1938
Reinauguração após grande reforma e divisão do cinema em duas salas : 01/04/1976
O cinema funcionou até 27/02/1997.
Últimos filmes exibidos : "Coração de Dragão" na sala 1 e "Jerry Maguire - A Grande Virada" na sala 2.
Atualmente, o prédio sedia uma igreja evangélica.
Para maiores informações sobre este cinema, clique nos links abaixo:
Link 1 e Link 2

1938
29/10/1994
01/07/2014
01/07/2014
1938
01/07/2014
1938
01/07/2014
01/07/2014
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.