Profissionais da exibição: Eder Delatore, projecionista


O homem que faz os sonhos girar
Por Rafael Amaral (ramaral@jj.com.br)
Texto publicado no “Jornal de Jundiaí” em 06/01/2013.

Eder é projecionista e, do alto da cabine, coloca diversos filmes que fazem a alegria e leva muita gente às lágrimas. Ele descobriu o cinema aos 9 anos.



O trabalho de Eder Delatore se dá em uma sala escura, rodeado por máquinas, com um pouco do som que vem de fora. À sua frente, depois de um vidro, há uma tela grande, um pouco distante, com imagens e sons responsáveis por fazer muita gente sonhar por horas. É a sala de cinema.

Eder é quem faz todo aquele espetáculo funcionar, o filme girar, dos bastidores, e com grande responsabilidade. O jovem projecionista se despregou do cinema durante alguns anos, mas acabou voltando. Não teve jeito: cinema, ele diz, é uma paixão.

Na sala de projeção, Eder trabalha com o filme em película e em formato digital. Aprendeu a lidar com as duas formas e não se intimida. Quando necessário, está em mais de uma sala ao mesmo tempo, às vezes em três, às vezes em até sete com a película e o digital.

Do alto, onde fica, consegue ter uma ideia se o filme agrada o público ou não. Alguns filmes têm pregado as pessoas à poltrona por quase três horas, como “O Hobbit”. Outros, como “Ted”, fez com que gente – acompanhada de crianças – deixasse a sala.



Ver filmes? “Dá para ver muitos a partir da sala de projeção, mas o ideal é ver da poltrona do cinema mesmo”, explica. “Além disso, às vezes precisamos sair da cabine, estar atento a outras coisas, em outros locais”.

Eder não se recorda do primeiro filme que projetou sozinho em Jundiaí. Após trabalhar por um ano como porteiro do Moviecom, ele subiu alguns degraus e foi para a sala de projeção. Passou por aprendizado e, na companhia de outros funcionários, fez a máquina de sonhos girar. Era a época de “Avatar”. E Eder, lá no alto, com os olhos pregados na tela, viu o quanto o filme de James Cameron arrancou suspiros do público.

Eder Delatore deixou a Moviecom Cinemas em 2013, para se dedicar ao um lindo projeto que conheceremos a seguir.

Passado

Foi outro filme de Cameron, em 1984, que fez Eder descobrir o cinema. Certo dia, em Santa Adélia, cidade onde cresceu e onde vivem seus parentes, Eder decidiu mudar o caminho da escola. Tinha apenas 9 anos. “Decidi virar e ir para outro lado. Foi quando me deparei com aquele cinema e com o cartaz de ‘O Exterminador do Futuro’, uma descoberta”.

A vida do menino começava a mudar. Logo chegou a hora de contar a descoberta para a mãe, que, crente em Deus, achava que aquela coisa de cinema era meio chegada ao pecado. E o filho sequer tinha entrado na sala.

O menino voltou a passar pela frente do cinema, chamado Cine São Paulo. Certa vez, parado nas grades da portaria, um dos funcionários do local, cujo apelido era Chita, convidou Eder a entrar. Quando finalmente ele pôs os pés na sala do cinema, Eder ficou deslumbrado: a grande tela, na qual passava “Hércules e os Gladiadores”, dava a impressão que ia engoli-lo.

“Naquela mesma sessão, no escuro, alguém puxou meu braço”, recorda. Era um de seus tios, com quem ele terminou de assistir o filme. Daí para frente, não parou mais.

De tanto frequentar o Cine São Paulo, Eder passou a trabalhar no local. Limpava o chão se necessário. Mais tarde, foi parar na sala de projeção.



À época, o equipamento ainda era movido a carvão. “Não que não existisse algo mais moderno, mas como era cidade do interior, as coisas demoravam um pouco”.

Mais velho, Eder se recorda das vezes em que teve de ficar até a madrugada no cinema, nas sessões de filmes pornôs. Os outros projecionistas eram casados e, por pressão das mulheres, não queriam trabalhar nessas sessões.

Um de seus filmes preferidos é “Platoon”, de Oliver Stone,  assistido em Santa Adélia, para onde ele pretende voltar em breve e onde, com outras pessoas, luta para reabrir o velho Cine São Paulo. “Todo comércio que abriu naquele prédio não foi para frente”, comenta Eder, fazendo planos para dar vida à sétima arte no local.

“O cinema é uma paixão. Aproveito meus dias de folga para ver filmes, mas dessa vez entre o público”.


Eder Delatore deixou a Moviecom Cinemas em maio de 2013, para se dedicar ao projeto de retomada e recuperação do Cine São Paulo, antigo cinema da cidade de Santa Adélia, onde trabalhou por toda a infância até a última sessão em janeiro de 1991.

Contate o Eder pelo Facebook, compartilhe e conheça melhor o seu projeto.

Profissionais da exibição: Kazuo Yamaguti, projecionista

Natural da cidade de Bauru, interior de São Paulo, Kazuo Yamaguti começou a trabalhar como operador de cabine de projeção logo que chegou na cidade de São Paulo, no início dos anos de 1960. Passou por vários cinemas: Nikkatsu, Niterói, Gemini, Metro, Majestic, Comodoro e Top Cine.

Kazuo trabalhou no Top Cine até 1990 e, no ano seguinte, foi trabalhar no Japão. Quando voltou ao Brasil, em 1993, não conseguiu mais emprego nas redes de cinema, pois exigiam diploma de nível superior, mesmo tendo ele quase 30 anos de experiência como projecionista. Kazuo faleceu em 2014.

Agradeço a colaboração de Koiti Cesar Yamaguti,
filho de Kazuo Yamaguti.

Kazuo com sua esposa Tizuru Nomizo na cabine do cine Nikkatsu - Anos de 1960
Recepção de artistas japoneses no cine Niterói. Kazuo Yamaguti é o terceiro, a partir da esquerda - Anos de 1960
Restaurante do cine Niterói onde trabalhou a esposa de Kazuo (no centro da foto), antes de conhecê-lo - 1958
Restaurante do cine Niterói onde trabalhou a esposa de Kazuo (atrás, no centro da foto), antes de conhecê-lo - 1958
Kazuo no cine Niterói - 1972
Kazuo em frente à bilheteria do cine Niterói - 1972
Equipamentos de áudio e projeção do Top Cine - 1989
Kazuo na cabine de projeção do cine Top Cine - 1989


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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.