Memória do cinema

Por Manuel Filho - Escritor, cineasta, ator, cantor e compositor.
Como escritor, recebeu o prêmio de literatura mais importante do país, o Prêmio Jabuti em 2008.



O cinema sempre foi algo mágico em minha vida, pois era, de fato, uma das principais atrações de minha infância.

Eu nasci e cresci na cidade de São Bernardo do Campo (SP) e, nos anos 70, havia três salas: o cine São Bernardo, na Rua Marechal Deodoro, nº 1237, o cine Rudge Center, na Av. Caminho do Mar, 
nº 3438 (Rudge Ramos) e o cine Haway, o mais importante deles, na Rua José Pelosini, nº 40.

Detalhe: todos eram “cinemas de rua”, nem uma única sombra de Shopping Center naquele tempo.

Na minha cidade existem até o dia de hoje os galpões da velha Cia. Cinematográfica Vera Cruz e, certamente, ela me influenciou de maneira diferente das demais pessoas que não tiveram esse conjunto histórico em suas vidas. Meu pai sempre disse que se lembrava dos artistas caminhando pelas ruas, das fantasias (figurinos) e outras memórias que são bastante comuns entre os idosos da região.  Na minha cabeça, eu fantasiava com a presença de “astros” e “estrelas” desfilando pelas mesmas ruas que eu andava.

A primeira referência que tenho de um filme ocorreu de forma engraçada, hoje compreendo isso. Meus pais diziam que queriam assistir a um filme. Até aí, tudo bem, o curioso era o nome: A Banda das Velhas Virgens, de Mazzaropi. Eu cansei de perguntar o que era uma “velha virgem”, mas ninguém me explicou. Eu me recordo de uma melancia que quebrava no chão e sei que essa cena é de um filme de Mazzaropi. Ainda não vi o filme, mas vou corrigir isso brevemente.

Gosto e respeito o trabalho de Mazzaropi, aliás.

Outra falha de minha “vida cinematográfica” foi ter perdido a estreia do filme Star Wars, de George Lucas. Na escola, a molecada não falava de outra coisa e ele esteve em cartaz no cine São Bernardo. Eu perdi, provavelmente porque nunca tive muito interesse em filmes de super-heróis ou ficção científica.

O meu amor pelo cinema se estabeleceu definitivamente quando inaugurou o cine Haway. Ele ficava bem no centro da cidade, no topo de um prédio circular e comercial de três andares; a cereja do bolo. Era a melhor sala da cidade e dependendo do filme que estivesse em cartaz, filas se formavam nas rampas circulares indo até o térreo. Vejam só, pensando agora, já havia naquele edifício a preocupação com a acessibilidade.

Tubarão, de Steven Spielberg, foi o primeiro filme que assisti no Haway e, por causa disso, fiquei três noites sem dormir. Tive que recorrer ao “auxílio” de meus pais, com quem devo ter dividido a cama. As notícias que chegavam a respeito do filme eram aterrorizantes e, por isso, eu precisava vê-lo. Embora eu não tivesse idade suficiente, me deixaram acessar a sala e o trauma foi estabelecido.

Depois, vieram muitas alegrias: King Kong, de John Guillermin, com Jessica Lange. Impossível se esquecer daquele gorila imenso aparecendo na telona do cinema? Como era gostoso subir a escadinha que levava à sala e, aos poucos, observar surgindo sobre nossas cabeças a tela do cinema. Depois, aguardar pelo lanterninha que nos ajudaria a encontrar um lugar, certamente um banco forrado com tecido vermelho, na sala quase sempre lotada.



E, claro, eu costumava assistir ao filme duas vezes. Podia-se ficar no cinema após o final da projeção, sem pagar nada mais por isso. Não havia reserva de cadeiras ou algo parecido.

Enfim, já vitimado pelo mercado de consumo, comprei o álbum de figurinhas do filme e, embora tenha tentado com afinco, jamais o completei.

A grande lembrança de toda essa época, para mim, é Grease - Nos Tempos da Brilhantina, dirigido por Randal Kleiser. Vi, pelo menos, seis vezes. Adorava as músicas e acho que hoje teria vergonha de todo o “embromation” que fazia para cantá-las. Era impossível conhecer as letras originais e me lembro com carinho das várias interpretações que os amigos faziam, todas incorretas, provavelmente, pois ninguém falava inglês.


Outros filmes foram marcantes pelo fato de não terem sido vistos: 
fui barrado em Os Embalos de Sábado à Noite, de John Badham, e Irmão Sol, Irmã Lua, de Franco Zeffirelli. Porém, ter sido barrado no filme A Maldição das Aranhas, de John 'Bud' Cardos, foi muito chato. Eles colocavam, ao lado do cartaz, fotos instigantes do filme e havia algumas exibindo pessoas presas e enroladas em teias de aranha. Fiquei maluco para assisti-lo e fui para a fila. O lanterninha, entretanto, antes de abrir as portas, gritou:

- Quem não tiver 16 anos pode sair JÁ da fila.

Eu, do alto dos meus 10, me retirei bastante contrariado. Fiquei frustradíssimo, mas, hoje em dia, eu tenho o DVD do filme.




O cine São Bernardo, com o tempo, se tornou um cinema mais apelativo. Ele passava os filmes “tipo B”. Nele assisti ao Ataque das Formigas Gigantes, dirigido por Bert. L. Gordon. Quando passou Alien 3, dirigido por David Fincher, eu me recordo de que fiquei tão tenso que só percebi que meu guarda-chuva havia caído no chão ao final do filme. Também foi nesse cinema, muito tempo depois, que assisti ao primeiro filme pornográfico que vi na vida. Naquela época, esse tipo de filme era ainda restrito e muito se falava de O Império dos Sentidos, dirigido por Nagisa Oshima, e Calígula, dirigido por Tinto Brass, com cenas adicionais filmadas por Giancarlo Lui e por Bob Guccione. Mas, acho que o que vi era bem inferior, mas não me lembro do nome.

Já no cine Rudge Center era possível se assistir aos filmes da Disney, inéditos e reprises. Ali eu pude ver Meu Amigo o Dragão, por exemplo.

Percebe-se, portanto, que os cinemas de São Bernardo adotavam um certo padrão: o Haway transmitia as novidades, o Rudge Center, filmes para a “família” e o São Bernardo sempre teve “um pé” no que fosse mais popular.

O destino deles, infelizmente, foi triste. A estrutura do Haway permanece no mesmo lugar, entretanto, todo o edifício foi praticamente abandonado e até se tornou um recanto perigoso. O cinema ainda funciona, mudou de nome para Pégasus e apresenta uma programação pornográfica, inclusive com shows eróticos.


Local onde funcionou o Haway - Fotos: Manuel Filho



O Rudge Center foi convertido em uma igreja evangélica e o São Bernardo foi completamente descaracterizado transformando-se em uma loja de sapatos. Curiosamente, a fachada desse último foi preservada por força de uma ação cultural e há, na parede externa, uma placa lembrando que ali existiu uma sala de cinema.

O cine São Bernardo virou loja - Fotos: Manuel Filho



Todos os cinemas da cidade estão atualmente em shoppings, exceto por uma pequena sala, no centro da cidade, que só passa filmes pornográficos. Há alguns anos, um cineasta local se utilizou dessa sala para apresentar um filme que ele havia produzido, não pornô.

Quando criança e adolescente, poucas vezes me aventurei para a cidade de São Paulo, onde sempre estiveram as melhores salas, porém, lembro-me de ter assistido ao desenho da Disney O Cão e a Raposa, que preferi em vez de E.T. - O Extraterrestre, de Spielberg, pois a fila dava voltas no quarteirão, e, em outra oportunidade, fui assistir a um filme no cine Comodoro, que era muito famoso. Anos e anos depois, me lembro de longas filas na Avenida Paulista para o filme O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci.

Acho que essas são as principais memórias, as formadoras. Ir ao cinema se tornou um hábito e, várias vezes, um exercício de paciência, pois é muito chato ainda encontrar pessoas que não param de falar por um só minuto e outras que fazem do local um restaurante.

Atualmente vejo filmes por meio de todas as plataformas disponíveis e, quem diria, até produzo os meus curtas. Trata-se de uma grande diversão que já me deu várias alegrias: Você Assinou o Contrato, cujo roteiro criei, já passou em vários festivais, inclusive em um universitário em Nova York. Aos que Ficam, que escrevi e dirigi, disputou o Festival de Cinema de Belém, no Pará.

Também escrevi um livro para jovens que aborda o meu amor pelo cinema, Vovô Não Gosta de Gelatina, pela Panda Books, para o qual eu produzi um Book Trailer, que participou do Festival de Cinema de Cabo Frio, no Rio de Janeiro.

E, claro, vamos em frente aguardando o próximo bom filme que irá nos alegrar e fazer parte de nossas vidas.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.