Cine Belas Artes: um passeio por sua história

Por Antonio Ricardo Soriano e Luiz Carlos Pereira da Silva
Colaboração: Roseli Venancio Pedroso 
(Bibliotecária, escritora e blogueira)

INAUGURAÇÃO - CINE TRIANON

O cine Belas Artes foi inaugurado em 14/07/1956 com o nome de cine Trianon. Possuía apenas uma sala com cerca de 1400 lugares (plateia e balcão) e era administrado pela Cia. Cinematográfica Serrador Ltda. Em sua inauguração foi exibido o filme "Eles se casam com as morenas", com Jane Russel e Jeanne Crain. Estavam presentes o gerente e o diretor da Cia. Serrador, João Zeron e Dr. Florentino Llorente. Contava com aparelhos de projeção Simplex para os sistemas CinemaScope, Vista-Vision, SuperScope e Naturama e o som era estereofônico. O prédio era de propriedade de Phelippe Azer Maluf.























REINAUGURAÇÃO - CINE BELAS ARTES

O cine Trianon foi inteiramente reformado e reinaugurado em 14/07/1967 (aniversário de 11 anos do cinema), com novo nome: Belas Artes. Com a instalação de novas poltronas, a capacidade do cinema diminuiu para cerca de 1200 lugares. O filme inaugural foi "Os russos estão chegando" (1966), de Norman Jewison, indicado ao Oscar em quatro categorias e ganhador do Globo de Ouro na categoria de Melhor Comédia e Melhor Ator de Comédia (Alan Arkin), além da indicação de Melhor Roteiro (William Rose).

O 'cinema de arte' passou a predominar a programação do cine Belas Artes, organizada pela Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), criada em 1962, para apoiar a Fundação Cinemateca Brasileira. O presidente da SAC, Dante Ancona Lopez (1909-1999), havia selado um acordo com a Cia. Serrador, pelo qual se responsabilizava administrativa e artisticamente pelas projeções a serem realizadas na nova sala de espetáculos.

Dante Ancona Lopez era conhecido por trazer o 'cinema de arte' a São Paulo (quando fundou o cine Coral, em 17/09/1958, na Rua 7 de Abril, 381) e já havia feito, acertadamente, a mesma experiência de levar filmes alternativos a dois cinemas menores, Scala e Picolino, também em parceria com a Cia. Serrador, razão pela qual as duas partes decidiram levar a experiência a uma sala maior.

Na cerimônia de anúncio a imprensa da inauguração do cine Belas Artes, em 12/04/1967, Dante Ancona Lopez declarou:
“Quando começamos a experiência dos cines Scala e Picolino, pensávamos ter que fazer certas concessões ao gosto do público, exibindo fitas que, não sendo meramente comerciais, não tinham padrões excepcionais de qualidade. Atualmente, verificamos que esses filmes já não satisfazem ao público que se acostumou a exigir um alto nível artístico de nossa programação. “A Passageira”, de Munk, que atualmente está sendo exibida naqueles cinemas – e cujo lançamento nos parecia um pouco perigoso – está tendo a melhor das repercussões. O fato é que, em sua tentativa de estabelecimento de um 'cinema de arte', a SAC foi bem-sucedida, o que em muito motivou a decisão acertada da Empresa Serrador de adotar São Paulo de um verdadeiro 'cinema de arte'. Continuaremos, pois a exibir uma programação que tenha grande categoria cultural. As sessões especiais de segundas-feiras, que vem sendo realizadas no Picolino, às 22h30, serão no cine Belas Artes, complementadas por outras manifestações artísticas. Ao invés de se limitarem a exibição de filmes de boa qualidade, que se perderam por lançamentos mal feitos, ou que não disponham de um público convencional, essas sessões serão precedidas de concertos corais e de câmara, recitais, palestras, debates, espetáculos teatrais e coreográficos”.

As apresentações não cinematográficas serviam, também, de complementação a filmes de importância artística que não tinham a duração convencional de 90 minutos ou mais. A ideia era adequar o cine Belas Artes ao lema da SAC: “ESPETÁCULO, POLÊMICA E CULTURA”.

















Já, Fiorentino Llorente, diretor da Cia. Cinematográfica Serrador e conselheiro-fundador da SAC declarou, em junho de 1967:
“A decisão da Cia. Serrador, de instalar um grande cinema devotado ao filme de arte, foi ditada pela necessidade de São Paulo ser possuidora de uma sala de grande categoria com programação especial, a exemplo do que acontece em outras cidades do mundo. A experiência feita no Picolino mostrou ser possível a implantação junto ao público de um novo repertório de fitas, graças a um sistema novo de promoções. O filme de arte que, antes, era um verdadeiro tabu para o exibidor, hoje, graças a ação de cinematecas, cineclubes, imprensa especializada, realizadores nacionais, debates e estudos nos meios estudantes, exibidores e distribuidores mais esclarecidos, e até mesmo solicitado por uma plateia em formação e que, em matéria de qualidade artística, é mais exigente. É muito proveitosa a aproximação entre a Cia. Serrador e a Sociedade Amigos da Cinemateca, com sua indispensável assessoria cultural”.

Funcionava no 1º andar do Belas Artes, a secretaria e a biblioteca da SAC, além de uma galeria com exposições permanentes. No hall de entrada, stands com os últimos lançamentos de livros e discos de vinil. Havia, também, um pequeno palco com iluminação e sistema de som, adequados para realizar pequenos espetáculos de teatro, música e dança, além de palestras e conferências.

Os primeiros filmes exibidos no Belas Artes foram: "O Anjo Exterminador", de Luis Buñuel, "A Carroça", de Karel Kachina, "Pedro, o Negro", de Milos Forman, "Os Cachimbos do Adultério", de Voitech Jasny e "O Acusado", de Jan Kadar e Elmar Klos. Devido à grande capacidade de lotação do Belas Artes, as produções exibidas ali não podiam ser só para um público restrito, por isso, eram escolhidos filmes que atendiam os objetivos culturais da SAC e que podiam, ao mesmo tempo, chamar a atenção de um grande público.

Em 07/08/1970, o Belas Artes foi dividido em duas salas: a Villa-Lobos (com 630 lugares) e a Cândido Portinari (no local do antigo balcão ou plateia superior, com 508 lugares).






















A terceira sala foi inaugurada no subsolo do Belas Artes, em 05/12/1975, com nome de Mário de Andrade. O programador Dante Ancona Lopez decidiu utilizar as salas do térreo e do 1º andar para exibir filmes mais populares e reservar a do subsolo para ciclos e mostras especiais.













Em 1981, os fiscais da Prefeitura apontam irregularidades nas salas de exibição do cinema. A Cândido Portinari possuía paredes revestidas de madeira, a Villa-Lobos tinha escadas estreitas e sem sinalização e a Mário de Andrade tinha apenas uma saída de emergência. O cinema permaneceu aberto e teve prazo de vinte dias para realizar as mudanças exigidas.

INCÊNDIO

Um incêndio destruiu na madrugada de 10/05/1982, as instalações das duas maiores salas do Belas Artes. Primeiro a Portinari, em seguida, a Villa-Lobos. A equipe de bombeiros teve dificuldades de acessar o interior do cinema devido à elevada temperatura, agravada pelas paredes de concreto que impediam a dissipação do calor. O fogo se alastrou rapidamente graças aos materiais de fácil combustão existentes no cinema, como poltronas, carpetes, cortinas e isolantes acústicos. Até os projetores foram destruídos. A sala Mario de Andrade nada sofreu. Mesmo com salas estando ainda em situação irregular perante a Prefeitura, a perícia concluiu que o incêndio teria sido criminoso, pois foram arrombados portas e cofre.


















Na ocasião, os cartazes anunciavam: “Bodas de Sangue”, de Carlos Saura (na sala Villa-Lobos), “Crônica do Amor Louco”, de Marco Ferreri (na Cândido Portinari) e “A Mulher do Lado”, de François Truffaut (na Mário de Andrade).

REABERTURA

O Belas Artes foi reaberto para convidados em 01/06/1983 e, para o público em geral, em 02/06/1983, totalmente reformado e, agora, dividido em seis salas, cada uma batizada com o nome de um artista brasileiro. Duas salas no subsolo, Carmen Miranda e Mário de Andrade; duas no térreo (local da antiga plateia, dividida ao meio), Oscar Niemeyer e Aleijadinho; e duas no primeiro andar (local do antigo balcão e sua sala de espera), Cândido Portinari e Villa-Lobos. Cada sala com infraestrutura própria: sala de espera, banheiros e saídas de emergência.










Desta vez, os cartazes de rua anunciavam: “Danton, o Processo da Revolução”, de Andrzej Wajda (Villa-Lobos); “Retratos da Vida”, de Claude Lelouch (Cândido Portinari); “Sargento Getúlio”, de Hermano Penna (Oscar Niemeyer); “Sete Dias de Agonia”, de Denoy de Oliveira (Aleijadinho); “O Desespero de Verônica Voss”, de Rainer Werner Fassbinder (Carmen Miranda) e “Crônica de Amor Louco”, de Marco Ferreri (Mário de Andrade).















O cinema, agora chamado Gaumont Belas Artes, seguiu com a mesma linha de programação (o 'cinema de arte'), mas com uma nova administração, a distribuidora francesa Gaumont do Brasil Cinematográfica Ltda., que o comprou da Cia. Serrador e inaugurou o conceito de multiplex na cidade (o primeiro da América Latina). A Gaumont exibiria ali, grandes lançamentos do cinema francês.

Além da grande quantidade de salas, o Belas Artes retornou com muitos aprimoramentos: cor das salas, que variavam do verde ao vinho, do cinza ao marrom; poltronas em tecido, com encosto duplo e suporte para cabeça; sistema de som Dolby e equipamentos eletrônicos de projeção (com tecnologia europeia). A reforma geral durou seis meses e custou cerca de dois milhões de dólares.

O cinema foi interditado logo após a reabertura, em 15/06/1983, pela Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano e Comissão Especial de Uso e Ocupação do Solo, que analisaram o Código de Edificações e exigiram modificações no prédio, como a retirada de algumas poltronas das salas e melhorias na circulação interna, para uma saída mais rápida e segura do público. Com as mudanças realizadas, o cinema foi autorizado a iniciar suas atividades em outubro do mesmo ano. A capacidade do cinema diminuiu de 1436 lugares para 988.

DECLÍNIO

Em 29/01/1987, o Circuito Alvorada passou a controlar o Belas Artes e exibir filmes mais comerciais. O público fiel, acostumado a uma programação diferente, foi desaparecendo e, nos anos de 1990, o cinema entrou em crise e, sem manutenção, suas instalações se deterioram.















A distribuidora e exibidora carioca de filmes de arte Estação Botafogo passou a comandar o cinema em 27/07/2001 e o rebatizou como Estação Belas Artes. Retomaram a programação dedicada exclusivamente ao 'cinema de arte', privilegiando clássicos, filmes independentes e nacionais. Lançaram excelentes filmes e promoveram ciclos de diretores consagrados. 

No final de 2002, o grupo Estação resolveu concentrar suas transações no Rio de Janeiro, saindo do mercado paulista, onde administravam 10 salas (seis do Belas Artes, duas do Top Cine e duas do Studio Alvorada). André Sturm, cineasta e distribuidor, fã declarado do Belas Artes, procurou imediatamente parceiros para administrar o cinema (um sonho antigo de Sturm).

Em 05/12/2002, o “Viva o Belas Artes”, movimento criado em sua defesa, conseguiu adiar o fechamento do cinema por mais alguns dias. Nesta data, o cinema exibiria as suas últimas sessões, por isso, integrantes do movimento penduraram faixas em frente ao prédio afirmando que o Belas Artes seria um patrimônio público da cidade e, portanto, não poderia fechar. O “Viva o Belas Artes” tinha o arquiteto Roberto Loeb como presidente e a jornalista Sonia Morgenstern Russo como vice.













ESPERANÇA

REINAUGURAÇÃO – CINE HSBC BELAS ARTES

André Sturm, proprietário da Pandora Filmes, junto de Fernando Meirelles (cineasta – diretor), Andréa Barata Ribeiro (publicitária – produtora) e Paulo Morelli (cineasta – diretor), ambos da produtora O2, tornaram-se sócios e, a partir de março de 2003, passaram a administrar o Belas Artes, evitando assim o seu fechamento. Renegociaram o aluguel do imóvel e, em dezembro, assinaram uma parceria com o banco HSBC, que acrescentou seu nome ao cinema, dando início a uma reforma total do complexo. “Hoje, com a nova parceria, estou realizando o sonho de viabilizar o projeto com sócios que têm interesses comuns”, diz Sturm.

A reinauguração do cine HSBC Belas Artes aconteceu em 28/05/2004, às 20h30, com a superlotação de todas as salas de exibição, que projetavam, simultaneamente, a pré-estreia do filme "O Outro Lado da Rua", de Marcos Bernstein, estrelado por Fernanda Montenegro e Raul Cortês (ambos presentes no evento).














A programação, organizada pelos cineastas Sturm e Meirelles, passou a ser de 'cinema de arte' e filmes comerciais de qualidade, mesclados com filmes nacionais, clássicos e outros raros e inéditos no país como, por exemplo, o argentino “Histórias Mínimas” (2002), de Carlos Sorín, exibido na semana da inauguração. “Uma sala para quem gosta de cinema, para cinéfilos radicais, não tanto para quem prefere pipoca e shopping”, explicou Meirelles.

Dentro da programação, entre 6 a 8 filmes em cartaz, havia sempre um brasileiro, além disso, as salas recebiam mostras especiais e, uma vez por mês, o famoso “Noitão”, que exibia filmes na noite de sexta até o início da manhã de sábado (sempre com um filme surpresa). Umas das características da programação era atrair grande quantidade de público para filmes considerados 'pouco comerciais', como por exemplo, o filme francês “Medos Privados em Lugares Públicos”, de Alain Resnais, que ficou em cartaz por cerca de três anos.

Duas reformas, projetadas pelo arquiteto Roberto Loeb e Alexandre Toro (responsável pela comunicação visual), deixaram o hall de entrada e os corredores mais espaçosos. Em cada andar, um lobby com bar e bombonière. No 1º andar, uma grande janela, com vista panorâmica para a Rua da Consolação e no térreo, quatro novas bilheterias (e sem vidros!). Novas tecnologias foram instaladas, como novas lentes de projeção e sistema de som mais moderno. Foi instalado também, um elevador de acesso para deficientes físicos. Devido às novas poltronas, a capacidade total do cinema passou a ser de 1040 lugares: salas Aleijadinho (154); Cândido Portinari (245); Carmen Miranda (97); Mário de Andrade (88); Oscar Niemeyer (163); e Villa-Lobos (293 lugares).




























Programação de filmes na semana de inauguração: “O Herói da Família”, “O Dia Depois de Amanhã”, “Cronicamente Inviável”, “Quanto Mais Quente Melhor”, “As Bicicletas de Belleville”, “O Outro Lado da Rua”, “Viva Voz” e “Histórias Mínimas”.

O POLÊMICO FECHAMENTO

Em março de 2010, o banco HSBC retirou o patrocínio do Belas Artes. André Sturm, proprietário do cinema, iniciou uma mobilização para conseguir novos patrocinadores, pois os valores arrecadados com as bilheterias não eram suficientes para manter o complexo de seis salas funcionando. André Sturm, proprietário do cinema declarou na época: “Nosso problema é uma equação econômica. Em um cinema de shopping, o aluguel equivale a cerca de 10% do faturamento. Já o nosso, em torno de R$ 60 mil, chega a 25%. As contas não fecham. Da renda de um filme, 50% fica com a distribuidora. Outros 10% vão para os impostos – fora, depois, o imposto de renda, o IPTU...”.

Iniciou-se um dramático processo de renovação do contrato de aluguel entre o proprietário do prédio, Flávio Maluf e o dono do cinema André Sturm. Flávio Maluf queria um reajuste no valor do aluguel que, segundo ele, estava muito defasado e Sturm, acertando uma parceria com novos patrocinadores, se comprometeu a pagar um valor maior.

Em 30/12/2010, às vésperas de assinar um novo contrato de aluguel, Sturm recebeu uma notificação judicial para que entregasse o imóvel até fevereiro. Sturm havia conseguido o apoio de três empresas dispostas a patrocinar o Belas Artes. Flávio Maluf recusou uma oferta de aluguel acima de R$ 85 mil mensais, com garantia de pagamento por cinco anos (tempo do contrato), mais correção anual.

Em janeiro de 2011, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) e o CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) abriram processos de tombamento do prédio do cine Belas Artes. Iniciou-se uma avaliação sobre a sua relevância no conjunto de edifícios de arquitetura moderna nos anos 1940 e 1950, na caracterização urbanística da área da Rua da Consolação e da Avenida Paulista. Analisando também, a necessidade de se preservar a arquitetura original do antigo cine Trianon (precursor do Belas Artes), obra de 1956, do arquiteto de origem italiana Giancarlo Palanti (1906-1977). Com a abertura dos processos, o proprietário do imóvel ficou obrigado a pedir autorização para qualquer alteração que pretendesse realizar no prédio.

O anúncio do fechamento do Belas Artes desencadeou inúmeras manifestações populares, entre passeatas, criação de blogs e páginas em redes sociais, além de abaixo-assinados físicos e eletrônicos com o registro de cerca de 28 mil adesões. Paralelo a isso, ocorreram manifestações de funcionários do cinema e protestos de cineastas e críticos. Contudo, nada impediu que o Belas Artes fechasse as portas em 17/03/2011.

André Sturm chegou a visitar imóveis no centro da cidade para alugar e abrir um novo cine Belas Artes, mas desistiu, acreditando que o processo de tombamento pudesse reverter a situação, mesmo após o fechamento.

Depoimento do cineasta Carlos Reichenbach (1945-2012): “Cada cinema de rua que fecha é o mesmo que uma biblioteca desativada ou uma praça pública depredada. Seja em São Paulo, ou pior ainda no interior, equivale a necrose da artéria da vida social da aldeia. Não vejo paliativos para ‘salvar’ patrimônios culturais enfermos e/ou ameaçados; a solução será sempre extrema. Tombamento já!”.

17/03/2011
AS ÚLTIMAS SESSÕES

O último dia de funcionamento do Belas Artes teve uma programação especial com clássicos do cinema, batizada de “A Última Sessão do Cinema”: “La Dolce Vita” (Federico Fellini, 1960), “No Tempo do Onça” (Irving Brecher, 1940), “O Leopardo” (Luchino Visconti, 1963), “O Joelho de Claire” (Eric Rohmer, 1970), “O Águia” (Clarence Brown, 1925) e “Queimada!” (Gillo Pontecorvo, 1969). As sessões estiveram lotadas e muitos frequentadores tiraram fotos para guardar de recordação.

Link: “Espírito do cinema sobreviveu à última sessão”, 
por Luiz Carlos Merten

No dia seguinte, o cinema começou a ser desmontado. Equipamentos das salas de projeção foram doados à Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA) e as poltronas de veludo, vendidas. O prédio vazio e fechado por meses foi alvo de pichadores.

















O processo de tombamento do prédio do Belas Artes foi negado pelo Conpresp (órgão municipal) em 27/09/2011 e, também, pelo Condephaat (órgão estadual) em 28/11/2011, permitindo que o dono alugasse o imóvel. O prédio teve a fachada e seu interior modificados durante décadas, o que dificultava as chances do chamado tombamento material, muito menos o imaterial, que seria a atividade de cinema do Belas Artes, também de difícil regulamentação.

Em 19/12/2011, a Justiça exigiu que os processos fossem revistos, acolhendo um pedido do Ministério Público Estadual, que fora acionado pelos defensores do cinema. Na decisão, o juiz Jayme Martins de Oliveira Neto e o promotor Washington Luís, da 13ª Vara da Fazenda Pública, afirmaram haver indícios de que os órgãos municipal e estadual não observaram 'procedimentos necessários e legais ao exame da qualidade cultural do imóvel'. Um novo estudo técnico foi iniciado e, mais uma vez, o proprietário foi impedido de alugar o imóvel, além disso, a liminar expressava que qualquer alteração e descaracterização do prédio, implicariam em multa de R$ 100 mil por dia ao dono.

O vereador Eliseu Gabriel criou a CPI Cine Belas Artes, aprovada e instalada na Câmara Municipal de São Paulo, em 11/04/2012. A comissão formada por sete vereadores, tendo como relator, o vereador Floriano Pesaro, passou a discutir e apurar a regularidade dos processos de tombamento e a função social do prédio do cine Belas Artes.

Uma grande conquista foi anunciada em 15/10/2012: a fachada do cinema e sua entrada (mais o recuo interior de 4 metros a partir da fachada) são tombadas pelo Condephaat. Um grande passo para o possível retorno do cinema, já que a medida dificultou que o dono alugasse o imóvel para outros fins. O conselho determinou ainda, que a minuta de tombamento deveria contemplar 'elementos na calçada e fachada que remontem à memória do cinema, a fim de garantir o registro permanente da memória', divulgou o Condephaat.

O FESTEJADO RETORNO

A tão esperada volta do cine Belas Artes foi finalmente anunciada, na tarde de 28/01/2014. Os atores Alessandra Negrini e Marcelo Médici abriram a cerimônia realizada na Praça da Artes, centro de São Paulo, onde foi assinado o acordo entre a Prefeitura de São Paulo, os patrocinadores Caixa Econômica Federal e Grupo Caixa Seguros, o exibidor e programador André Sturm e o proprietário do imóvel Flávio Maluf. O evento contou com as presenças de Fernando Haddad (então Prefeito de São Paulo), Juca Ferreira (então Secretário Municipal da Cultura), Marcelo Araújo (então Secretário Estadual da Cultura), entre outros.

Integrantes do Movimento Cine Belas Artes, criado após o fechamento do espaço, estiveram presentes na cerimônia para comemorar o projeto de reabertura do cinema.



































O cinema, passou a se chamar oficialmente Cine CAIXA Belas Artes e a Prefeitura de São Paulo passou a contribuir com programas culturais associados ao Belas Artes, como o “Escola Vai ao Cinema”, destinado aos estudantes de escolas públicas e privadas, com sessões matinais especiais, além de programas que estimulam e ampliam o acesso ao cinema. 

Vamos modernizar e colocar novos equipamentos, mas não mudaremos a programação. O Belas Artes terá a mesma cara com a qual as pessoas estão acostumadas e gostam, disse o proprietário do cinema, André Sturm.















O cinema foi todo reformado com projeto do arquiteto Roberto Loeb. Suas instalações modernizadas com a acessibilidade para portadores de necessidades especiais melhorada.

O Belas Artes passou a promover meia-entrada às segundas-feiras para trabalhadores e, na programação de filmes, privilegiar o cinema nacional e, também, o cinema paulista, exibindo filmes produzidos com os incentivos da Spcine. Além disso, o tradicional "Noitão" retornou com muito sucesso! Maratona de filmes realizada durante a madrugada, sempre com uma temática diferente.

O BELAS ARTES, NOVAMENTE, EM BUSCA DE UM NOVO PATROCINADOR

O contrato de patrocínio com a Caixa Econômica Federal venceu em 31/12/2018 e acabou não sendo renovado. A partir de 28/02/2019, o cinema voltou a se chamar Cine Belas Artes.

Em 17/03/2019, cinéfilos e produtores da área do cinema compareceram com balões de coração para demonstrar o amor ao 'Belas'. Movimento popular que ajudou na procura de soluções para manter as portas do Belas Artes abertas. Defende sua importância, não apenas como um patrimônio afetivo, mas como um dos mais importantes pontos de encontro artístico e intelectual da cidade de São Paulo. O evento contou com o apoio e organização do grupo de cinéfilos chamado "Vamos ao Cinema Juntos?", que se reúnem, semanalmente, para ir ao cinema, discutir filmes, conversar e fazer novas amizades.



NOVO PATROCINADOR

Em 02/05/2019, André Sturm, junto de sua sócia, a cineasta e empreendedora cultural Paula Trabulsi, anunciou o novo patrocinador do Belas Artes, a Cerveja Petraatravés de um contrato de 5 anos. 
O cinema passou a se chamar PETRA BELAS ARTES.

Dedico este texto às duas pessoas mais importantes da história deste 'templo do cinema', o criador da identidade cultural do Belas Artes, Dante Ancona Lopez e a aquele que frequentou o cinema na infância e que é um verdadeiro herói na preservação deste patrimônio cultural da cidade, André Sturm.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

Site Novo Milênio, de Santos - SP
www.novomilenio.inf.br/santos

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.