20 de mai de 2015

O Odeon, no Rio de Janeiro, reabre renovado e cheio de atrações

Por Gustavo Leitão, para o portal Filme B.

Nesta quarta-feira, dia 20, o histórico cinema Odeon, na Cinelândia, ressurge novinho em folha. Depois de investimentos de R$ 1,5 milhão, o espaço inaugurado em 03/04/1926 volta ao circuito carioca com nova tela, sistema de refrigeração renovado e equipamentos digitais de ponta. Com a reforma, entra em marcha também uma nova proposta para a programação, que vai apostar em múltiplas mostras e eventos. “Vai ser uma grade totalmente fragmentada, como o lugar pede”, adiantou ao Filme B o recém-anunciado diretor de programação, Sérgio Sá Leitão.



A volta do Odeon põe fim a um período de incerteza que marcou os últimos anos do cinema. Derradeira “catedral” do período áureo da Cinelândia, um pólo de lendários espaços de exibição como o Pathé, o Rex e o Vitória, o lugar passou a ser gerido em 2000 pelo Grupo Estação, que mantinha uma programação regular, mas nem sempre com ocupação expressiva dos 550 assentos, além de sediar ali as sessões de gala do Festival do Rio. Depois de uma longa crise financeira e o acúmulo de dívidas (hoje sanadas com o patrocínio da NET), o Estação acabou devolvendo o espaço às mãos do proprietário, o Grupo Severiano Ribeiro, em junho.

O Grupo Severiano Ribeiro aproveitou a proximidade dos festejos de seu centenário, em 2017, para recuperar o Odeon e modernizar suas instalações, que sofriam com a falta de manutenção. Foram quatro meses de reformas, que incluíram a revisão dos sistemas elétrico e hidráulico e a instalação de dois projetores digitais 2K e sistema de som 7.1. Um novo projeto de iluminação criado pelo designer Jair de Souza e inspirado na belle epóque completou a decoração. Para fechar o clima retrô, foram convocados lanterninhas uniformizados.

Inauguração será com "O Vendedor de Passados"

A sessão inaugural para convidados será com "O Vendedor de Passados", de Lula Buarque de Hollanda, com a presença do protagonista Lázaro Ramos. O público poderá frequentar o agora rebatizado Centro Cultural Severiano Ribeiro a partir do dia seguinte (21/05/2015), com a Mostra Primeira Mão, de pré-estreias.
A programação de filmes inéditos dura até junho, com títulos como "O Mistério da Felicidade", novo longa de Daniel Burman ("O Abraço Partido"), "Segunda Chance", de Susanne Bier, e "O Amuleto", dirigido por Jeferson De. O primeiro pacote de filmes se encerra com uma sessão fechada para convidados do documentário "Cauby - Começaria Tudo Outra Vez" e uma extensa mostra de cinema negro do Brasil, África e Caribe. “Queremos buscar o exclusivo, o diferente”, explica Sérgio, que leva na bagagem a experiência como presidente da RioFilme e secretário de Cultura do município.


Cinema volta a integrar Festival do Rio
Entre as novidades de programação já confirmadas, está um cineclube organizado pela PUC, com filmes de estudantes; uma mostra de documentários musicais e outra dedicada ao cineasta Francis Ford Coppola; as sessões LGBT, que já vinham ocupando esporadicamente o cinema; e uma seleção estilo “repescagem”, com produções que tiveram carreira recente (e às vezes curta) no circuito. O Odeon também volta a integrar os circuitos do Festival Varilux de Cinema Francês, do Anima Mundi, e – rufem os tambores – do Festival do Rio.
A diversidade de títulos e de públicos-alvo foi uma estratégia para contornar os desafios de administrar um cinema de rua em tempos de multiplex de shopping e encolhimento dos circuitos de arte. Além de ser um espaço de exibição à moda antiga, com grande número de cadeiras e mezanino (que agora será usado só nas sessões com alcance mais amplo), o Odeon fica em pleno centro do Rio, que tem um perfil de público às vezes enigmático.
Espaço terá preço promocional aos fins de semana
Uma das conclusões a que os organizadores chegaram é que, diferentemente do circuito tradicional, o fim de semana ali, sem o movimento normal de trabalhadores da região, precisa ter preços mais baixos para justificar o deslocamento. “Teremos ingressos a R$ 24 a versão inteira e R$ 12 a meia de segunda a sexta. Aos sábados e domingos, os preços caem para R$ 18 e R$ 9”, diz o programador. Sérgio Sá Leitão vai experimentar uma linha de títulos infantis aos fins de semana, a começar por uma seleção de produções da Blue Sky, estúdio de animação do brasileiro Carlos Saldanha, como forma de atrair as famílias que circulam pelos centros culturais da área.
Outra nova aposta para arrebanhar um público novo é o conteúdo alternativo, transmitido por satélite. O espaço foi preparado para receber sinal de eventos esportivos, espetáculos de ópera e balé e outros materiais. Uma parceria com a distribuidora especializada Cinelive vai garantir atrações como a final da UEFA Champions League, que será exibida ao vivo no dia 6 de junho. 
No segundo semestre, uma filial da cafeteria Starbucks passa a funcionar no espaço, no lugar do Ateliê Culinário que marcou a gestão do Estação.
Uma breve história do Odeon em fotos, vídeo e imagens:


8 de abr de 2015

Os cinemas do Palacete Santa Helena

Inaugurado em 1925, o Palacete Santa Helena era considerado um dos maiores edifícios de São Paulo, tanto em altura como em área construída. Situava-se na Praça da Sé, no coração da cidade. Destinado inicialmente a atividades comerciais e de serviços, acabou incorporando, no decorrer de sua execução, um luxuoso cine-teatro (e, depois, mais um pequeno cinema no subsolo) - resposta à crescente agitação cultural da cidade naquele início de século.



A partir dos anos de 1930, o edifício abrigaria um grupo de pintores de origem operária que ganhou relevo na arte brasileira - conhecido como Grupo Santa Helena -, entre os quais destacavam Alfredo Volpi, Francisco Rebolo, Mário Zanini, Nélson Nobrega e José Pancetti.

Seus elaborados elementos arquitetônicos exprimem um momento importante de nossa construção civil, com a colaboração de competentes profissionais, engenheiros, arquitetos, artesãos e artistas, muitos deles italianos, em um processo de trabalho ao mesmo tempo moderno e artesanal. Utilizou pioneiramente um novo material, na época ainda importado e muito caro - o concreto armado. O edifício inovou a arquitetura do centro de São Paulo e foi negligentemente demolido em 1971, para dar lugar à Estação Sé do Metrô.


O Cine-teatro Santa Helena (inaugurado em 12/11/1925) ocupava os três primeiros pavimentos do bloco central do Palacete, oferecendo a seus espectadores plateia com frisas no térreo, uma área com camarotes no mezanino e uma galeria no piso superior.

Acesso ao subsolo
Na planta original era previsto um salão de festas no subsolo (sob a plateia); nessa área foi instalado, posteriormente, um outro cinema, o Moinho do Jéca (inaugurado em 22/12/1933), depois Cinemundi (em 05/07/1940).



O cine-teatro era dotado de uma plateia com 27 metros de vão, coberto por uma estrutura semi-elipsoidal, de componentes metálicos. A capacidade da plateia era de 680 lugares; as frisas para 5 assentos eram, em projeto, 24; e os camarotes para 5 assentos eram 30. As acomodações eram, no total, de 950 assentos, sem contar os lugares da galeria superior. Notícias da época dão conta de que a lotação correspondia à ocupação de 1500 lugares: a revista L'Illustrazione Italiana comenta a inauguração do prédio, cujos construtores e arquitetos eram italianos, trazendo várias informações, entre elas, a capacidade do teatro.



O cine-teatro, que não fazia parte do primeiro projeto enviado à Prefeitura, foi incorporado ao projeto inicial logo em seus primeiros modificativos. Esse fato, juntamente com as demais modificações e ampliações por que passou o projeto do Palacete, demonstra a volatilidade dos interesses imobiliários e a crescente agitação cultural de São Paulo nas décadas iniciais do século XX. Nesta época, os paulistanos tinham a curiosidade despertada por um invento recente: o cinematógrafo. O sucesso inicial do cinema foi tanto que já em 1907 se abriu a primeira sala montada especificamente para a exibição regular de filmes - o Bijou Theatre. No primeiro pós-guerra começam a surgir salas mais luxuosas, como o Cinema Central, no Anhangabaú, o exótico Santa Cecília e o próprio Santa Helena, que exibia as maiores produções americanas e realizava vesperais exigindo que os cavalheiros usassem "smoking".


O arquiteto que originalmente idealizou o projeto foi Giacomo Corberi, também responsável pelas primeiras alterações: redesenho da fachada e inserção do cine-teatro. A inclusão do cine-teatro representava um novo patamar para o empreendimento, que ganhava prestígio e tornava-se uma aposta na movimentação cultural de São Paulo, coincidindo exatamente com a Semana de Arte Moderna de 1922. Não apenas o edifício tornava-se multifuncional, de forma pioneira, mas o novo elemento da paisagem urbana destacava-se pelo luxo da decoração prevista e pela modernidade das instalações, que incluía maquinaria de projeção de filmes, ventilação mecânica e todos os equipamentos de bastidor de um grande teatro.

Em relação à decoração interna do teatro e à pintura de seu teto, houve a identificação do responsável, o artista, também italiano, Adolfo Fonzari. Fotos da época revelam o requinte dos detalhes, o apuro da execução e a qualidade técnica das pinturas e elementos utilizados.

Na porta central do cine-teatro foram postas as figuras que representam a Glória e a Fama, anunciando por meio de trompetas a entrada triunfal dos visitantes. O cine-teatro apresentava produções hollywoodianas, além de espetáculos cênicos e musicais.


Fonte de pesquisa :
Informações do Banco de Dados do blog Salas de Cinema de São Paulo e do livro "Palacete Santa Helena: um pioneiro da modernidade em São Paulo", de Candido Malta Campos e José Geraldo Simões Júnior (organizadores) - Editora Senac São Paulo - Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - 2006

5 de abr de 2015

Impressões - O novo CineSesc

Por Alexandre Rodrigues (Cineasta e diretor de cena na Camaleon Films, que me acompanhou e ajudou na cobertura do evento de reabertura do CineSesc)

"Estou emocionado!". Essa foi a primeira coisa que ouvi de um amigo ao entrar no novo CineSesc.



Somente cinemas de rua podem nos trazer lembranças tão vivas e ricas. A mulher da poltrona, atrás da minha, discutia com as amigas quais foram os primeiros filmes que viram em um cinema. A mulher que propôs a discussão assistiu "A Lagoa Azul". Depois de ouvir o filme dela me peguei curtindo a nova sala.

Tive um grande privilégio, pois entrei com um amigo antes da sessão começar e pude ser um dos primeiros a pisar no novo carpete, sentir o cheiro do couro novo das poltronas, subir ao palco e tocar na tela; eu senti em minhas mãos um pouco das histórias que ali foram contadas.




Andei como uma criança que quer descobrir um novo mundo, mas escondendo as emoções para ninguém julgar, admirando cada detalhe do velho cinema contrastando com o novo.

Sentei nas espaçosas poltronas que não devem em espaço as poltronas da primeira classe da Emirates, tenho 1,82 metros e mesmo com as pernas esticadas ainda era possível passar alguém entre as fileiras sem esbarrar em mim.





Visitei a cabine de projeção e o coração bateu forte, são poucas as salas que podem exibir praticamente todos os formatos. É impressionante ver o velho e o novo, lado a lado.





A projeção e o som me transportaram para dentro do filme. As lágrimas que brotaram em meus olhos não eram por causa de uma cena em especial, mas pelo fato de eu, simplesmente, estar naquele cinema.

Era uma noite especial, festiva, pois era a reabertura do cinema (depois de muitas melhorias) e da abertura do tradicional Festival Sesc de Melhores Filmes. O Alceu Valença exibiu seu filme de estreia como diretor e disse que a sala o fazia lembrar do "seu" cinema Rex, em São Bento do Una (PE).

Cine Rex, em São Bento do Una (PE)


O CineSesc, com seus grandes festivais e mostras, as descobertas cinematográficas, os debates e palestras, foi essencial na minha formação como diretor. O que já era muito bom, ficou ainda melhor.

Repetindo o que disse Eugenio Puppo, ao receber o prêmio de melhor documentário: "Vida longa ao CineSesc!".

ACESSE O BANCO DE DADOS


BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - AHSP.

Site Cinemateca Brasileira - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929 (de José Inácio de Melo Souza).

Periódico Acrópole (1938 a 1971).

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.