Cine São Paulo, documentário sobre o centenário cinema de rua de Dois Córregos (SP)

Por Antonio Ricardo Soriano

O documentário teve sua estreia no
É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários 2017, com exibições em São Paulo e Rio de Janeiro.

Estive presente na última exibição em São Paulo, em 30/04/2017, com a presença de Amir Labaki (fundador e diretor do festival), Ricardo Martensen e Felipe Tomazelli (diretores do documentário) e do Sr. Francisco Teles, proprietário do Cine São Paulo e personagem central do filme.

A sessão lotou a Sala Paulo Emílio Salles Gomes, no Centro Cultural São Paulo e o documentário foi muito bem recebido e aplaudido pelo público presente.


Cine São Paulo ganha força ao captar o essencial
Por Cássio Starling Carlos
Crítico, curador, pesquisador e professor de história do audiovisual.

Sonhos, paixões, perdas, confrontos e, ocasionalmente, conquistas fazem parte da vida de todo mundo. Também são ingredientes comuns aos filmes. Não por acaso, o cinema se tornou a arte mais popular já inventada.

"Cine São Paulo" usa esse material para contar a história do proprietário de uma sala de cinema centenária em Dois Córregos, no interior paulista.

'Seu Chico', como os diretores Ricardo Martensen e Felipe Tomazelli apresenta sem muita reverência o protagonista, luta para reabrir a sala, construída em 1910, comprada pelo pai dele em 1940 e, mais tarde, mantida por ele com a ajuda da esposa e dos filhos.

A justiça determinou o fechamento do espaço, que não mais cumpre as condições mínimas de segurança, e o dono junta suas economias para levar a cabo uma reforma cara.

Aos 72 anos, 'Seu Chico' precisa ainda convencer a esposa de que o investimento não é uma aventura de velho teimoso, um apego ao passado que se foi.

Os projetores ficaram ultrapassados, a estrutura elétrica está obsoleta, e a sala precisa de diversos itens de segurança. Pior, o público tem como ver filmes até em telas de celular.

'Seu Chico' revela, nas primeiras cenas, um sonho recorrente. Diz que entra no cinema, encontra tudo no lugar, mas os projetores não estão mais lá. "Tenho de marcar uma reunião com Freud", pensa em voz alta.

Como dono da sala, seu papel principal era o de projecionista, um trabalho estafante e nada fascinante para alguém que não despista a paixão maior pelo cinema.

As anotações num livro de registros sobrepõem datas importantes, como a do nascimento de 'Chico' e o início de seu namoro, aos títulos dos filmes que estavam sendo exibidos naqueles dias. As memórias pessoais evocam os momentos de apogeu e de decadência da sala. Um precioso registro em vídeo revela como 'Chico' se vê na imagem.

Nesse relato que confunde vida e cinema, "Cine São Paulo" ganha força ao captar o essencial, o combustível que move seu personagem, evitando, desse modo, diluir-se em banalidades ou só focalizar o edificante.

Sua qualidade não resulta apenas da história pronta para seduzir cinéfilos de todas as idades, mas da combinação de drama, suspense, uma boa cena de conflito e fartas doses de empatia. Sem esquecer que pouca gente resiste a um final feliz.

'Cine São Paulo' vence prêmio de melhor documentário no festival de Biarritz, na França.
Clique aqui para ler o texto de Daniella Franco, publicado em 01/10/2017.
Clique aqui para ver o vídeo da premiação.

Fotos da exibição realizada em 30/04/2017, às 20hs, na Sala Paulo Emílio Salles Gomes, do Centro Cultural São Paulo :

Apresentação do festival por seu fundador, Amir Labaki

Sr. Francisco Teles (proprietário do Cine São Paulo) e sua esposa

Amir Labaki e os diretores Felipe Tomazelli e Ricardo Martensen

Amir Labaki, Sr. Francisco Teles e esposa, e os diretores do documentário

Amir Labaki, Sr. Francisco Teles e esposa, e os diretores do documentário

O nascimento de um cinéfilo: uma autobiografia

Por Antonio Ricardo Soriano

Os filmes de Jerry Lewis, na Sessão da Tarde, as reprises de A Fantástica Fábrica de Chocolate ou, até mesmo, os antigos seriados de TV, como Viagem ao Fundo do Mar, me despertaram um grande interesse pelos filmes logo na infância. Aguardava com ansiedade a chegada das férias escolares para poder assistir aos muitos filmes que passavam no Festival de Férias nas tardes da TV. Isso nos anos de 1970 quando o VHS não havia chegado ao Brasil.

Quem me levou pela primeira vez ao cinema foi meu pai. Assistimos juntos Se Meu Fusca Falasse e filmes de Os Trapalhões em cinemas próximos de casa, como o cine Nacional (no bairro da Lapa) e os cines Haway e Flórida (no bairro de Perdizes).

Mas foi em 1980, quando eu tinha apenas 10 anos de idade, que a paixão pelo cinema se manifestou. Meu tio Gilberto me levou para assistir ao filme Xanadu, com Gene Kelly e Olivia Newton-John, no melhor cinema de São Paulo: o Comodoro Cinerama. Foi ali que tive pela primeira vez, a experiência do cinema espetáculo. Um musical maravilhoso visto numa tela gigantesca e com som de extrema qualidade, que só o cine Comodoro podia nos proporcionar. O filme me despertou a curiosidade de pesquisar sobre cinema, na época apenas em jornais e revistas.

Lobby card do filme Xanadu (1980)


Em seguida tive novas e agradáveis experiências no cine Comodoro, como as exibições de E. T. - O Extra-Terrestre, Tron – Uma Odisseia Eletrônica, Jogos de Guerra, Indiana Jones e o Templo da Perdição e De Volta para o Futuro. Nesse período, passamos a ter nas bancas de jornal, uma revista especializada em cinema, a Cinemin, que vinha do Rio de Janeiro. Uma excelente revista com rico conteúdo sobre as novidades do cinema e sua história.  

Interessante dizer, que talvez, aquela minha recente paixão pelo cinema acabou influenciando e motivando o meu tio Gilberto. Ele também se interessou mais por cinema e, a partir daí, passou a comprar livros, revistas e discos com a trilha sonora de filmes.

Meu tio Gilberto (in memoriam)


Passei a dividir a paixão pelo cinema com a música. Em 1981, uma grande banda de rock britânica veio pela primeira vez ao Brasil: era Freddie Mercury e sua banda Queen. O show foi transmitido ao vivo pela Bandeirantes FM e eu gravei tudo em duas fitas cassetes. O Rock & Roll passava a ser o meu ritmo musical preferido.

Em 1983, senti pela primeira vez a “presença da Força” assistindo ao filme O Retorno de Jedi no cine Ouro (no Largo do Paissandú), o sexto episódio da saga Star Wars. Precisei aguardar a reprise de Guerras nas Estrelas e O Império Contra Ataca pela TV aberta.

A curiosidade e as pesquisas sobre cinema aumentaram. Em 1985, tive a ideia de fazer um jornal sobre o tema, talvez, influenciado pelo farto material que meu tio havia adquirido. A ideia surgiu em um sonho e, ao acordar, fiz os primeiros esboços.  Algo bem simples, com colagens de notícias de jornais.

Apresentei o jornal aos meus primos Roberto e Marcos Gabler, que logo se interessaram. O Marcos já trabalhava na área de publicidade e se ofereceu para fazer o design gráfico do jornal. Estimulados, eu e o Roberto combinamos de pesquisar e redigir textos para o jornal que teve o nome escolhido no mesmo dia: Cine Fanzine.

Os números 1 e 2 do Cine Fanzine


Como ainda não existia a internet, essas pequenas publicações, chamadas de fanzine (fan + magazine) eram bem cultuadas.

O Cine Fanzine acabou ficando bem atraente e com bom conteúdo textual. O primeiro número foi lançado no início de 1986 e teve uma tiragem bem pequena que foi distribuída no Cineclube Oscarito. Em seguida, alguns exemplares foram enviados através de cartas aos associados do The Pictures Club, um fã-clube de cinema também criado por nós. Um exemplar do fanzine acabou chegando à redação de jornalismo da TV Cultura, que nos chamou para duas entrevistas: uma ao vivo, no programa especializado em cinema Imagem & Ação e outra gravada, no programa de variedades Panorama.

Entrevista ao vivo no programa Imagem & Ação da TV Cultura


O lançamento do fanzine culminou com a chegada do videocassete em minha casa. Que alegria! Começavam ali as maratonas de filmes durante os finais de semana. Cheguei a ficar sócio da recém-lançada 2001 Vídeo Locadora (na Av. Paulista) para locar clássicos do cinema. Os lançamentos ficavam por conta das locadoras do bairro.

Lançamos o nº 2 do Cine Fanzine em setembro de 1986 e já preparávamos o terceiro quando tivemos que cancelar o projeto por motivos profissionais. Um ciclo criativo de minha adolescência terminava cedendo lugar para a fase adulta.

Os anos de 1980 trouxeram experiências inesquecíveis para determinar a minha personalidade. Período em que tracei rotas para a minha vida. Foi quando conheci minha esposa - paixão relâmpago!

Infelizmente, em seguida, perdi minha querida mãe. Sem dúvida, os anos de 1980 sedimentaram minha personalidade com experiências boas e ruins, que me prepararam para vida (que não é nada fácil!).

A partir dos anos de 1990, acompanhei com tristeza o fechamento de quase todos os cinemas de rua que frequentei e outros que acabaram mudando a programação para filmes pornográficos. A Cinemark trouxe suas micros-salas de cinema para os shoppings e, logicamente, não me encantaram. Passei um longo período longe dos cinemas, mas não das vídeo-locadoras. Acompanhei o cinema através dos lançamentos em VHS e, depois, dos DVD’s.

Os anos se passaram, casei e tive uma linda e encantadora filha. Foram anos muito felizes e também de muito trabalho.

Em 2003, tive a felicidade de começar a trabalhar na biblioteca do Colégio Dante Alighieri. Passei a ter acesso diário a muitas informações sobre cinema, música e artes em geral. Foi uma inspiração enorme para começar a concretizar mais uma grande ideia.

Sentia saudades daqueles incríveis momentos no cine Comodoro, lá nos anos de 1980, e a ideia de homenagear esse cinema passou a ser uma constante. Pesquisava na internet e não encontrava quase nada sobre o cinema.  Apenas dois textos incríveis: um do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho e outro do carioca e professor João Luiz Vieira.

O cine Comodoro Cinerama


A ideia inicial era pesquisar e guardar tudo que eu pudesse encontrar sobre o cine Comodoro para mais tarde publicar um livro.  Em 2007, minha amiga bibliotecária e escritora Roseli Pedroso, mostrou-me a ferramenta Blogger para a criação de blogs. Ela estava criando o seu blog sobre o tema Biblioteconomia, o Bibliotequices & Afins.

Era o que faltava para se homenagear o cine Comodoro! Rapidamente comecei a criar o meu primeiro blog.

Minha esposa iniciou uma Pós-graduação no Mackenzie e passei a levá-la. No aguardo do término das aulas, aproveitava o tempo livre para fazer pesquisas na biblioteca de arquitetura da universidade. Foi quando consegui um volume enorme de fotos e informações sobre os antigos cinemas de São Paulo. Já apreciava o tema há muito tempo, desde 1990, quando Inimá Simões lançou o seu livro Salas de Cinema em São Paulo.

Fiquei fascinado com a qualidade do material adquirido e a ideia de homenagear o cine Comodoro se ampliou.

O blog, agora, passava a contar a história de todos os antigos e atuais cinemas de São Paulo. O blog Salas de Cinema de São Paulo acabava de ser criado!

O início foi muito difícil. Tinha muito material e pouco tempo para publicar. Tive que fazer uma grande mudança no blog: dividi-lo em dois - ou melhor, criar mais um: o blog Salas de Cinema de São Paulo - Banco de Dados. Não dava para misturar as informações de cada cinema com textos (crônicas, memórias, biografias, etc.). Demorou um ano para que o layout dos dois blogs fosse concluído.

Tenho muito orgulho de ter criado os blogs Salas de Cinema de São Paulo! As páginas já possuem uma quantidade enorme de informações sobre a história dos cinemas de São Paulo e são cultuadas por pesquisadores, universitários e amantes da sétima arte.

Recentemente, no final de 2013, voltei a frequentar os cinemas, dessa vez como terapia. Andava triste devido a alguns problemas particulares e precisava me distrair um pouco. Passei a frequentar os cinemas da região da Av. Paulista semanalmente nos dias do rodízio do meu carro e, adorei a ideia!

A experiência de assistir os filmes no cinema é infinitamente superior a assisti-los em casa.

Para melhorar ainda mais a experiência, dois cinemas que frequento, o CineArte (no Conjunto Nacional) e o CineSesc (na Rua Augusta) são cinemas como antigamente: originais, com plateia única, tela gigante e boa programação de filmes. Os problemas terminaram, graças a Deus, porém, a prática de ir ao cinema se manteve e me faz muito bem. Fica a dica para quem ficar ‘preso’ devido ao rodízio municipal de veículos: ocupe seu tempo numa sala de cinema.

Deixo aqui, nesse texto, um pouco de minha trajetória com o mundo do cinema. Um mundo de histórias reais e fictícias que nos emocionam. A chamada Sétima Arte que, para mim, é a soma de todas as artes!

O cine Comodoro Cinerama

Por Antonio Ricardo Soriano
Colaboração: Alexandre Cintra CanteruccioHugo CanteruccioKleber Mendonça FilhoJoão Carlos Reis Pinto, Marcello Branco, Atilio Santarelli João Luiz Vieira.
A inauguração
Frente do cinema no dia da festa de sua inauguração (Folha da Manhã, 15/08/59)
O cine Comodoro localizava-se na Avenida São João, 1462 (no centro da capital). A festa de inauguração do cinema foi realizada, às 14 horas, do dia 14 de Agosto de 1959 e foi divulgada no jornal "Folha da Manhã", de 15/08/1959. Teve a presença da Banda de Música da Força Pública, com uniforme especial. Uma viatura do Corpo de Bombeiros, na sessão noturna, levou refletores e segurança. Cordões de isolamento demarcaram, em frente ao cinema, um corredor para os carros que traziam convidados especiais e praças das Forças Armadas perfilavam-se nos dois lados da porta de entrada. Havia-se anunciado a presença do Presidente da República, mas ele não compareceu.

Anúncio de inauguração do cine Comodoro (Folha da Manhã, 15/08/1959)
Artigo do jornal "Folha da Manhã" de 19/08/1959:
"Isto é Cinerama"
Com duas sessões especiais, uma dedicada a critica falada e escrita de São Paulo e Rio, outra, de gala, na noite de sexta-feira última, inaugurou-se nesta capital, o Cinerama, processo óptico e eletrônico a constituir-se em novo espetáculo cinematográfico, surgido logo após a última guerra e há anos funcionando, com grande êxito, nas principais cidades de muitos países do mundo. Na capital paulista, construiu-se uma sala funcional, destinada a comportar a complexa aparelhagem do cinerama, os seus três enormes projetores, dispostos em meio arco, a convergir, simultaneamente, o tríplice feixe luminoso na ampla tela convexa e metálica do palco, seus amplificadores e alto-falantes colocados por toda a sala, de forma a proporcionar a audição de planos de som, em alta fidelidade, o chamado "som estereofônico" ou "som em relevo". A sala do Cinerama, o cine Comodoro, está instalada na av. São João e possui todos os últimos aperfeiçoamentos do processo e de seus sistemas de som, tudo disposto em arquitetura sóbria e decoração simplíssima. Embora não muito grande, a sala do Comodoro é confortável, de ambiente agradável.
A sessão inaugural iniciou-se com a apresentação de uma síntese da história do Cinema, contada pela imagem comum, em branco e preto, e pela voz de Lowell Thomas, antigo colaborador de Fred Waller, o inventor do Cinerama, falecido há pouco tempo. Essa apresentação, por sinal, foi o lado lamentável do espetáculo, eis que nessa falsa "história do cinema" se menciona o nome e a ação de todos os inventores norte-americanos e ingleses que colaboraram na descoberta e no aperfeiçoamento do cinema, sendo, entretanto, esquecida a contribuição francesa, com a omissão dos nomes e dos inventos de seus pesquisadores, Joseph Plateau, o "fuzil fotográfico" de Marey, antecedendo o seu aparelho "cronofotográfico", Georges Demeny, o "teatro óptico" de Reynaud, até chegar-se ao "cinématographe" dos irmãos Lumière, os verdadeiros inventores da câmara cinematográfica, com a sua estrutura mecânica e física até hoje a funcionar na criação do espetáculo cinematográfico. Isso tudo foi esquecido nessa "história do cinema" parcial, que torna antipática e suspeita a apresentação do Cinerama, o que é pena, realmente, pois as conquistas do espírito humano, depois de postas ao alcance do domínio público, não pertencem a ninguém, nem conhecem fronteiras, são apenas peças do patrimônio de toda a humanidade.
Quanto ao espetáculo proporcionado pelo Cinerama, não há dúvida, é uma curiosa e fascinante apresentação audiovisual, mas a prescindir da linguagem e da estética do cinema. Não proporciona ainda, a técnica do Cinerama, uma visão plenamente realizada dos aspectos do mundo, dadas certas imperfeições na junção das imagens e no sincronismo dos três projetores, coisa, aliás, a não se constituir em defeito intolerável e que, possivelmente, possa a vir desaparecer com aperfeiçoamentos futuros. Algumas seqüências de "Isto é Cinerama", contudo, se apresentam revestidas de inegável beleza e, por vezes, de impressionante realismo. Assim é na sequência da montanha russa, na do passeio em gôndola pelos canais de Veneza, ou em barco nos lagos da Flórida, isto é, quando há movimento intenso na estrutura da imagem. Já nas cenas estáticas - a opera no "Scala" de Milão, o coro dos Meninos Cantores de Viena, ou numa catedral norte-americana - a impressão do relevo é menos real e a junção defeituosa das três imagens se salienta um pouco mais. De qualquer forma, aí está um espetáculo curioso, que só a audácia de um homem de muita visão, o Sr. Paulo Sá Pinto, traria para São Paulo, no lastro de outras realizações suas, como as das salas de alto luxo, por exemplo, Rivoli e Olido, recentemente inauguradas. - B. J. Duarte
A “Empresa Cinematográfica Comodoro”, trouxe o sistema *Cinerama para o Brasil e, através de um contrato, teve dois anos de exclusividade para exibi-lo. O cinema foi construído especialmente para receber o Cinerama e de baixo de sua marquise havia o letreiro “sistema que revolucionou o mundo das diversões”.
Detalhe para as três cabines de projeção do sistema Cinerama original
Interior do cinema na época de sua inauguração
O fundador: Paulo Sá Pinto (1912-1991)
Paulo Barreto de Sá Pinto foi um dos maiores empresários da história da exibição cinematográfica no Brasil (São Paulo e mais seis capitais brasileiras).
Paulo Sá Pinto (Folha da Manhã - 11/07/62)
Mineiro da cidade de Santos Dumont, Paulo Sá Pinto veio ainda criança para o Rio de Janeiro e seu primeiro emprego foi como conferente de alfândega, no Cais do Porto. Depois se transferiu para Porto Alegre, onde teria trabalhado em publicidade e começado a se interessar pela área de exibição. Seria, entretanto, em São Paulo, que fundaria a “Empresa Cinematográfica Paulista”, cujo os primeiros cinemas construídos foram o Ritz (1943) e o Marabá (1945). No final dos anos 40, expandiu o seu “circuito de cinemas” para Porto Alegre e Curitiba, fundando a “Empresa Cinematográfica Sul”.
Foi ele, o primeiro a exibir *Cinemascope no Brasil, lançando “O Manto Sagrado” no cine República (onde instalou uma tela gigantesca), em 22 de fevereiro de 1954, quando comemorava seus 42 anos e São Paulo sediava um Festival Internacional de Cinema, dentro das comemorações de seu 4º centenário.
Ele sempre foi inovador. Ao ver em Nova York um filme em Cinerama, “This Is Cinerama” (1952), decidiu instalar o sistema em uma de suas salas, o Comodoro, fazendo de São Paulo, a única cidade brasileira que realmente assistiu ao Cinerama legítimo, com três projetores trabalhando simultâneamente. Quando inaugurou o cine Olido, em dezembro de 1959, em São Paulo, com ”Tarde Demais para Esquecer”, levou uma orquestra sinfônica para apresentar o clássico tema “An Affair To Remember”.
Pouco tempo antes de falecer, Paulo Sá Pinto, já gravemente doente, ainda comandava suas empresas, que administravam uma rede de mais 60 cinemas espalhados em sete capitais (só em São Paulo, 40 salas), tendo como sócios, os irmãos Magalhães Rodrigues e Francisco José Lucas Neto. Além disso, era sócio de vários outros empreendimentos e da distribuidora Art filmes. Despachava em seu gabinete na Avenida São João, com sua fiel secretária, dona Lourdes Peixoto, que o acompanhou por mais de 30 anos.
Paulo Sá Pinto faleceu em 24 de janeiro de 1991, no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, vítima de insuficiência respiratória, ocasionada por problemas no pulmão.
Exibições especiais
A 1ª Exibição
“Isto é Cinerama” (This Is Cinerama, EUA, 1952) foi o primeiro filme exibido e lotou os 1400 lugares do cinema (incluindo platéia e balcão). João Luiz Vieira descreve esta exibição em seu texto “Não dá para esquecer o impacto que era entrar no cinema”:
“Os espectadores iam enchendo a sala aos poucos e, em seguida, as luzes começavam a diminuir enquanto que as cortinas se abriam o suficiente para mostrar uma imagem quadrada, correspondente ao tamanho dos 35 mm. normal. Na tela, em preto e branco, aparecia um documentário, apresentado por Lowell Thomas, produtor do espetáculo, que fazia um breve histórico cronológico e evolutivo das imagens em movimento, indo até a pré-história e o homem da caverna até, claro, o Cinerama, a 'maior conquista do homem', etc. Mostrava as câmeras, descrevia o processo de filmagem até que finalmente anunciava a novidade aos espectadores: ‘...e agora, senhoras e senhores... vamos ao Cinerama!’ conclamando a platéia e inscrevendo-a diretamente dentro do espetáculo. Aí, já colorida, surgia a imagem do trenzinho subindo uma célebre montanha russa de Coney Island, no Brooklyn, imagem que se formava aos poucos, diante de nossos olhos maravilhados, exatamente sincronizada com as cortinas que, então, se abriam completamente”.

Pôster americano do filme "Isto é Cinerama"
“Quando o trenzinho chegava à parte mais alta da estrutura da montanha russa, a imagem estava completa e a tela curva completamente aberta com os três projetores em ação. Começava a queda vertiginosa do trenzinho ao mesmo tempo em que, por toda a sala, o som estereofônico se abria, num envolvimento com o espetáculo absolutamente inédito até então. Era uma sensação física, os espectadores se agarravam nos braços das poltronas. Você, digamos, estava "dentro do espetáculo" e dele fazia parte, como a publicidade não cansava de enfatizar”.
“Dá para imaginar o impacto provocado por toda essa tecnologia, principalmente aos olhos de um garoto de dez anos de idade, quando tudo sempre parece ainda maior. Todas as sessões tinham prólogo, intervalo e, no final, com as cortinas já fechadas, ainda apresentavam uma “música de saída” que acompanhava os espectadores no esvaziamento da sala. Era um ritual de verdade, incluindo os espectadores, em geral, bem arrumados”.
Outras exibições especiais
Infelizmente, o filme "A Conquista do Oeste" (How the West Was Won - 1962), único filme de longa-metragem rodado no sistema Cinerama original, não foi exibido no Comodoro. Estreiou, no cine Metro, em 08/07/1965 (informação, gentilmente, cedida pelo colaborador João Carlos Reis Pinto), enquanto que no Comodoro era reprisado, novamente, "Cinerama em Busca do Paraíso".
João Luiz Vieira, também, descreve em seu texto, outras exibições especiais no Comodoro: "Foram exibidos e muito reprisados, entre 1959 e 1965, os filmes produzidos no processo Cinerama original":
"Cinerama Holiday" (1955) - Estréia em 25/11/1960
"As Sete Maravilhas do Mundo" (Seven Wonders of the World, 1956) - Estréia em 09/03/1960
"Cinerama em Busca do Paraíso" (Search For Paradise, 1957) - Estréia em 18/05/1961
"Aventuras nos Mares do Sul" (South Seas Adventure, 1958)" - Estréia em 31/10/1961
"Velas ao Vento" (Windjammer, 1958) - Estréia em 23/03/1963
"Pelos títulos, dá bem para imaginar o que eram esse filmes de viagens. Depois, o formato se esgotou, não tinham mais filmes e, em 1966, o cinema foi reformado para exibir, em sua mesma tela gigantesca e curva, películas em 70 mm. (no princípio ainda mantendo o nome de Super-Cinerama), sem emendas, com um único projetor. Foi reinaugurado, em 20/08/1966, com o filme "Uma Batalha no Inferno" (Battle of the Bulge, 1965). Continuei assistindo ali a filmes exibidos ainda com exclusividade, em Super Cinerama, como "Khartoum - A Batalha do Nilo" (Khartoum, 1966), "Nas Trilhas da Aventura" (The Hallelujah Trail, 1965), "Krakatoa - o Inferno de Java (Krakatoa East of Java, 1969)", além de versões ampliadas, de 35 mm. para 70 mm., como "Os Dez Mandamentos" (The Ten Commandments, 1956), por exemplo, entre muitos outros".
Frente do cine Comodoro na estréia do filme "Terremoto"
Em 1974, houve uma exibição que causou muita repercussão. O filme "Terremoto" (Earthquake) foi exibido com um sistema de som diferente, chamado "Sensurround". Tratava-se de um esquema especial de alto-falantes de baixa freqüência que era emprestado pelos distribuidor do filme. O sistema, que pode ser considerado o "avô do sub-woofer", era tão poderoso, que provocou tremores no prédio onde se localizava o cinema e gerou reclamações dos moradores. O sistema só era usado nas cenas em que o terremoto estava acontecendo. "Terremoto" foi exibido exclusivamente no Comodoro e ficou em cartaz por quase 10 meses.
Em 1992, o fã-clube Frota Estelar Brasil, em parceria com a Paramount Pictures do Brasil, "fechou" o Comodoro para a pré-estréia do filme “Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida”. Lá estiveram cerca de mil fãs devidamente uniformizados e fantasiados.
A projeção e a tela
O Comodoro foi construído com o que havia de melhor nos quesitos projeção e tela. A tela media 20 metros de comprimento por 7 de altura, com 146 graus de curvatura, em função do processo de projeções simultâneas do sistema Cinerama. Formada por um conjunto de inúmeras tiras de náilon, a tela ficava atrás de uma enorme cortina vermelha.
Kleber Mendonça Filho descreve a impressão que se tinha ao ver o formato e o tamanho da tela, em seu texto "Comodoro visitado antes do incêndio": "... impossível não babar ao olhar para a cortina vermelha em camadas, fechada. A tela era mesmo tão curva, teria que olhar para trás, por cima dos ombros, para ver as pontas da tela, esquerda e direita. Você sentia-se cercado pela tela de cinema".
A tela do Comodoro e sua enorme cortina (Livro "Salas de Cinema de São Paulo")
Para a exibição dos filmes em Cinerama, o Comodoro era equipado com três projetores americanos de 35 mm. da marca Century (com lanternas Ashcraft Suprex) e mais um projetor de 35 mm. da marca Simplex (modelo E7) só para exibição de jornais e documentários nacionais (naquela época havia uma lei que obrigava os proprietários de cinema a exibi-los).
Ilustração de uma sala de projeção Cinerama
Os três projetores Century (cada um projetava em 1/3 da tela, para dar o efeito do Cinerama), depois de alguns anos, foram substituídos por dois fantásticos aparelhos da marca italiana Cinemecanica (modelo Vitória 10) que eram junto com os da marca Philips, os melhores projetores cinematográficos. Estes dois projetores já exibiam em bitola de 70 mm. ou 35 mm.
O som
O som do Comodoro era simplesmente o que de melhor existia no mercado cinematográfico de exibição. Eram amplificadores Dolby Stereo (modelo CT 100).
Interior do Comodoro ainda em construção (Folha da Tarde, 28/07/59)
As caixas-acústicas, visíveis na foto, davam a impressão que eram enormes, mas na verdade eram alto-falantes (Altec 515) de 15 polegadas com 35 watts, somente. As sete caixas-acústicas, fixadas atrás da tela de projeção, tinham as laterais feitas com enormes chapas lisas de compensado, que aproveitavam a ressonância da caixa e com isso emitiam som de baixa freqüência, pois naquela época não existiam equipamentos para sub-woofer.

Em 25 de dezembro de 1985 é inaugurado o então mais moderno sistema de som Dolby Stereo do país, com o filme "De Volta Para o Futuro".
De 70 mm. para 35 mm.
Em 1991, o Comodoro já projetava filmes em 35 mm. (cópia normal) e, após intervenção judicial, teve que modificar os escritos de 70 mm. da fachada. A projeção ocupava somente metade de sua grande tela, mas o som ainda continuava excelente. Uma das grandes produções exibidas neste período foi o filme "Os Intocáveis", de Brian De Palma.
Mesmo assim, diante de tanto declínio, o gerente do Comodoro parecia ser um apaixonado pelo cinema, pois passou a fechar, novamente, as enormes cortinas que cobriam a tela e somente abri-las no início da exibição. Nos anos 80, este culto, havia sido esquecido.
O fim do Comodoro
O jornal “Folha de S. Paulo” publicou em 24 de março de 1997:
Centro de São Paulo se despede de mais uma sala de cinema.
O tradicional Comodoro encerrou suas atividades ontem.
O cinema Comodoro, tradicional sala de projeção do centro da cidade, acaba de ser fechado. Ontem foi seu último dia de atividades. “Recebi ordens para fechar a sala no domingo, mas não sei o que aconteceu”, disse Roberto Antunes, coordenador da distribuidora de filmes Cinema International Corporation (CIC), em São Paulo.
Fachada do cinema em seu último dia de exibições (Veja São Paulo - 02/04/1997)
O incêndio
O jornal "Agora" publicou em 26 de agosto de 2000:
Fogo destrói antigo cinema Comodoro
Por Andréa Martins
O incêndio durou cerca de uma hora e pode ter sido causado por problemas na rede elétrica do cinema, disse o coronel Marques, do Corpo de Bombeiros do Cambuci.
Parte de trás do Comodoro (onde ficava a tela e platéia) em chamas
O fogo começou por volta das 19h15 de ontem nos fundos do cinema da avenida São João (região central), desativado desde março de 1997.
Ao todo, 21 carros do Corpo de Bombeiros e 90 homens participaram da operação. Segundo o coronel, toda a parte interna do cinema e o telhado foram destruídos. Ninguém ficou ferido.
Moradores dos blocos A e B do edifício Lucerna, que ficam em cima do cinema, disseram que desde o início da semana havia movimentação de pessoas fazendo limpeza no local. Segundo uma mulher, que não quis se identificar, o cinema foi comprado há dois anos pelos proprietários do Bingo Avenida São João, em frente ao cinema. Ela disse que o local foi invadido várias vezes por mendigos. Funcionários do bingo afirmaram que não havia nenhum responsável pelo estabelecimento no local.
Outros moradores do edifício disseram ter ouvido barulho de explosão. “Ouvi vários estampidos e barulho de vidros se quebrando”, afirmou o advogado João Ferreira, 60 anos, morador do prédio há dois anos.
Cada bloco do edifício tem 58 apartamentos. Muitos ficaram alagados com a ação dos bombeiros. “Minha casa ficou inundada”, contou Jéssica Emanuele, de 20 anos, moradora do 13º andar.
Mais fotos e informações do Comodoro no "Banco de Dados" do Blog.
* Cinerama - Para maiores informações sobre o Cinerama, acesse neste blog, os textos “Maravilhas do Cinerama” e “Não dá para esquecer o impacto que era entrar no cinema”, de João Luiz Vieira ou clique aqui.
* Cinemascope - Lentes anamórficas são lentes que conseguem filmar uma cena panorâmica sem ter de mudar o tamanho do quadro. Utilizando-se lentes semelhantes no projetor, a imagem comprimida (estreitada para caber no quadro) é ampliada até a proporção 2.35:1, formando uma cena cuja largura é mais do que o dobro da altura. O coeficiente entre altura e largura de um filme normal, seja 8 mm., 16 mm. ou 35 mm., é de 1.33:1. A primeira utilização comercial dessas lentes se deu no início da década de 60, quando os técnicos da Fox desenvolveram o processo widescreen, empregando as lentes anamórficas inventadas, em 1927, por Henri Chrétien. O processo foi batizado de Cinemascope.
Fotos do acervo particular de Antonio Ricardo Soriano e Atilio Santarelli.
Texto atualizado em 24/03/2011
ESTE TEXTO PODERÁ SER REPUBLICADO À MEDIDA QUE SURGIREM NOVAS INFORMAÇÕES SOBRE O CINE COMODORO CINERAMA.

Acervo Saudosa Sampa, de Carla Oliveira

Fotos de Carla Oliveira, publicadas na página Saudosa Sampa
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Cine Barão - 1968


Cine Coral - 1965
Cine Marabá
Cine Marabá
Cine Metro
Cine Niterói
Cine Paisandú
Cine Premier - 1970
Cine Regina - 1961
Cine Saci - 1968

Acervo Saudosa Sampa, de Carla Oliveira - Parte 2

Fotos de Carla Oliveira, publicadas na página Saudosa Sampa
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Cine Metrópole
Cine República - 1959
Cine Rex - 1958
Cine São Geraldo - 1985
Cine São Geraldo - 1985
Cine Universo (Letreiro à esquerda)
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.