17/04/2014

Tempos de seriados no cinema

Por Antonio Ricardo Soriano

Os primeiros seriados do cinema

"What Happened to Mary" foi o primeiro seriado dos EUA, realizado em 1912, pelo Edison Studios, com roteiro de Horace G. Plympton, direção de Charles Brabin e, no elenco, Mary Fuller e Charles Ogle. Desenrola-se em 12 episódios contínuos, iniciando-se em 26 de julho de 1912, para coincidir com a história, também em série, publicada na revista The Ladies' World, de The McClure Publications. O seriado começou após o editor da revista, Charles Dwyer, ter encontrado Horace G. Plimpton, gerente da Kinetoscope Company Thomas Edison. A realização paralela entre a publicação na revista e o seriado foi combinada entre os dois. Apesar de a heroína ter participado de sequências de ação e perigo, nenhuma delas era usada para assegurar o suspense nos finais dos capítulos, diferente dos próximos seriados que veremos a seguir.























Do artigo "Seriado, um inocente precursor da telenovela" - Jornal "O Estado de S. Paulo" - 12/01/1972:

No inicio do século passado, os grandes jornais americanos lutavam para aumentar sua venda avulsa. Foi dessa luta que nasceu o filme em série, ou seriado, um tipo de diversão baseado no suspense e na paciência e que o rádio, primeiro, e a televisão, depois, encampariam, para torná-lo de fato o passatempo e a angústia de milhões em todo o mundo (até hoje!). Assim é que, em 1913, uma grande cadeia americana de jornais teve a ideia de publicar seus folhetins simultaneamente com a exibição de um filme baseado neles e financiado pela própria cadeia de jornais (a mesma ideia original do editor da revista The Ladies' World, um ano antes).

"As Aventuras de Kathlyn" (The Adventures of Kathlyn - 1913), extraído de folhetins do jornal Tribune, de Chicago, foi o filme que estabeleceu a fórmula infalível dos seriados: o máximo de sensação e o mínimo de plausibilidade. Cada episódio terminava num momento de muito suspense e tensão, habilmente calculado para induzir a plateia a voltar na semana seguinte e verificar como a mocinha escaparia de seu terrível destino, armado pelo vilão. O sucesso foi estrondoso.

"The Adventures of Kathlyn" foi realizado pela Selig Polyscope Company, dirigido por Francis J. Grandon e inspirado em uma história de Harold MacGrath e Gilson Willets. Estrelando Kathlyn Williams como a heroína, foi filmado em 13 episódios, em Chicago. Um livro com o mesmo título foi publicado por Harold MacGrath, em janeiro de 1914, sendo vendido nas livrarias ao mesmo tempo em que o filme (seriado) era exibido nos cinemas.

Apesar de o primeiro seriado americano ter sido "What Happened to Mary", "The Adventures of Kathlyn" foi uma peça importante na história do cinema. Foi o primeiro seriado a usar o cliffhanger (formato em que cada episódio da série terminava com um perigo ou suspense, retomado apenas no início do próximo episódio) e assim se tornou reconhecido como o primeiro da história.























O Tribune aumentou sua tiragem em dez por cento, e os donos dos cinemas, a princípio descrentes, admitiram afinal que os negócios prosperavam. Nos três anos seguintes, a nação foi assolada por um vendaval de histórias em capítulos. O Tribune financiou mais um filme - "O Mistério do Milhão de Dólares" (The Million Dolar Mistery - 1914) - escolhendo o título primeiro e a história e atores - Florence La Badie, Marguerite Snow e James Cruze - depois. Seus 23 capítulos custaram cerca de 250 mil dólares, foram exibidos em sete mil cinemas, renderam um milhão e meio de dólares, voltando para os acionistas 700 por cento de seu investimento - uma fábula para a época.























Os seriados contribuíram para a evolução do cinema no período de transição dos filmes de dois rolos para os de longa metragem e também para a estabilização do cinema como meio expressivo. Pode-se dizer que constituíram a primeira tentativa de dar à narrativa cinematográfica a progressão e o sentido próprios da novela.

"Os Perigos de Paulina" (The Perils of Pauline - 1914), primeira produção americana da empresa francesa Pathé, interpretada pela atriz Pearl White e dirigida por Louis J. Gasnier, firmou definitivamente o gênero. O seriado tornou-se tão popular que a produtora aumentou a quantidade de episódios de 15 para 20. No Brasil, recebeu o nome de "Aventuras de Elaine" e foi exibido, em São Paulo, no Íris Theatre em 8 de dezembro de 1916, passando para o Cine Central em 5 de janeiro de 1917.























Os mocinhos e mocinhas destes seriados passavam por tudo: eram atirados no fogo, do alto de um penhasco, aprisionados pelos índios, amarrados em trilhos de estradas de ferro ou em mesas contra as quais avançava ou descia uma serra afiadíssima. A imaginação dos roteiristas levou-os a enfrentar todas as ameaças e perigos.

A moda dos seriados logo chegou à França e seu maior cultor foi o diretor Louis Feuillade, que, em 1914, realizava o maior êxito de sua carreira: a série Fantômas, baseada no personagem do folhetim de Pierre Souvestre e Marcel Allain.























Características dos seriados do cinema

Do artigo "O Espírito Que Caminha contra as balas que miam", de Ruy Castro - Jornal "O Estado de S. Paulo" - 31/07/2004:

Os seriados eram uma atração dos poeiras (cinemas de rua mais simples) dos subúrbios e províncias. Seu público era infanto-juvenil em idade física ou mental. Compunham-se de 12 ou 15 episódios de cerca de 18 minutos (dois rolos) cada, exibidos semanalmente nas matinês como complemento a um filme do mesmo estúdio, quase sempre um faroeste de 70 minutos estrelado por um cowboy (o total perfazia a hora e meia de uma sessão normal). Depois de uma boa briga ou de um tiroteio em que as balas miavam, cada episódio terminava com o herói ou heroína pendurado no precipício, amarrado dentro de um paiol que explodia ou desacordado num carro que voava pela ribanceira. A ação se interrompia e um aviso dizia: "Voltem na próxima semana para ver a continuação deste episódio". Na dita volta, repetia-se o trecho decisivo do episódio anterior, com a diferença de que, desta vez, via-se o herói desamarrando as cordas ou acordando a tempo de fugir do paiol ou de saltar do carro antes que ele se esbodegasse. Tudo muito previsível até para os infantes daquele tempo, mas também muito bem feito tecnicamente.

Os seriados nos cinemas de bairro

Os cinemas de bairro tinham vida própria, pois continuavam a fazer suas próprias programações especiais. Muitos exibiam os famosos seriados, depois das atrações principais. Terminavam em grande suspense, para 'continuar na próxima semana'. Era uma maneira de chamar o público a voltar na semana seguinte. Os seriados atingiram o seu auge nos anos de 1940, mas, no início dos anos de 1950, já estavam em decadência nos EUA. Mesmo assim, continuaram populares aqui no Brasil, pois ainda eram exibidos nos cinemas de bairro da Capital e cinemas do interior de São Paulo.

26/11/1950

27/03/1955
1950

22/02/1942

1950

1952

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16/04/2014

Cine Marrocos: "o melhor e mais luxuoso cinema da América do Sul"

Por Antonio Ricardo Soriano
Fotos atuais: Antonio Ricardo Soriano (14/10/2013)

O cine Marrocos foi inaugurado em 25/01/1951, aniversário de 397 anos da capital paulista.


O Marrocos ainda possui detalhes originais bem conservados e condições de voltar a funcionar como cinema. Os planos da Prefeitura são de transformá-lo em teatro, mas porque não em um cineteatro? Ideia: o Cineteatro Marrocos poderia ser reinaugurado no aniversário de 461 anos da cidade de São Paulo, em 25/01/2015. Porque não?





Texto integral do periódico CINE REPÓRTER (Fev./1951) que detalha toda a grandeza e luxuosidade deste cinema em sua inauguração:

E AÍ ESTÁ O MONUMENTAL "MARROCOS"!

A inauguração do melhor e mais luxuoso cinema da América do Sul

O que há de notável na casa de espetáculos da Rua Conselheiro Crispiniano - Distinção, conforto, perfeição técnica - A decoração em motivos das "Mil e Uma Noites" - Dois mil lugares, magníficas poltronas recuáveis, ar condicionado - Fonte luminosa, moderno revestimento de espelhos, bar no salão de espera (este, um ponto de reunião da sociedade paulista) - A cabine e sua aparelhagem - O filme de estreia e os "selos" que serão consagrado.

No dia de S. Paulo - quando a cidade-milagre se comovia e se orgulhava com mais uma festa aniversária - foi entregue ao público o majestoso, o monumental MARROCOS, que é o melhor e o mais luxuoso cinema da América do Sul.
Erguendo-se no belíssimo prédio que recentemente se construiu na Rua Conselheiro Crispiniano (proximidades da sede da 2ª R. M.), o MARROCOS é de propriedade, projeto e construção da Construtora Brasília, com engenheiro responsável Nelson Paulo Scuracchio e arquiteto projetista João Bernardes Ribeiro, estando arrendado à Empresa Brasileira de Cinemas, de que são diretores os Srs. Lucidio Calio Ceravolo, veterano e arrojado cinematografista, e Dr. Mauro Pais de Almeida e Sebastião Pais de Almeida.

UM "SLOGAN" QUE NÃO MENTE
Quem visita a magnífica casa de espetáculos se convence inteiramente de que o MARROCOS merece o "slogan" que o anuncia: - "o melhor e mais luxuoso da América do Sul".
Já à entrada impressiona a ampla escadaria de mármore branco que dá acesso ao "hall" de entrada do cinema, guardado por imponentes e aristocráticas colunas também revestidas de mármore e que dão um aspecto cheio de grandiosidade ao conjunto arquitetônico. Do "hall" de entrada atingem-se as bilheterias internas, localizadas de forma a facilitar a compra dos ingressos sem necessidade de apertos e confusão.



FONTE LUMINOSA, BAR E BELO SALÃO PARA REUNIÕES DA SOCIEDADE PAULISTA
Após as bilheterias situa-se um belíssimo átrio, ornamentado com uma fonte luminosa, em permanente funcionamento, o que irá emprestar um aspecto fidalgo e distinto ao ambiente. Desse átrio saem às escadarias que dão acesso aos balcões, enquanto os espectadores da plateia encontram pela frente um amplo e acolhedor salão de espera, capaz de conter grande número de pessoas dentro das maiores exigências de conforto e bem estar. Um espaçoso "bar" localiza-se à esquerda de quem entra, tendo à frente numerosas mesinhas e cadeiras, dispostas a proporcionar agradáveis momentos aos que esperam o início da sessão ou aguardam amigos ou familiares. Será esta uma característica inteiramente inédita em matéria de cinema entre nós e, certamente, virá contribuir para prolongar por agradáveis momentos, os encontros entre amigos e conhecidos nos intervalos das sessões, fazendo do salão de espera do "Marrocos", o ponto de reunião da nossa sociedade.

A DECORAÇÃO
A decoração do "Marrocos", que esteve a cargo de Jacques Monet e Nizet, revestiu de uma personalidade senhoril e de grande distinção o "hall" de entrada, guarnecido por imponentes espelhos, onde artísticos desenhos irão apresentando os cartazes dos filmes em exibição e por estrear. A mesma guarnição de espelhos reveste o salão de espera, enquanto no átrio, juntamente com a fonte luminosa, encontramos um painel em alto relevo, contando em termos incisivos a história do cinema em suas diversas fases. Os desenhos do piso, de originalidade e concepção extraordinariamente delicadas, são apresentados em bronze e repetidos na mesma disposição, na decoração do teto e nas artísticas cantoneiras dispostas sob os espelhos.
A parte de aplicações, tapeçaria, cortinas e palco estiveram a cargo desse experimentado profissional que é ao mesmo tempo um artista consagrado por excelentes trabalhos que valorizam os mais categorizados cinemas do Brasil - José Maestre.




O EXCEPCIONAL SALÃO DE EXIBIÇÕES - A CABINE - AS POLTRONAS RECUÁVEIS
O salão de exibições do "Marrocos" é de extraordinária amplitude, comportando dois mil espectadores sentados, possuindo poltronas estofadas do novo tipo recuáveis, que dão maior conforto e aproveitam melhor espaço. Possui a maior e mais perfeita instalação de aparelhos projetores de todo o Brasil, SIMPLEX XL, fornecidos por R. Ekerman e dispõe de ar condicionado Carrier, tela de vidro e visibilidade perfeita de todos os seus pontos. A decoração da sala de projeção foi baseada em motivos das lendas árabes das "Mil e Uma Noites", em delicados tons que combinam perfeitamente com o conjunto geral.


O FILME INAUGURAL
O novo e majestoso cinema entregue ao público paulistano apresentou o filme "Memórias de um Médico/Black Magic" (1949), produção executiva de Edward Small, com Orson Welles e Nancy Guild, secundados por Akim Tamirof e Valentinna Cortese, além de grande elenco, com argumento baseado na célebre novela de Alexandre Dumas, em distribuição da United Artists.
Serão lançadores no cine "Marrocos", a França Filmes do Brasil, a United Artists, a Eagle-Lion, a U. C. B. e várias outras. Os lançamentos do "Marrocos" serão alternados semanalmente com as estreias do cine Oasis, simultaneamente com os cines Sabará, Vogue, Jaraguá, Carlos Gomes, Ipiranga, Palácio, Santo Antonio e Pedro I.



O cinema com que o Brasil sonhou ai está: - é o MARROCOS. E necessariamente tinha que se ligar ao importante acontecimento o nome de um cinematografista autentico: LUCIDIO CERAVOLO.

No dia 24, à tarde, autoridades, elementos da sociedade paulista, cinematografistas e imprensa foram fidalgamente recebidos no MARROCOS. Uma agradável reunião, sem duvida. Foi servida uma taça de champanha. Ao microfone houve um desfile de impressões sobre a sala exibidora. Iniciou-se, por convite especial, o diretor de CINE - REPÓRTER, Antenor Teixeira.









14/04/2014

O cine Ouro com sua linda decoração no estilo colonial brasileiro

Em 25 de maio de 1966, às 21 horas, o grande exibidor Paulo Sá Pinto inaugura o cine Ouro, no Largo do Paissandu, com uma sessão de gala do filme “O Colecionador”, do diretor William Wyler (Ben Hur). No local, funcionava o antigo cine Bandeirantes.


O cinema era todo decorado no estilo colonial brasileiro (veja os detalhes nas fotos abaixo) e possuía cópias em gesso das obras de Aleijadinho. Uma delas era uma réplica do frontal do altar-mor da Igreja de São Francisco em Ouro Preto, Minas Gerais (cedida pela Faculdade de Arquitetura de Minas Gerais, com autorização do Patrimônio Histórico Nacional).




Nas sessões, antes do filme começar, o expectador tinha audições ao vivo de piano. O cine Ouro era considerado uma das salas mais luxuosas do país.





Fotos, gentilmente, cedidas por Luiz Carlos Pereira da Silva. Foram tiradas em 29/10/1994, pouco antes do fechamento do cinema em 31/10/1994.
"Nunca imaginei que simples fotos pudessem fazer parte de um trabalho igual ao seu, como um "Cinema Paradiso", revitalizando o passado com imagens que estavam perdidas em uma gaveta" - Luiz Carlos Pereira da Silva
"As fotos ficaram lindas, a esposa também gostou, é bom colaborar com pessoas como você, que faz um belo trabalho" - Luiz Carlos Pereira da Silva

09/04/2014

Os cinemas de rua nos antigos postais de SP

Colaboração do historiador Felipe Alexandre Herculano do blog "Sampa Histórica". > Clique nas legendas

Cine Broadway exibindo o filme "Vontade Escrava", de 1934

Cine Art Palácio anunciando a sua nova tela panorâmica nos anos de 1950

Cine Ritz exibindo o filme "Safo - História de uma Paixão" (1943) e o cine Metro (mais ao fundo)

Cine Metro exibindo o filme "Com os Braços Abertos", de 1938

Cine Metro em 1964

Cine Saci em 1970