Máximo Barro Produtor, diretor e montador de diversos curtas e longas-metragens. Foi professor da FAAP. Atualmente, atua como pesquisador cinematográfico. É autor de vários livros, entre eles: “A primeira sessão de cinema em São Paulo” – Editora Tanz do Brasil – 1996 “Caminhos e descaminhos do cinema paulista: década de 50” Editora do Autor – 1997 “Vittorio Capellaro – O caçador de diamantes” – Coleção Aplauso Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – 2004 “Sérgio Hingst – Um ator de cinema” – Coleção Aplauso – Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – 2005 “José Carlos Burle – Drama na Chanchada” – Coleção Aplauso Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - 2007 “Agostinho Martins Pereira – O idealista” – Coleção Aplauso Imprensa Oficial do Estado de São Paulo” – 2008 Os livros da “Coleção Aplauso” são encontrados nos sites “2001 Video” e “Livraria Cultura” e os demais livros no site “Estante Virtual”.
09/07/2009
As primeiras projeções na cidade de SP
Por Máximo Barro Em todas as partes do mundo, o cinema foi antecedido por vários produtos que, funcionando como antenas previsoras, abriam caminho para a grande novidade. Em São Paulo, os fatos sucederam-se segundo o manual de qualquer história do cinema: instrumentos óticos, grandes painéis, sombras chinesas e outros artefatos encobertos por pomposos nomes de origem latina ou grega. Em 1834, Jean Jacques Vioget pede licença para abrir na cidade uma “câmara ótica para divertimento público”, certamente uma lanterna mágica incrementada. Já no fim do século, alguns pacatos cidadãos, como Benjamin Schalk, possuem uma lanterna mágica com 250 discos, enlevo dos familiares e vizinhos. A partir de 1890, os jornais anunciam com certa constância o “Teatro Mecânico Cardinalli”, “Panorama-Diorama” e os fonógrafos, irmãos xifópagos do kinetoscópio. Por último, o cinema. No dia 7 de agosto de 1896, na primeira página do jornal “O Estado de S.Paulo”, aparecia um artigo, evidentemente pago, intitulado “Um pouco de Sciência”. Nele fazia-se uma síntese daquilo que hoje chamamos de pré-história do cinema. Falando em Marey, Lumière e Edison, entre outros, citava inúmeros aparelhos científicos que redundariam no cinematógrafo, que obtinha enorme sucesso em Paris e em outras grandes cidades européias. O trabalho era uma tradução de um artigo francês de George Villoux. Este artigo continuou no dia 9, quando informou que um kinetoscópio funcionara meses atrás na paulicéia. Nada obtivemos nos vários jornais consultados que confirmasse esta informação. Ao artigo do dia 9, que deixava entrever claramente uma continuação, fez-se um longo intervalo e só a 17 de agosto teríamos a terceira parte. Na conclusão, em notícia de rodapé, anunciava simplesmente que o cinema já se encontrava em São Paulo, funcionando num prédio. Não encontramos neste jornal nenhuma referência, nem mesmo junto aos anúncios de teatros, que localizasse a rua, horário, preços e demais informações comuns ao gênero de diversões. Porém, no dia 8 de agosto, ainda na primeira página, aparecia um artigo com o título: Photographia Animada “Realizou-se hontem à noite, com a assistência do Presidente do Estado e de alguns convidados, a repetição geral do cinematographo, aparelho que reproduz num alvo, scenas variadas, dando-lhes realce e cunho de vida, o que valeu a este processo de photographia, o nome de Photographia Animada. Constou o programa das seguintes vistas: O banho dos sudanezes; O cachorro: dois cachorros nadando; O carroção; O trem: um trem parado numa estação com o vaivém dos passageiros; O meil-coack de volta das corridas; O bebezinho: uma criança brincando com cachorros numa sala; A Praça da Bastilha. Sem entrar em detalhes, pois a todos será em breve dado deliciarem-se com estes espetáculos, resumiremos as nossas impressões nestas palavras: admirável, assombroso. É digno de louvores, o photographo Sr. Renouleau que introduziu nesta Capital o primeiro Cinematographo que trabalha na América do Sul.” Apesar da clara orientação comercial do anúncio, este é um dos raríssimos documentos críticos sobre uma projeção cinematográfica em São Paulo, até fins de 1899, que conseguimos. Nele algumas coisas ficam confusas para o pesquisador que procura dados exatos. Por longo tempo ficamos confusos com a aparente incoerência de noticiar-se “a repetição geral”, quando na verdade aquela era uma sessão inaugural. Abordando o assunto com uma pessoa amiga, ela nos sugeriu que “repetição geral” bem podia ser uma tradução literal e errada de répétition générale. Pesquisas posteriores confirmaram a suposição. Répétition générale na França corresponderia, aqui no Brasil, a uma primeira sessão especial, para público selecionado, normalmente em trajes de cerimônia. Após a enumeração dos filmes, anuncia-se que “em breve seria dado deliciarem-se...”, coisa que não coordena com a realidade, pois no dia 8, a “Platéia” e o “Diário Popular” inserem os primeiros anúncios da projeção de cinema em jornais de São Paulo. Do emaranhado de informações que uma redação inábil quase transforma em hieróglifo, podemos concluir que a primeira sessão de cinema em São Paulo deu-se, de forma privada, a 7 de agosto, com a presença de Campos Sales, secretários de Estado e familiares, podendo equiparar-se às que Lumière deu, por exemplo, em março e setembro de 1895, quando dos congressos de fotografia. A pública e paga aconteceu no dia imediato, 8 de agosto, sábado, que na época devia ser o mais propício, pois a maioria das estréias teatrais acontecia nesse dia da semana. Foi também num sábado, a 28 de dezembro de 1895, que o cinema Lumière teve seu batismo público na França. Parte do texto “As primeiras projeções na cidade de São Paulo”, de Máximo Barro, publicado no periódico “Filme Cultura” - nº 47 - Agosto de 1986. .
Máximo Barro Produtor, diretor e montador de diversos curtas e longas-metragens. Foi professor da FAAP. Atualmente, atua como pesquisador cinematográfico. É autor de vários livros, entre eles: “A primeira sessão de cinema em São Paulo” – Editora Tanz do Brasil – 1996 “Caminhos e descaminhos do cinema paulista: década de 50” Editora do Autor – 1997 “Vittorio Capellaro – O caçador de diamantes” – Coleção Aplauso Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – 2004 “Sérgio Hingst – Um ator de cinema” – Coleção Aplauso – Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – 2005 “José Carlos Burle – Drama na Chanchada” – Coleção Aplauso Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - 2007 “Agostinho Martins Pereira – O idealista” – Coleção Aplauso Imprensa Oficial do Estado de São Paulo” – 2008 Os livros da “Coleção Aplauso” são encontrados nos sites “2001 Video” e “Livraria Cultura” e os demais livros no site “Estante Virtual”.
Máximo Barro Produtor, diretor e montador de diversos curtas e longas-metragens. Foi professor da FAAP. Atualmente, atua como pesquisador cinematográfico. É autor de vários livros, entre eles: “A primeira sessão de cinema em São Paulo” – Editora Tanz do Brasil – 1996 “Caminhos e descaminhos do cinema paulista: década de 50” Editora do Autor – 1997 “Vittorio Capellaro – O caçador de diamantes” – Coleção Aplauso Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – 2004 “Sérgio Hingst – Um ator de cinema” – Coleção Aplauso – Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – 2005 “José Carlos Burle – Drama na Chanchada” – Coleção Aplauso Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - 2007 “Agostinho Martins Pereira – O idealista” – Coleção Aplauso Imprensa Oficial do Estado de São Paulo” – 2008 Os livros da “Coleção Aplauso” são encontrados nos sites “2001 Video” e “Livraria Cultura” e os demais livros no site “Estante Virtual”.
08/06/2009
O último pianista de cinema
Primeiro, o cinema falado passou a falar por eles. Depois, os velhos casarões que se pretendiam respeitáveis e recebiam platéias de paletó e gravata, substituiu-os por discos, para uma platéia apressada, que preferia comer pipoca entre uma sessão e outra. Finalmente, ir ao cinema passou a ser algo tão trivial, que nas salas não cabia mais o luxo de pianos ou porteiros de casaca. Os músicos de cinemas, que acrescentavam algo aos filmes mudos ou distraíam a platéia nos intervalos, foram tocar em rádios, bandas ou cabarés. Alguns - como Heitor Vila-Lobos e Ernesto Nazaré - saíram de lá para a glória. Outros mergulharam no anonimato eterno. Mas, no início dos anos 70, pelo menos um, no centro de São Paulo, ainda emitia seus sons e todas as noites, antes das sessões de 20 e 22 horas do cine Ouro, uma voz anunciava: “Senhoras e senhores, boa noite. Este é o único cinema que oferece a seus freqüentadores, alguns minutos de agradável entretenimento musical. E estes minutos agradáveis, o cine Ouro vai agora lhes proporcionar, apresentando ao piano, o renomado professor Francisco José Gorga”. A platéia permanecia muda. O renomado professor entrava em cena e sentava-se ao seu piano Beckstein de meia cauda.
O pianista, Francisco José Gorga, paulista de Porangaba, também tinha algo a dizer antes de tocar: “Tenho o prazer de executar para senhoras e senhores assistentes, dois números musicais. Primeiro, uma valsa de Chopin, e depois, em arranjo de minha autoria, “Quero que vá tudo para o inferno”, de Roberto Carlos. Tocava, a platéia aplaudia e começava o filme. O ritual se repetia desde 1964, quando o cine Ouro (1700 lugares) passou por uma reforma que lhe deu a aparência de um prédio colonial, decorado com motivos de Ouro Preto. Ostentava imitações de estátuas do Aleijadinho, vigas de madeira no teto, lembrando construções antigas, tapetes grossos e cópias de janelas e portas dos antigos sobradinhos mineiros. No início dos anos 70, mesmo sendo um dos cinemas mais baratos da cidade e geralmente apresentando reprises ou filmes de classe B, o cine Ouro ainda tinha um toque de nobreza – o gerente estava sempre de smoking – apropriado para a cerimônia de um número musical ao vivo. O professor Gorga se sentia bem ali. Estudou na Itália, enfrentava o público desde 1925, ano em que tocou pela primeira vez, no cabaré Scala, passando, também, por teatros e rádios de vários estados brasileiros. Para ganhar os “900 cruzeiros” mensais que o cinema lhe pagava, tinha versatilidade bastante para tocar de tudo (mas sempre de acordo com o filme em cartaz) e paciência de sobra para saber que nem sempre gostavam dele. “Chega!”, gritou-lhe uma vez um espectador, entre um número e outro. “Mas que bela educação!”, desafiou o pianista. A platéia aplaudiu. E ele tocou mais uma vez. Foi o único incidente que o envolveu em anos. “O público que me escuta não tem obrigação de bater palmas. Mas, se escuta, é porque tem algum sentimento em relação à música e por isso nos entendemos quando toco”, disse o pianista. Alto, grisalho, terno bem talhado, unhas bem feitas, Gorga falava com a voz polida dos grandes cavalheiros. Ele era fiscal de conservatórios da “Comissão Estadual de Música” e, além de piano, também ensinava violoncelo, harmônica, violão, clarinete e pistom. Escrevia muito em jornais, mas gravou muito pouco (uma única composição sua “Choro em Lá Menor”, em 1946). Ele não parecia muito preocupado com sua posteridade. Casado, pai de um filho, só lamentava que o ensino de música, que ele analisou em muitos artigos, era muito fraco no Brasil. Glória? Não fez parte de suas ambições. Fortuna? Também não. E aplausos dos freqüentadores do cine Ouro? De modo algum. Solitário na sua profissão, último representante de uma espécie extinta, sabia exatamente até onde ia a sua arte: “Toco para uma única pessoa ou para uma casa lotada. Na verdade, eu toco sempre para mim mesmo”. Fonte de pesquisa: Revista “Veja” (1971) - Foto de Teo Nunes
07/06/2009
Livro: The end - Cinemas de calçada em Porto Alegre
O livro 'The end - Cinemas de calçada em Porto Alegre' analisa as causas e conseqüências do fim das salas de rua na cidade de Porto Alegre! Na pauta - um breve histórico das salas de cinema da capital gaúcha no início do século XX até as últimas sessões de cines como Capitólio e Imperial. Tudo bem parecido com o que aconteceu aqui em São Paulo.
Para adquirir o livro entre em contato com o autor (crzan@hotmail.com) ou compre nas lojas da Livraria Cultura. 

27/05/2009
As mais belas fachadas dos antigos cinemas de rua da cidade de São Paulo
Broadway (Av. São João, 560 - Centro)
Joia (Praça Carlos Gomes, 82 - Liberdade)
Majestic (Rua Augusta, 1475 - Bela Vista)
Marabá (Av. Ipiranga, 757 - Centro)
Marrocos (Rua Cons. Crispiniano, 352 - Centro)
Metro (Av. São João, 791 - Centro)
Nacional (Rua Clélia, 1517 - Lapa)
Opera (Rua Dom José de Barros, 505 - Centro)
Paramount (Av. Brig. Luis Antônio, 411 - Jd. Paulista)
Paris (Rua Barra do Tibagi, 657 - Bom Retiro)
Plaza (Praça Mal. Deodoro, 340 - Sta. Cecilia)
Rex (Rua Cons. Carrão - Bela Vista)
Rio (Rua da Consolação, 1992 - Consolação)
Ritz (Av. São João, 587 - Centro)
Roxy (Av. Celso Garcia, 499 - Brás)
Tropical (Rua Roma, 731 - Lapa)
Ufa-Palacio (Av. São João, 407/419 - Centro)
Clique nas fotos para ampliá-las.
Informações e fotos sobre estes e outros lindos cinemas de rua, você encontra no Banco de Dados do blog: http://salasdecinemadesp2.blogspot.com/
Em breve:
As mais belas fachadas dos antigos cinemas de rua do litoral e interior de São Paulo
Ipiranga (Av. Ipiranga, 786 - Centro)
26/05/2009
Tempos de Censura
Por Antonio Ricardo Soriano
“Toda Nudez Será Castigada” e “Sacco e Vanzetti”
Em 22 de Junho de 1973 (sexta-feira), as luzes do cine São Geraldo, em Belo Horizonte, acenderam-se no meio da sessão e uma voz não identificada intimou os espectadores de “Toda Nudez Será Castigada” a esvaziarem a sala. Foi uma “grosseria”, segundo a platéia escorraçada e os jornalistas proibidos de noticiarem a expulsão. Dez filmes haviam sido censurados e teriam que ser retirados de cartaz em todo o país, sob a acusação de serem pornográficos e subversivos.
A pressa da Censura de Belo Horizonte não teve seguidores em outros lugares (certamente porque as repartições públicas não trabalhavam nos fins de semana). Por isso, no final de semana (23 a 24 de junho), as filas nas portas dos cinemas se espicharam. Na trabalhosa e às vezes divertida caça ao brinquedo proibido, as filas iam tecendo sua rede de dúvidas, ou indignação, ou frustração. Todos queriam saber o que lhes havia sido vetado.
Em São Paulo, o cine Gazeta vinha vendendo, diariamente, uma média de 400 ingressos do filme “Sacco e Vanzetti” (mais um dos censurados), mas, no sábado (23 de junho), 2500 pessoas espremeram-se no cinema.
“Aquilo não era uma fila, parecia um comício. Me deu um medo danado”, contou o gerente do cine Gazeta, Abílio Garcia, que se confessava impotente para atender aos telefonemas e controlar um modesto câmbio negro na porta. Vários rapazes compravam ingressos (8 cruzeiros) para vendê-los por 10.
O esforço das platéias foi premiado por elas mesmas. As cenas mais inflamadas de “Sacco e Vanzetti” e as mais ardentes de “Toda Nudez” ganhavam aplausos.
Os 10 filmes banidos pela Censura acabaram, realmente, saindo de cartaz na segunda-feira (25 de junho). Na quarta, o cine Gazeta colocava um cartaz de “Sacco e Vanzetti” na porta e desafiava, em letras vermelhas: “Brevemente este filme voltará a ser exibido”.
“Laranja Mecânica” e “O Último Tango em Paris”
Também, em 1973, em Porto Alegre, uma agência de turismo organizou a “Excursão Laranja Mecânica”, que levou 36 fanáticos por cinema a Montevidéu para assistirem a “A Clockwork Orange”, proibido no Brasil. Outra agência, a Unesul, organizou a “Operação Último Tango”, igualmente rumo a Montevidéu. No Uruguai não existia a censura de filmes, apenas recomendações de um conselho, que mandava colocar uma franja verde nos cartazes dos filmes considerados eróticos e uma vermelha nos violentos.
“Dona Flor e seus Dois Maridos”
Em 1977, as pessoas que passavam diante do cine Ipiranga, no centro de São Paulo, assistiam literalmente a uma troca de cartazes, só que do mesmo filme, “Dona Flor e seus Dois Maridos”. Por ordem da Polícia Federal, o cinema teve que arrumar às pressas um pintor que acrescentou ao cartaz original um calção no despido ator José Wilker e, com a arte possível, desviou para frente a mão que antes repousava nas nádegas de Sônia Braga. O espaço de sobra nesta parte do corpo da atriz foi, finalmente, tapado com uma pincelada de tinta, provocando um efeito semelhante ao dos socos nas histórias em quadrinhos.
“O Encouraçado Potemkin”
Em 1980, voltou a ser exibido em circuito comercial, o filme “O Encouraçado Potemkin”, do russo Serguei Eisenstein. O filme estava banido das telas brasileiras durante dezesseis anos.
O filme soviético, feito em 1925, saiu de cena em 1964, depois de ter sido aberto um inquérito para investigar sua exibição para marinheiros. Desde então, ele trafegava por um circuito semiclandestino formado por salas de universidades e cinematecas. O filme é mudo e descreve, em preto e branco, a rebelião dos marinheiros russos contra a ditadura czarista, em 1905. Os subalternos do navio de guerra matam seus oficiais e essa subversão da hierarquia levou a Marinha Brasileira a vetar a obra de Eisenstein.
A liberação foi formalizada pela Polícia Federal em fevereiro de 1980, para maiores de 10 anos e a sua primeira exibição foi em 1º de maio. Logo no primeiro dia, 899 pessoas passaram pelas bilheterias do cine Paramount, em São Paulo.
Fonte de pesquisa: Revistas “Veja” de 1973, 1977 e 1980
Tempos de Tubarão
Revista “Veja”, 31 de Dezembro de 1975.
Comprimida diante dos cinemas Gemini 1 e Gemini 2, na Avenida Paulista, em São Paulo, a multidão ondulava num incontrolável empurra-empurra. De repente, em meio a cotoveladas, palavrões e olhares raivosos, uma voz exaltada anunciou, sem maiores explicações, que pretendia “quebrar o vidro da bilheteria”. Nesse momento, o solitário guarda de segurança José Pereira Guimarães decidiu intervir de maneira drástica. E, empunhando revólver e cassetete, tentou organizar em filas, as centenas de paulistanos que afluíram à sessão das 17h20 para assistir ao filme “Tubarão”.
Contudo, nem a severa reação do guarda Guimarães fez a turba recuar. E o soldado do Exército Paschoal Mauro, que afinal já perdera duas horas do seu dia de folga no truculento corpo-a-corpo defronte aos Gemini, avançou para o guarda e bradou: “Puxar revólver, não! Isso aí mata, falei?” Os ânimos só serenaram quando o gerente Sérgio Araújo Câmara, pela quarta vez em dois dias, solicitou reforços da polícia. Com alguma rispidez, treze policiais desembarcados de quatro viaturas logo reduziram a multidão a disciplinadas filas. Todos, então, puderam entrar, com exceção dos que, por um equívoco dos milicianos, se alinharam justamente numa fila que não conduzia a parte alguma. Nada mais natural. Nos últimos dias, o Brasil está entregue a mais um desses delírios cinematográficos, com a estréia simultânea de “Tubarão” em todas as grandes cidades. E junto às extensas procissões de candidatos a espectadores, os incidentes tornaram-se inevitáveis. Em São Paulo, mesmo vendendo ingressos a 20 cruzeiros, todos os seis cinemas que exibiram “Tubarão” ostentavam, nos dois primeiros dias, filas com mais de 100 metros de extensão. E, somente no cine Paulistano, a cada sessão, cerca de 1000 pessoas disputavam avidamente as 610 poltronas da platéia. Quais as razões de tanto interesse pelo filme, num país que há pelo menos quinze anos não tem notícia de pessoas mortas por tubarões? Em primeiro lugar, naturalmente, vem a maciça campanha publicitária que precedeu o lançamento. Depois, o êxito do livro de Peter Benchley, que serviu de roteiro para o filme. Finalmente, há o evidente fascínio exercido sobre milhares de brasileiros pelos “filmes-desastre”, que sempre conseguem juntar platéias espantosamente participantes. Pois a verdade é que, no escuro das salas, as reações dos espectadores assumem formas ainda mais surpreendentes. As cenas de abertura, por exemplo, são recebidas com apuros, aplausos e estridentes assovios. Depois, sucedem-se gritos, exclamações medrosas, interjeições entusiasmadas e, nos intervalos das cenas mais emocionantes, singulares batalhas de cigarros acesos. Seja como for, ao cabo das duas horas de projeção são sempre raros os descontentes com os resultados dramáticos do filme. E alguns, como o radiotelegrafista paulista Silvio Coimbra, deixam o cinema especialmente impressionados: “Não pretendo voltar à praia”, dizia ele na saída do cine Paulistano.
23/04/2009
Marrocos: a população de São Paulo merece o retorno deste grandioso cinema
Por Antonio Ricardo Soriano O Marrocos, em 1951, ano de sua inauguração, era apontado como o cinema mais luxuoso da América do Sul. O cinema situado na Rua Conselheiro Crispiniano, nº. 344, destacava-se pela sua arquitetura de estilo “Mourisco modernizado”, que apresentava grandiosidade e muito conforto. A sua fachada e escadarias de entrada eram revestidas pelo precioso mármore de Carrara.
O grande hall de entrada possuía um piso riquíssimo em desenhos orientais, tendo ao centro uma magnífica fonte luminosa.
As paredes laterais do grande hall de entrada possuíam decorações inspiradas no Oriente de contos e fantasias. Havia, também, um interessante baixo relevo, cuja decoração descrevia, com detalhes admiráveis, a evolução da sétima arte através dos tempos, desde Carlitos em “Em busca do ouro” até os últimos lançamentos (dos anos 40) da indústria do cinema em todo o planeta.
A sala de espera, de 400 metros quadrados, tinha móveis que constituíam a última palavra em conforto e ornamentação, além de grandes colunas revestidas com espelhos de cristal rosa e caríssimos tapetes.
Sala de espera da platéia
Sala de espera do 1º balcão O cinema trazia, também, como uma das principais novidades, um magnífico bar. A sala de projeções, com capacidade total de 1900 lugares, tinha todas as paredes ornamentadas com pinturas inspiradas nos contos orientais das “Mil e uma noites” e possuía dois balcões.
Outra particularidade interessante eram as cadeiras recuáveis da platéia e balcões, que permitia passagem fácil às pessoas entre as fileiras de poltronas. A tela do cinema era de vidro e proporcionava visão brilhante e sem ofuscamento, com extraordinário efeito na projeção de filmes em cores.
O Marrocos, também, possuía a maior cabine cinematográfica do Brasil, com equipamentos de projeção e áudio da marca Simplex.
Com certeza, a maioria destas características foi modificada durante os mais de 50 anos de existência do cinema. Mas acredito que muitas delas ainda estão intactas. O local do cinema é privilegiado por estar bem próximo ao Teatro Municipal, do futuro SESC (na Rua 24 de Maio), da Galeria Olido e de muitas paradas de ônibus e estações do metrô. Por tudo isso, o cinema merece ser reformado e ter sua rica decoração toda restaurada. Fonte de pesquisa: Revista Acrópole – Março de 1951 - Fotos de Leon Liberman
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