27/06/2014

Cine Belas Artes: um passeio por sua história

Por Antonio Ricardo Soriano e Luiz Carlos Pereira da Silva
Colaboração: Roseli Venancio Pedroso (Bibliotecária, escritora e blogueira)

INAUGURAÇÃO - CINE TRIANON

O atual cine Belas Artes e futuro Cine CAIXA Belas Artes é inaugurado em 14/07/1956 com o nome de cine Trianon. Possuía apenas uma sala com cerca de 1400 lugares (plateia e balcão) e era administrado pela Cia. Cinematográfica Serrador Ltda. Em sua inauguração é exibido o filme "Eles se casam com as morenas", com Jane Russel e Jeanne Crain. Estavam presentes o gerente e o diretor da Cia. Serrador, João Zeron e Dr. Florentino Llorente. Contava com aparelhos de projeção Simplex para os sistemas CinemaScope, Vista-Vision, SuperScope e Naturama e o som era estereofônico. O prédio era de propriedade de Phelippe Azer Maluf.






















REINAUGURAÇÃO - CINE BELAS ARTES

O cine Trianon é inteiramente reformado e reinaugurado em 14/07/1967 (aniversário de 11 anos do cinema), com novo nome: Belas Artes. Com a instalação de novas poltronas, a capacidade do cinema diminui para cerca de 1200 lugares. O filme inaugural é "Os russos estão chegando" (1966), de Norman Jewison, indicado ao Oscar em quatro categorias e ganhador do Globo de Ouro na categoria de Melhor Comédia e Melhor Ator de Comédia (Alan Arkin), além da indicação de Melhor Roteiro (William Rose).

O cinema de arte passa a predominar a programação do cine Belas Artes, organizada pela Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), criada em 1962, para apoiar a Fundação Cinemateca Brasileira. O presidente da SAC, Dante Ancona Lopez (1909-1999), havia selado um acordo com a Cia. Serrador, pelo qual se responsabilizava administrativa e artisticamente pelas projeções a serem realizadas na nova sala de espetáculos.

Dante Ancona Lopez era conhecido por trazer o “cinema de arte” a São Paulo (quando fundou o cine Coral, em 17/09/1958, na Rua 7 de Abril, 381) e já havia feito, acertadamente, a mesma experiência de levar filmes alternativos a dois cinemas menores, Scala e Picolino, também em parceria com a Cia. Serrador, razão pela qual as duas partes decidiram levar a experiência a uma sala maior.

Na cerimônia de anúncio a imprensa da inauguração do cine Belas Artes, em 12/04/1967, Dante Ancona Lopez declara:
“Quando começamos a experiência dos cines Scala e Picolino, pensávamos ter que fazer certas concessões ao gosto do público, exibindo fitas que, não sendo meramente comerciais, não tinham padrões excepcionais de qualidade. Atualmente, verificamos que esses filmes já não satisfazem ao público que se acostumou a exigir um alto nível artístico de nossa programação. “A Passageira”, de Munk, que atualmente está sendo exibida naqueles cinemas – e cujo lançamento nos parecia um pouco perigoso – está tendo a melhor das repercussões. O fato é que, em sua tentativa de estabelecimento de um cinema de arte, a SAC foi bem sucedida, o que em muito motivou a decisão acertada da Empresa Serrador de adotar São Paulo de um verdadeiro cinema de arte. Continuaremos, pois a exibir uma programação que tenha grande categoria cultural. As sessões especiais de segundas-feiras, que vem sendo realizadas no Picolino, às 22h30, serão no cine Belas Artes, complementadas por outras manifestações artísticas. Ao invés de se limitarem á exibição de filmes de boa qualidade, que se perderam por lançamentos mal feitos, ou que não disponham de um público convencional, essas sessões serão precedidas de concertos corais e de câmara, recitais, palestras, debates, espetáculos teatrais e coreográficos”.

As apresentações não cinematográficas serviam, também, de complementação a filmes de importância artística que não tinham a duração convencional de 90 minutos ou mais. A ideia era adequar o cine Belas Artes ao lema da SAC: “ESPETÁCULO, POLÊMICA E CULTURA”.

















Já, Fiorentino Llorente, diretor da Cia. Cinematográfica Serrador e conselheiro-fundador da SAC declara, em junho de 1967:
“A decisão da Cia. Serrador, de instalar um grande cinema devotado ao filme de arte, foi ditada pela necessidade de São Paulo ser possuidora de uma sala de grande categoria com programação especial, a exemplo do que acontece em outras cidades do mundo. A experiência feita no Picolino mostrou ser possível a implantação junto ao público de um novo repertório de fitas, graças a um sistema novo de promoções. O filme de arte que, antes, era um verdadeiro tabu para o exibidor, hoje, graças a ação de cinematecas, cineclubes, imprensa especializada, realizadores nacionais, debates e estudos nos meios estudantes, exibidores e distribuidores mais esclarecidos, e até mesmo solicitado por uma plateia em formação e que, em matéria de qualidade artística, é mais exigente. É muito proveitosa a aproximação entre a Cia. Serrador e a Sociedade Amigos da Cinemateca, com sua indispensável assessoria cultural”.

Funcionava no 1º andar do Belas Artes, a secretaria e a biblioteca da SAC, além de uma galeria com exposições permanentes. No hall de entrada, stands com os últimos lançamentos de livros e discos de vinil. Havia, também, um pequeno palco com iluminação e sistema de som, adequados para realizar pequenos espetáculos de teatro, música e dança, além de palestras e conferências.

Os primeiros filmes exibidos no Belas Artes foram: "O Anjo Exterminador", de Luis Buñuel, "A Carroça", de Karel Kachina, "Pedro, o Negro", de Milos Forman, "Os Cachimbos do Adultério", de Voitech Jasny e "O Acusado", de Jan Kadar e Elmar Klos. Devido à grande capacidade de lotação do Belas Artes, as produções exibidas ali não podiam ser só para um público restrito, por isso, eram escolhidos filmes que atendiam os objetivos culturais da SAC e que podiam, ao mesmo tempo, chamar a atenção de um grande público.

Em 07/08/1970, o Belas Artes é dividido em duas salas: a Villa-Lobos (com 630 lugares) e a Cândido Portinari (no local do antigo balcão ou plateia superior, com 508 lugares).






















A terceira sala é inaugurada no subsolo do Belas Artes, em 05/12/1975, com nome de Mário de Andrade. O programador Dante Ancona Lopez procurava utilizar as salas do térreo e do 1º andar para exibir filmes mais populares e reservar a do subsolo para ciclos e mostras especiais.













Em 1981, os fiscais da Prefeitura apontam irregularidades nas salas de exibição do cinema. A Cândido Portinari possuía paredes revestidas de madeira, a Villa-Lobos tinha escadas estreitas e sem sinalização e a Mário de Andrade tinha apenas uma saída de emergência. O cinema permaneceu aberto e teve prazo de vinte dias para realizar as mudanças exigidas.

INCÊNDIO

Um incêndio destrói na madrugada de 10/05/1982, as instalações das duas maiores salas do Belas Artes, primeiro a Portinari, em seguida, a Villa-Lobos. A equipe de bombeiros teve dificuldades de acessar o interior do cinema devido à elevada temperatura, agravada pelas paredes de concreto que impediam a dissipação do calor. O fogo se alastra rapidamente graças aos materiais de fácil combustão existentes no cinema, como poltronas, carpetes, cortinas e isolantes acústicos. Até os projetores foram destruídos. A sala Mario de Andrade nada sofre. Mesmo com salas estando ainda em situação irregular perante a Prefeitura, a perícia conclui que o incêndio teria sido criminoso, pois foram arrombados portas e cofre.


















Na ocasião, os cartazes anunciavam: “Bodas de Sangue”, de Carlos Saura (na sala Villa-Lobos), “Crônica do Amor Louco”, de Marco Ferreri (na Cândido Portinari) e “A Mulher do Lado”, de François Truffaut (na Mário de Andrade).

REABERTURA

O Belas Artes é reaberto para convidados em 01/06/1983 e, para o público em geral, em 02/06/1983, totalmente reformado e, agora, dividido em seis salas, cada uma batizada com o nome de um artista brasileiro. Duas salas no subsolo, Carmen Miranda e Mário de Andrade; duas no térreo (local da antiga plateia, dividida ao meio), Oscar Niemeyer e Aleijadinho; e duas no primeiro andar (local do antigo balcão e sua sala de espera), Cândido Portinari e Villa-Lobos. Cada sala com infraestrutura própria: sala de espera, banheiros e saídas de emergência.










Desta vez, os cartazes de rua anunciavam: “Danton, o Processo da Revolução”, de Andrzej Wajda (Villa-Lobos); “Retratos da Vida”, de Claude Lelouch (Cândido Portinari); “Sargento Getúlio”, de Hermano Penna (Oscar Niemeyer); “Sete Dias de Agonia”, de Denoy de Oliveira (Aleijadinho); “O Desespero de Verônica Voss”, de Rainer Werner Fassbinder (Carmen Miranda) e “Crônica de Amor Louco”, de Marco Ferreri (Mário de Andrade).















O cinema segue com a mesma linha de programação (o cinema de arte), mas com uma nova administração, a distribuidora francesa Gaumont do Brasil Cinematográfica Ltda., que o compra da Cia. Serrador e inaugura o conceito de multiplex na cidade (o primeiro da América Latina). A Gaumont exibiria ali os grandes lançamentos do cinema francês.

Além da grande quantidade de salas, o Belas Artes volta com muitos aprimoramentos: cor das salas, que variavam do verde ao vinho, do cinza ao marrom; poltronas em tecido, com encosto duplo e suporte para cabeça; sistema de som Dolby e equipamentos eletrônicos de projeção (com tecnologia europeia). A reforma geral dura seis meses e custa cerca de dois milhões de dólares.

O cinema é interditado logo após a reabertura, em 15/06/1983, pela Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano e Comissão Especial de Uso e Ocupação do Solo, que analisaram o Código de Edificações e exigiram modificações no prédio, como a retirada de algumas poltronas das salas e melhorias na circulação interna, para uma saída mais rápida e segura do público. Com as mudanças realizadas, o cinema é autorizado a iniciar suas atividades em outubro do mesmo ano. A capacidade do cinema diminui de 1436 lugares para 988.

DECLÍNIO

Em 29/01/1987, o Circuito Alvorada passa a controlar o Belas Artes e exibir filmes mais comerciais. O público fiel, acostumado a uma programação diferente, vai desaparecendo e, nos anos de 1990, o cinema entra em crise e, sem manutenção, suas instalações se deterioram.















A distribuidora e exibidora carioca Estação Botafogo passa a comandar o cinema em 27/07/2001 e o rebatiza como Estação Belas Artes. Retomam a programação dedicada exclusivamente ao cinema de arte, privilegiando clássicos, filmes independentes e nacionais. Lançam excelentes filmes e promovem ciclos de diretores consagrados. O grupo Estação não obteve sucesso em sua administração e anuncia o fechamento do cinema. André Sturm, cineasta e distribuidor, fã declarado do cinema, procura imediatamente os donos do cinema e propõe uma sociedade (um sonho antigo de Sturm).

Em 05/12/2002, o “Viva o Belas Artes”, movimento criado em sua defesa, consegue adiar o fechamento do cinema por mais alguns dias. Nesta data, o cinema exibiria as suas últimas sessões, por isso, integrantes do movimento penduram faixas em frente ao prédio afirmando que o Belas Artes seria um patrimônio público da cidade e, portanto, não poderia fechar. O “Viva o Belas Artes” tinha o arquiteto Roberto Loeb como presidente e a jornalista Sonia Morgenstern Russo como vice.













ESPERANÇA

REINAUGURAÇÃO – CINE HSBC BELAS ARTES

André Sturm, diretor da Pandora Filmes, junto de Fernando Meirelles (cineasta – diretor), Andréa Barata Ribeiro (publicitária – produtora) e Paulo Morelli (cineasta – diretor), ambos da produtora O2, tornam-se sócios do Belas Artes em março de 2003, evitando assim o seu fechamento. Renegociam o aluguel do imóvel e, em dezembro, assinam uma parceria com o banco HSBC, que acrescenta o seu nome ao cinema e dá início a uma reforma total do complexo. “Hoje, com a nova parceria, estou realizando o sonho de viabilizar o projeto com sócios que têm interesses comuns”, diz Sturm.

A reinauguração do Cine HSBC Belas Artes acontece em 28/05/2004, às 20h30, com a superlotação de todas as salas de exibição, que projetavam, simultaneamente, a pré-estreia do filme "O Outro Lado da Rua", de Marcos Bernstein, estrelado por Fernanda Montenegro e Raul Cortês (ambos presentes no evento).














A programação, organizada pelos cineastas Sturm e Meirelles, passa a ser de “cinema de arte” e filmes comerciais de qualidade, mesclados com filmes nacionais, clássicos e outros raros e inéditos no país como, por exemplo, o argentino “Histórias Mínimas” (2002), de Carlos Sorín, exibido na semana da inauguração. “Uma sala para quem gosta de cinema, para cinéfilos radicais, não tanto para quem prefere pipoca e shopping”, explicou Meirelles.

Dentro da programação, entre 6 a 8 filmes em cartaz, havia sempre um brasileiro, além disso, as salas recebiam mostras especiais e, uma vez por mês, o famoso “Noitão”, que exibia filmes na noite de sexta até o início da manhã de sábado (sempre com um filme surpresa). Umas das características da programação era atrair grande quantidade de público para filmes considerados “pouco comerciais”, como por exemplo, o filme francês “Medos Privados em Lugares Públicos”, de Alain Resnais, que ficou em cartaz por cerca de três anos.

Duas reformas, projetadas pelo arquiteto Roberto Loeb e Alexandre Toro (responsável pela comunicação visual), deixam o hall de entrada e os corredores mais espaçosos. Trazem, em cada andar, um lobby com bar e bombonière. No 1º andar, uma janela panorâmica, com bela vista para a Rua da Consolação e no térreo, quatro novas bilheterias (e sem vidros!). Novas tecnologias são instaladas, como novas lentes de projeção e sistema de som mais moderno. É instalado, também, um elevador de acesso para deficientes físicos. Devido às novas poltronas, a capacidade total do cinema passa a ser de 1040 lugares: salas Aleijadinho (154); Cândido Portinari (245); Carmen Miranda (97); Mário de Andrade (88); Oscar Niemeyer (163); e Villa-Lobos (293 lugares).




























Programação de filmes na semana de inauguração: “O Herói da Família”, “O Dia Depois de Amanhã”, “Cronicamente Inviável”, “Quanto Mais Quente Melhor”, “As Bicicletas de Belleville”, “O Outro Lado da Rua”, “Viva Voz” e “Histórias Mínimas”.

O POLÊMICO FECHAMENTO

Em março de 2010, o banco HSBC deixa de patrocinar o Belas Artes. André Sturm, proprietário do cinema, inicia uma mobilização para conseguir novos patrocinadores, pois os valores arrecadados com as bilheterias não são suficientes para manter o complexo de seis salas funcionando. André Sturm, proprietário do cinema declara na época: “Nosso problema é uma equação econômica. Em um cinema de shopping, o aluguel equivale a cerca de 10% do faturamento. Já o nosso, em torno de R$ 60 mil, chega a 25%. As contas não fecham. Da renda de um filme, 50% fica com a distribuidora. Outros 10% vão para os impostos – fora, depois, o imposto de renda, o IPTU...”.

Inicia-se um dramático processo de renovação do contrato de aluguel entre o proprietário do prédio, Flávio Maluf e o dono do cinema André Sturm. Flávio Maluf queria um reajuste no valor do aluguel que, segundo ele, estava muito defasado e Sturm, acertando uma parceria com novos patrocinadores, se compromete a pagar um valor maior.

Mas, em 30/12/2010, às vésperas de assinar um novo contrato de aluguel, Sturm recebe uma notificação judicial para que entregue o imóvel até fevereiro. Sturm havia conseguido o apoio de três empresas dispostas a patrocinar o Belas Artes. Flávio Maluf recusa uma oferta de aluguel acima de R$ 85 mil mensais, com garantia de pagamento por cinco anos (tempo do contrato), mais correção anual.

Em janeiro de 2011, o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) e o CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) abrem processos de tombamento do prédio do cine Belas Artes. Inicia-se uma avaliação sobre a sua relevância no conjunto de edifícios de arquitetura moderna nos anos 1940 e 1950, na caracterização urbanística da área da Rua da Consolação e da Avenida Paulista. Analisando, também, a necessidade de se preservar a arquitetura original do antigo cine Trianon (precursor do Belas Artes), obra de 1956, do arquiteto de origem italiana Giancarlo Palanti (1906-1977). Com a abertura dos processos, o proprietário do imóvel fica obrigado a pedir autorização para qualquer alteração que pretendesse realizar no prédio.

O anúncio do fechamento do Belas Artes desencadea inúmeras manifestações populares, entre passeatas, criação de blogs e páginas em redes sociais, além de abaixo-assinados físicos e eletrônicos com o registro de cerca de 28 mil adesões. Houve, também, manifestação de funcionários do cinema e protestos de cineastas e críticos. Mas, nada disso impede que o Belas Artes feche as portas em 17/03/2011.

André Sturm chega a visitar imóveis no centro da cidade para alugar e abrir um novo cine Belas Artes, mas desiste, acreditando que o processo de tombamento pudesse reverter a situação, mesmo após o fechamento.

Depoimento do cineasta Carlos Reichenbach (1945-2012): “Cada cinema de rua que fecha é o mesmo que uma biblioteca desativada ou uma praça pública depredada. Seja em São Paulo, ou pior ainda no interior, equivale a necrose da artéria da vida social da aldeia. Não vejo paliativos para ‘salvar’ patrimônios culturais enfermos e/ou ameaçados; a solução será sempre extrema. Tombamento já!”.

17/03/2011
AS ÚLTIMAS SESSÕES

O último dia de funcionamento do Belas Artes teve uma programação especial com clássicos do cinema, batizada de “A Última Sessão do Cinema”: “La Dolce Vita” (Federico Fellini, 1960), “No Tempo do Onça” (Irving Brecher, 1940), “O Leopardo” (Luchino Visconti, 1963), “O Joelho de Claire” (Eric Rohmer, 1970), “O Águia” (Clarence Brown, 1925) e “Queimada!” (Gillo Pontecorvo, 1969).  As sessões estiveram lotadas e muitos frequentadores tiraram fotos para guardar de recordação.

Link: “Espírito do cinema sobreviveu à última sessão”, por Luiz Carlos Merten

No dia seguinte, o cinema começa a ser desmontado. Equipamentos das salas de projeção são doados à Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA) e as poltronas de veludo, vendidas. O prédio acaba ficando vazio e fechado por meses e sendo alvo de pichadores.

















O processo de tombamento do prédio do Belas Artes é negado pelo Conpresp (órgão municipal) em 27/09/2011 e, também, pelo Condephaat (órgão estadual) em 28/11/2011, permitindo que o dono alugasse o imóvel. O prédio teve a fachada e o seu interior modificados durante décadas, o que dificultava as chances do chamado tombamento material, muito menos o imaterial, que seria a atividade de cinema do Belas Artes, também de difícil regulamentação.

Mas, em 19/12/2011, a Justiça exige que o processos sejam revistos, acolhendo um pedido do Ministério Público Estadual, que havia sido acionado pelos defensores do cinema. Na decisão, o juiz Jayme Martins de Oliveira Neto e o promotor Washington Luís, da 13ª Vara da Fazenda Pública, afirmam haver indícios de que os órgãos municipal e estadual não observaram “procedimentos necessários e legais ao exame da qualidade cultural do imóvel”. Um novo estudo técnico é iniciado e, mais uma vez, o proprietário é impedido de alugar o imóvel, além disso, a liminar expressava que qualquer alteração e descaracterização do prédio, implicariam em multa de R$ 100 mil por dia ao dono.

O vereador Eliseu Gabriel cria a CPI Cine Belas Artes, aprovada e instalada na Câmara Municipal de São Paulo, em 11/04/2012. A comissão formada por sete vereadores, tendo como relator, o vereador Floriano Pesaro, passa a discutir e apurar a regularidade dos processos de tombamento e a função social do prédio do cine Belas Artes.

Uma grande conquista é anunciada em 15/10/2012: a fachada do cinema e sua entrada (mais o recuo interior de 4 metros a partir da fachada) são tombadas pelo Condephaat. Um grande passo para o possível retorno do cinema, já que a medida dificulta que o dono alugue o imóvel para outros fins. O conselho determina, ainda, que a minuta de tombamento deveria contemplar “elementos na calçada e fachada que remontem à memória do cinema, a fim de garantir o registro permanente da memória”, divulga o Condephaat.

O FESTEJADO RETORNO

A tão esperada volta do cine Belas Artes é finalmente anunciada, na tarde de 28/01/2014. Os atores Alessandra Negrini e Marcelo Médici abrem a cerimônia realizada na Praça da Artes, centro de São Paulo, onde é assinado o acordo entre a Prefeitura de São Paulo, os patrocinadores Caixa Econômica Federal e Grupo Caixa Seguros, o exibidor e programador André Sturm e o proprietário do imóvel Flávio Maluf. O evento conta com a presença de Fernando Haddad (Prefeito de São Paulo), Juca Ferreira (Secretário Municipal da Cultura), Marcelo Araújo (Secretário Estadual da Cultura), entre outros.



































O Belas Artes, que passa a se chamar oficialmente Cine CAIXA Belas Artes, será todo reformado e terá reabertura prevista entre maio e junho. O responsável pela reforma do cinema é o arquiteto Roberto Loeb. Suas instalações serão todas modernizadas e a acessibilidade para portadores de necessidades especiais será melhorada.

Pelo acordo, os recursos dos patrocinadores servirão para manter a programação, enquanto a arrecadação será destinada para pagar o aluguel. A Prefeitura de São Paulo contribuirá com programas culturais associados ao Belas Artes, como o “Escola Vai ao Cinema”, destinado aos estudantes de escolas públicas e privadas, que terão sessões matinais especiais, além de programas que estimulam e ampliam o acesso ao cinema.














Integrantes do Movimento Cine Belas Artes, criado após o fechamento do espaço, estiveram presentes na cerimônia para comemorar o projeto de reabertura do cinema, que terá meia-entrada às segundas-feiras para trabalhadores e programação de filmes privilegiando o cinema nacional e, também, o cinema paulista, exibindo filmes produzidos com os incentivos da SP Cine.

Vamos modernizar e colocar novos equipamentos, mas não mudaremos a programação. O Belas Artes terá a mesma cara com a qual as pessoas estão acostumadas e gostam, disse o diretor e programador do cinema, André Sturm.

Dedico este texto às duas pessoas mais importantes da história deste “templo do cinema”, o criador da identidade cultural do Belas Artes, Dante Ancona Lopez e a aquele que frequentou o cinema na infância e que foi um verdadeiro herói na preservação deste patrimônio cultural da cidade, André Sturm.

Grandes empresários da exibição cinematográfica: Dante Ancona Lopez

Pesquisa, seleção e edição de texto: André Piero Gatti, Carlos Augusto Calil, Hugo Malavolta e Plácido de Campos Jr.

Dante Ancona Lopez
Criador do Cinema de Arte em São Paulo

Dante Ancona Lopez foi uma personalidade cuja marca original se encontra presente até hoje no mercado cinematográfico brasileiro. Uma verdadeira lenda, “seu Dante” - como era conhecido no meio - se manteve em plena atividade profissional por um período superior a seis décadas: não é pouca coisa, se considerarmos que o cinema é uma arte que existe há pouco mais de cem anos. Seu legado para a história do Cinema no Brasil, entretanto, ainda não foi devidamente avaliado.
Dante teve a qualidade de atuar de maneira diferenciada junto aos ramos de distribuição e exibição, o que fez com que ele viesse a se projetar entre seus colegas de profissão. Sua ação pioneira foi decisiva para a formação de um circuito de exibição que fosse capaz de atender a um público mais exigente e crítico em relação à produção fílmica como um todo.
Homem plenamente inserido em seu tempo, Dante sempre se mostrou capaz de se antecipar às transformações do meio cinematográfico e de se adaptar habilmente aos novos tempos. A sua biografia coloca-o como uma referência obrigatória para aquele que esteja minimamente interessado em compreender ou estudar o desenvolvimento da comercialização de filmes no país.
Dante nasceu em São Paulo no dia 16 de junho de 1909. Em 1912, sua família se transferiu para Roma, onde os Ancona Lopez residiram até 1921. Dante: “Moramos lá exatamente por causa das atividades jornalísticas de meu pai, Nicolau Ancona Lopez, que instalou e dirigiu a sucursal de O Estado de S. Paulo. Aí fomos surpreendidos pela Primeira Guerra e ficamos presos lá. A sucursal era instalada no mesmo andar em que morávamos e todo serviço internacional sobre a guerra saía de Roma. Meu pai era italiano. Meus primeiros estudos foram em italiano, fiquei até com sotaque. (1)”
Na volta ao Brasil, concluiu os estudos e iniciou sua carreira profissional no começo da década de 1930, ao trabalhar como publicista (2) na RKO, firma de propriedade dos irmãos Altamiro e Generoso Ponce, que representava aqui o estúdio americano homônimo. Seu primeiro trabalho como programador regular de uma sala se deu no cine Áurea, na rua Aurora.
O conhecimento adquirido no campo da exibição animou-o a concretizar um projeto ousado: a criação do cine Coral em 1951. Este cinema se caracterizou pelo fato de ser a primeira experiência bem-sucedida na implantação de uma sala totalmente voltada para o público amante do chamado film d’art. A iniciativa inovadora do Coral serviu de modelo para a instalação de outras salas de arte pelo resto do país, nos anos que se seguiram.
O Coral, sob a tutela da programação de Dante Ancona, serviu como espaço de divulgação da cinematografia internacional emergente nos anos 1950, onde se pode destacar a geração do pós-neo-realismo italiano e as produções oriundas do leste europeu, entre outras. O Coral se consagrou como um espaço bastante rentável, fato que permitiu ao já veterano programador, após oito anos de atividade, a possibilidade de realizar uma viagem ao redor do mundo com a sua esposa Dona Linda.
Por algum tempo, o Coral também abrigou a sede da Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC), criada em 1962 para apoiar a Fundação Cinemateca Brasileira. Além de Dante Ancona, entre os membros fundadores da SAC encontravam-se o exibidor Florentino Llorente, o produtor Oswaldo Massaini e personalidades e intelectuais como Paulo Emilio Salles Gomes, Francisco Luiz de Almeida Salles, Flávio Rangel, Roberto de Abreu Sodré, Rudá de Andrade e Jean-Claude Bernardet.
As exibições da SAC não se restringiram ao espaço do Coral, também aconteceram no cine Picolino, outra sala programada por Dante. Ele, posteriormente, foi um dos articuladores da ida da SAC para o auditório do MASP. De uma maneira geral, essas sessões obtiveram uma excelente resposta por parte do público. Nos anos 1960, a sessão à meia-noite virou moda e foi adotada por outras salas. A programação da SAC era composta principalmente por filmes poloneses, russos, tchecos, e franceses da nouvelle vague (3). No que diz respeito ao cinema brasileiro, a avant-première de "Barravento", de Glauber Rocha, pode ser considerada um evento memorável no Coral: a abertura, feita por Paulo Emilio, foi uma das raras vezes em que ele comentou publicamente a obra do grande cineasta. Ainda nesta fase, Dante programou o filme "Sacrifício do Ano Novo", de Sang Hu, o primeiro filme chinês distribuído no Brasil.
No final da década de 1950, Dante foi um dos fundadores do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Estado de São Paulo, onde, além dele, figuravam personalidades da cinematografia paulistana como Oswaldo Massaini, da Cinedistri, e Sândi Adamiu, da Paris Filmes.
Como presidente do Sindicato, Dante permaneceu por um período de cinco anos, até 1964. Em seu mandato, enfrentou a disputa entre o Estado de São Paulo e a União pelo controle da censura cinematográfica local. A intenção do governador Carvalho Pinto de criar uma censura estadual - tanto para gerar uma nova fonte de receita quanto para agradar grupos católicos conservadores - resultaria em um aumento dramático nas despesas dos distribuidores e os deixariam à mercê de grupos de pressão política e culturalmente retrógrados. A longa batalha do Sindicato foi decisiva para superar a mentalidade censória daquele momento.
Na década de 1960, outras importantes salas de exibição foram trabalhadas por Dante: Picolino, Scala, Trianon. Este último cinema seria transformado naquele que certamente foi a realização de maior peso do decano programador: o lendário cine Belas Artes. Aberto ao público no dia 14 de julho de 1967, o Belas Artes - a mais ampla sala de filmes de arte da América do Sul, com seus 1200 lugares -, se tornou caudatário natural da efervescência cinematográfica daquele período e se converteu em uma referência de amplo alcance. Por sua vez, o antigo cine Scala passou a se chamar Belas Artes Centro, sendo que ambos os Belas Artes recepcionaram as sessões organizadas pela SAC.

Cine Belas Artes (1971) - Foto de Antonio Lucio (Agência Estado)
Dante também veio a trabalhar, nos anos 1980, na consolidação de um pequeno circuito de filmes de arte composto basicamente por três salas, o Cinearte e os dois Arouches. Entretanto, estas salas não chegaram a ter a mesma repercussão que o Coral e o Belas Artes, devido à crise que se abateu sobre a exibição cinematográfica como um todo.

Cine Belas Artes (1981) - Foto de Francisco Magaldi (CCSP)
Como programador, a última sala que contou com os préstimos de Dante foi o Cineclube Elétrico, entre 1991 e 1992. Ele se retirou definitivamente de suas atividades profissionais aos 83 anos de idade, falecendo no dia 30 de dezembro de 1999, em São Paulo.
(1) BENDER, Flora C. A scena muda. São Paulo, tese apresentada à FFLCH/ USP, 1979. p. 375. Vol. III.
(2) Naquele tempo, a função do publicista era a de se dedicar à difusão e divulgação dos filmes das distribuidoras junto aos órgãos de comunicação e agências de publicidade. O publicista também funcionava como a pessoa responsável pelas relações públicas da empresa, tarefa que o obrigava a manter contato com os vários segmentos do comércio cinematográfico, mas não somente. Portanto, tratava-se de um trabalho de grande responsabilidade para um moço de vinte e poucos anos. O que lhe conferiu esta posição foi a sua experiência durante o lançamento de algumas salas de exibição, como os tradicionais cines Rosário e Alhambra.
(3) A pré-estréia de "O Ano Passado em Marienbad" foi precedida de uma grande cobertura pelos jornais da época e contou com a presença de Alain Robbe-Grillet, co-roteirista do filme.
Texto extraído do site do Centro Cultural São Paulo.
O cine Coral
Dante Ancona Lopes idealiza em 1958 o cine Coral, “que vinha para atender um público que não ficava satisfeito com o filme de todo dia, aquele cidadão que não quer feijão com arroz todo dia” (depoimento de Dante à Divisão de Pesquisas, em 25/6/1982).
O Coral, no centro da cidade, se transforma em pouco tempo no ponto de encontro de uma platéia ávida por emoções cinematográficas menos convencionais. Lá são exibidos filmes de Antonioni, Fellini (“A Doce Vida” fica meses em cartaz), “Os Incompreendidos” de Truffaut, “O Ano Passado em Marienbad”... pautando sua programação com títulos que os exibidores geralmente rejeitavam sob argumento de prejuízo certo. Dante: “Eu construí o Coral num terreno onde existia o depósito de um jornal do Rio chamado A Noite, e o terreno era do Dr. Sacramento. Eu aluguei o terreno por dez anos e construí, assumindo o compromisso de no prazo acertado entregar tudo que tivesse construído para ele. Meu plano era amortizar a construção em quatro anos e eu aproveitaria o resto dos seis para mim, mas eu amortizei a construção em apenas dois anos. Quer dizer, a programação foi boa e o público correspondeu. Depois usei mais cinco anos e acabei vendendo o contrato para o Valanci (exibidor carioca) porque resolvi que ia viajar com a minha mulher pelo mundo”.
Quando Dante Ancona Lopes abriu o cine Coral para atender a uma clientela cinematográfica que se encontrava órfã diante da programação dos cinemas da Capital. Tinha claro para si inúmeras possibilidades inexploradas no circuito comercial, justamente pela falta de ousadia de outros empresários, ou em outras palavras, pelas deformações impostas e cristalizadas ao longo de décadas de convivência com platéias dóceis e praticamente formadas a partir de uma única fonte de filmes de Hollywood, através dos distribuidores americanos e associados nacionais. O Coral exibiu Fellini, Antonioni, Resnais, Truffaut, entre outros, e superou todas as expectativas, inclusive as do seu idealizador. A resposta do público foi um sinal eloqüente a confirmar a existência de faixas de público a serem sensibilizadas por uma programação cinematográfica mais variada e sofisticada.
Depois do sucesso do Coral, o nome Dante Ancona Lopes ficou ligado aos cinemas de arte da cidade. A Serrador vai convocá-lo para recuperar o cine Picolino e, posteriormente, para conceber o Belas Artes - a sala de maior prestígio na cidade pela sua programação e localização na esquina da avenida Paulista com a Consolação. Com a venda do Belas Artes para a Gaumont do Brasil (sucedida pela Alvorada), Dante se estabelece no Cinearte (no Conjunto Nacional, na avenida Paulista).
Textos do livro “Salas de cinema em São Paulo”, de Inimá Simões - 1990

23/06/2014

O cine Roxy 5 de Santos na Copa de Mundo 2014

Visitei, em 21/06/2014, o cine Roxy 5 no bairro do Gonzaga em Santos. É o último "cinema de rua" da cidade. Encontrei o cinema lotado, decorado com enfeites da Copa do Mundo 2014 e com exibição dos principais jogos.

Tive a oportunidade de conhecer a sala 2 e gostei muito do conforto das poltronas, da qualidade do som instalado e, principalmente, da grande tela.

O Roxy 5 completou 80 anos em 15 de março, possui 5 salas e encontra-se instalado em uma das principais avenidas da cidade.

Endereço: Av. Ana Costa, 433 - Gonzaga - Santos/SP
www.cineroxy.com.br

Fotos : Antonio Ricardo Soriano - 21/06/2014

22/06/2014

As mais belas fachadas dos antigos cinemas de rua da cidade de São Paulo

Broadway (Av. São João, 560 - Centro)

Ipiranga (Av. Ipiranga, 786 - Centro)

Joia (Praça Carlos Gomes, 82 - Liberdade)

Majestic (Rua Augusta, 1475 - Bela Vista)

Marabá (Av. Ipiranga, 757 - Centro)

Marrocos (Rua Cons. Crispiniano, 352 - Centro)

Metro (Av. São João, 791 - Centro)

Nacional (Rua Clélia, 1517 - Lapa)

Opera (Rua Dom José de Barros, 505 - Centro)

Paramount (Av. Brig. Luis Antônio, 411 - Jd. Paulista)

Paris (Rua Barra do Tibagi, 657 - Bom Retiro)

Plaza (Praça Mal. Deodoro, 340 - Sta. Cecilia)

Rex (Rua Cons. Carrão - Bela Vista)

Rio (Rua da Consolação, 1992 - Consolação)

Ritz (Av. São João, 587 - Centro)

Roxy (Av. Celso Garcia, 499 - Brás)

Tropical (Rua Roma, 731 - Lapa)

Ufa-Palacio (Av. São João, 407/419 - Centro)

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Informações e fotos sobre estes e outros lindos cinemas de rua, você encontra no Banco de Dados do blog.
Em breve:
As mais belas fachadas dos antigos cinemas de rua do litoral e interior de São Paulo

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