8 de jun de 2015

Paissandú, um cinema que merece ser restaurado

O cinema localizado no Largo do Paissandú, 60 (Centro) foi inaugurado em 19/12/1957. Em seu grande hall de entrada havia um painel, em afresco, com 15 metros de extensão, representando danças típicas nacionais, como "Bumba meu Boi", "Candomblé" e "Fandangos".



A sala de espera tinha 900 m2, onde luzes suaves, ar condicionado, poltronas confortáveis, música em alta-fidelidade e decoração elegante, completavam um ambiente acolhedor para o público. Nesta sala havia, também, um painel de mosaico representando a lenda da "Nau Catarineta" com 12 metros de extensão. Neste ambiente, duas amplas escadarias de mármore levavam ao centro da plateia. Dois elevadores e duas escadarias levavam às salas de espera dos dois "pullmans" superiores, também, adequadamente decoradas com painéis de mosaico representando a "Congada" e o "Frevo", com lambris de madeira, espelhos e material cerâmico.
A enorme sala de espetáculos, com capacidade total para 2196 lugares, era totalmente revestida em material acústico e suas laterais eram decoradas com painéis representando cavalos estilizados galopando, de autoria de Jean Bosquet.

Neste cinema foi introduzida uma inovação interessante com respeito à cabine de projeção, que era localizada dentro das vigas que sustentavam o 1º "pullman", no centro da sala de espetáculos, ficando eliminado, desta forma, o facho de luz que geralmente ficava muito baixo e próximo dos expectadores do 1º "pullman".

A partir de 12/02/1973, o cinema é dividido em duas salas, Independência e Império. Depois, em 23/12/1994, transformado em bingo e cinema.

Seria interessante analisar as atuais condições deste cinema, que está fechado há muito tempo e verificar se ainda possui parte das características descritas no texto acima. A localização do cinema é ótima e o seu valor histórico e cultural é incalculável. Ele fica, inclusive, bem próximo dos cines Olido e Marabá (ambos reformados e em funcionamento) e de outros cinemas que ainda podem ser restaurados, como o Art Palácio, Marrocos e Ipiranga. Além disso, o acesso ao cinema é bastante facilitado, pois há um terminal de ônibus bem em frente.

A esperança de reativação e restauração deste cinema está na iniciativa privada ou no tombamento por seu valor histórico. Já temos bons exemplos aqui em São Paulo: Cine Livraria Cultura, Caixa Belas Artes e as salas do Espaço Itaú de Cinemas. 

É importante que a Prefeitura de São Paulo melhore cada vez mais esta região, tirando de lá os mendigos, drogados e moradores de rua, disponibilizando uma quantidade maior de policiais. 

Quem sabe em um futuro próximo não possamos visitar e apreciar uma nova Cinelândia Paulistana. Não custa sonhar!

Texto e fotos da Revista "Acrópole: arquitetura, urbanismo e decoração" (1958) com inclusões e opiniões de Antonio Ricardo Soriano. Fotos: José Moscardi.

20 de mai de 2015

O Odeon, no Rio de Janeiro, reabre renovado e cheio de atrações

Por Gustavo Leitão, para o portal Filme B.

Nesta quarta-feira, dia 20, o histórico cinema Odeon, na Cinelândia, ressurge novinho em folha. Depois de investimentos de R$ 1,5 milhão, o espaço inaugurado em 03/04/1926 volta ao circuito carioca com nova tela, sistema de refrigeração renovado e equipamentos digitais de ponta. Com a reforma, entra em marcha também uma nova proposta para a programação, que vai apostar em múltiplas mostras e eventos. “Vai ser uma grade totalmente fragmentada, como o lugar pede”, adiantou ao Filme B o recém-anunciado diretor de programação, Sérgio Sá Leitão.



A volta do Odeon põe fim a um período de incerteza que marcou os últimos anos do cinema. Derradeira “catedral” do período áureo da Cinelândia, um pólo de lendários espaços de exibição como o Pathé, o Rex e o Vitória, o lugar passou a ser gerido em 2000 pelo Grupo Estação, que mantinha uma programação regular, mas nem sempre com ocupação expressiva dos 550 assentos, além de sediar ali as sessões de gala do Festival do Rio. Depois de uma longa crise financeira e o acúmulo de dívidas (hoje sanadas com o patrocínio da NET), o Estação acabou devolvendo o espaço às mãos do proprietário, o Grupo Severiano Ribeiro, em junho.

O Grupo Severiano Ribeiro aproveitou a proximidade dos festejos de seu centenário, em 2017, para recuperar o Odeon e modernizar suas instalações, que sofriam com a falta de manutenção. Foram quatro meses de reformas, que incluíram a revisão dos sistemas elétrico e hidráulico e a instalação de dois projetores digitais 2K e sistema de som 7.1. Um novo projeto de iluminação criado pelo designer Jair de Souza e inspirado na belle epóque completou a decoração. Para fechar o clima retrô, foram convocados lanterninhas uniformizados.

Inauguração será com "O Vendedor de Passados"

A sessão inaugural para convidados será com "O Vendedor de Passados", de Lula Buarque de Hollanda, com a presença do protagonista Lázaro Ramos. O público poderá frequentar o agora rebatizado Centro Cultural Severiano Ribeiro a partir do dia seguinte (21/05/2015), com a Mostra Primeira Mão, de pré-estreias.
A programação de filmes inéditos dura até junho, com títulos como "O Mistério da Felicidade", novo longa de Daniel Burman ("O Abraço Partido"), "Segunda Chance", de Susanne Bier, e "O Amuleto", dirigido por Jeferson De. O primeiro pacote de filmes se encerra com uma sessão fechada para convidados do documentário "Cauby - Começaria Tudo Outra Vez" e uma extensa mostra de cinema negro do Brasil, África e Caribe. “Queremos buscar o exclusivo, o diferente”, explica Sérgio, que leva na bagagem a experiência como presidente da RioFilme e secretário de Cultura do município.


Cinema volta a integrar Festival do Rio
Entre as novidades de programação já confirmadas, está um cineclube organizado pela PUC, com filmes de estudantes; uma mostra de documentários musicais e outra dedicada ao cineasta Francis Ford Coppola; as sessões LGBT, que já vinham ocupando esporadicamente o cinema; e uma seleção estilo “repescagem”, com produções que tiveram carreira recente (e às vezes curta) no circuito. O Odeon também volta a integrar os circuitos do Festival Varilux de Cinema Francês, do Anima Mundi, e – rufem os tambores – do Festival do Rio.
A diversidade de títulos e de públicos-alvo foi uma estratégia para contornar os desafios de administrar um cinema de rua em tempos de multiplex de shopping e encolhimento dos circuitos de arte. Além de ser um espaço de exibição à moda antiga, com grande número de cadeiras e mezanino (que agora será usado só nas sessões com alcance mais amplo), o Odeon fica em pleno centro do Rio, que tem um perfil de público às vezes enigmático.
Espaço terá preço promocional aos fins de semana
Uma das conclusões a que os organizadores chegaram é que, diferentemente do circuito tradicional, o fim de semana ali, sem o movimento normal de trabalhadores da região, precisa ter preços mais baixos para justificar o deslocamento. “Teremos ingressos a R$ 24 a versão inteira e R$ 12 a meia de segunda a sexta. Aos sábados e domingos, os preços caem para R$ 18 e R$ 9”, diz o programador. Sérgio Sá Leitão vai experimentar uma linha de títulos infantis aos fins de semana, a começar por uma seleção de produções da Blue Sky, estúdio de animação do brasileiro Carlos Saldanha, como forma de atrair as famílias que circulam pelos centros culturais da área.
Outra nova aposta para arrebanhar um público novo é o conteúdo alternativo, transmitido por satélite. O espaço foi preparado para receber sinal de eventos esportivos, espetáculos de ópera e balé e outros materiais. Uma parceria com a distribuidora especializada Cinelive vai garantir atrações como a final da UEFA Champions League, que será exibida ao vivo no dia 6 de junho. 
No segundo semestre, uma filial da cafeteria Starbucks passa a funcionar no espaço, no lugar do Ateliê Culinário que marcou a gestão do Estação.
Uma breve história do Odeon em fotos, vídeo e imagens:


19 de mai de 2015

Grandes empresários da exibição cinematográfica: Francisco Serrador

Por Antonio Ricardo Soriano

Francisco Serrador Carbonell teria nascido em Valência, Espanha, em 08/12/1872, segundo o seu passaporte, ou em 1876, conforme o alistamento eleitoral da cidade de São Paulo. Imigra para o Brasil em 1887, fixando-se primeiro em Santos, onde foi operário braçal. Depois segue para Curitiba, trabalhando como vendedor ambulante de peixes e frutas. Seus negócios crescem e de vendedor ambulante, passa a dono de quiosques. Associa-se a outro compatriota, Manuel Laffite Busquets, na 1ª agência de mensageiros do Paraná, e a Antônio Gadoti, para a abertura de uma cancha de frontão (tradicional jogo basco), o Frontão Curitibano. Essas primeiras sociedades já mostravam que Serrador tinha uma qualidade que o acompanhará até o fim da vida: a capacidade de convencer pessoas a investirem em seus projetos.
O gosto pelos esportes, aliado ao faro comercial, levaram-no ao ramo das diversões. Começa arrendando circos e promovendo touradas. Em 1902, os três sócios fundam o Parque Coliseu Curitibano, um parque de diversões com rinque de patinação, carrossel, tiro ao alvo, teatro de variedades e, em 1904, cinema ao ar livre, com o aparelho Cinematógrafo. A partir desse momento, Serrador passa a prever que o cinema seria a maior diversão do século e uma excelente atividade lucrativa. Em 1905, Serrador compra novos projetores e filmes da Pathé francesa e transforma o Cinematógrafo em uma atividade de exibição ambulante, o Cinematógrafo Richebourg, que passa a circular por muitas cidades do Paraná. No mesmo ano, passa a explorar, também, o mercado paulista, tanto na capital como no interior. Foi assim que Amparo, Campinas, Itu, Mococa, Ribeirão Preto, São Carlos, e tantas outras cidades paulistas, conheceram o cinema. Mas foi a cidade de Curitiba, no Paraná, o grande ponto de partida de Serrador. Lá ele abre mais quatro centros de entretenimento (sempre com o Cinematógrafo), faz amigos, casa-se e tem oito filhos. Mas não era a cidade dos seus sonhos, nem mesmo São Paulo.

Teatro Sant'Ana
Em 1907, Serrador muda-se para São Paulo para se fixar como exibidor cinematográfico. Na capital, o Cinematógrafo Richenbourg foi instalado por um breve período, em 30 de Agosto, no Teatro Sant’Ana (na Rua Boa Vista) para exibir filmes mais longos que os exibidos no “Richenbourg” itinerante que, ao mesmo tempo, passava por vários outros locais de São Paulo, como circos, escolas, salões, etc. As sessões diárias no “Sant’Ana” comportavam de 16 a 19 filmes, divididos em três funções de 5 a 6 películas. Uma orquestra abria os espetáculos com uma grande “Overture” e cada uma das sessões era iniciada por uma parte sinfônica. Ainda no mesmo ano, Serrador aluga o Teatro Eldorado para, também, exibir o “Richenbourg”.


Motivado com o êxito das exibições no Teatro Sant’Ana, Serrador inaugura, em 16 de novembro, o Bijou Theatre, na Rua de São João, sendo o primeiro local da cidade de São Paulo, criado exclusivamente para exibições cinematográficas. Com o sucesso dos Cinematógrafos instalados em vários locais da cidade (Salões Progredior e Sportsman, Grêmio São Paulo, Teatro Popular do Brás, Kinema Theatre, Teatro Colombo, entre outros), Serrador é logo obrigado a reformar e ampliar o Bijou em 1908. Em 1910, inaugura o Chantecler Theatre, na Rua General Osório, nº. 77 e arrenda o Teatro São Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro (seu primeiro investimento no mercado carioca).
Nos três primeiros anos de atividade fixa na capital paulista, Serrador controla cinemas e teatros, totalizando mais ou menos cinco mil lugares (assentos), enquanto seus mais próximos concorrentes detinham de 420 a 750. Serrador possuía uma quantidade muito maior de filmes que os seus concorrentes e sabia agradar os clientes, pois os seus filmes eram ótimos e bem selecionados, com assuntos de alto interesse da população.

A partir de 1907, Serrador passa, também, a produzir as suas próprias películas. Conhece Alberto Botelho, e os dois realizam uma série de cine-jornais, registrando os eventos mais importantes da cidade, para serem exibidos em suas salas de exibição. Depois, no Rio de Janeiro, passa a produzir Filmes Cantantes (filmes que contavam com a participação de cantores, que ficavam atrás da tela e faziam intervenções sonoras). Neste mesmo período, Serrador consegue a exclusividade dos filmes da marca Pathé para os Estados de São Paulo e Paraná, passando a ser, também, um distribuidor de filmes. E para a apresentação de espetáculos variados (teatrais, musicais, etc.) em seus cinemas e teatros, como complemento aos filmes, Serrador funda a Empresa Teatral Brasileira.
Diante do rápido crescimento da Empresa Francisco Serrador, na importação, distribuição e exibição de filmes, seus mais próximos concorrentes entraram em crise, como os cines Radium, de José Balsells, e Íris, de Ruben Guimarães. Em maio de 1911, os cines Radium e Íris abandonam a disputa, sendo incorporados pela renovada e ampliada empresa de Serrador, a Cia. Cinematográfica Brasileira (C. C. B.), desta vez, uma sociedade anônima (mais conhecida como Circuito Serrador). Com ela, Serrador passa a dominar o mercado exibidor paulista. Para firmar esta sociedade, Serrador declara os seguintes bens mobiliários e imobiliários: cinemas (Bijou, Radium e Coliseu dos Campos Elísios, na cidade de São Paulo; Coliseu Santista, em Santos), direitos de arrendamento (Teatro Colombo, em São Paulo e Teatro São Pedro de Alcântara, no Rio), escritório central e estoque de filmes, terrenos (Curitiba e Santos), bens e direitos sobre a Empresa Cinematográfica Íris Theatre. O restante das ações da C. C. B. pertencia a vários empresários de outros segmentos da sociedade, que injetaram dinheiro para que a empresa pudesse crescer ainda mais.
A alta rentabilidade sobre o capital empregado, faz Serrador investir nas praças exibidoras do Rio (a Capital da República e dos seus sonhos) e Minas Gerais. Serrador já havia arrendado o Teatro São Pedro de Alcântara e aberto o cinema Chantecler no Rio de Janeiro, mas na verdade, ele queria o controle das salas da Avenida Central, local da moda e dos cinemas mais freqüentados pela elite carioca. Compra então os cinemas Pathé, Avenida e Odeon, com a emissão de novas ações e emprego de capital.
Em 05/06/1912, em uma reunião de acionistas da C. C. B., é anunciada a compra de quase todos os mais importantes cinematógrafos da Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro, e de quase todos os filmes feitos em todo o mundo (através de exclusividade de exibição). Logo depois, a C. C. B. comprava a Cia. Gomes Nogueira, a maior exibidora de Belo Horizonte e sul de Minas Gerais.
Em 1914, a C. C. B. já tinha 49 cinemas na cidade de São Paulo (Íris, Bijou, Radium, Smart, Ideal, Pathé Palace, Pavilhão Campos Elísios, Teatros Rio Branco, Colombo e Marconi, entre outros) e 180 salas no Estado de São Paulo e pelo Brasil. Através de representantes em Belém, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre, mais de 1000 cinemas recebiam seus exclusivos filmes. Francisco Serrador teria se transformado, e pouco tempo, no maior empresário cinematográfico do Brasil.
Em 1917, acontecem significativas mudanças na C. C. B., que passa a se chamar Cia. Brasil Cinematográfica (C. B. C.), e nessa mudança, Serrador fica, por um período, sem nenhuma sala de exibição em São Paulo, mas ao mesmo tempo, detendo a maioria das ações da sociedade.
Em 1919, a C. B. C., ainda a mais importante empresa do ramo da exibição, com mais de 400 cinemas em todo o Brasil, inicia um projeto chamado Quarteirão Serrador, que seria construído no terreno de um antigo convento, o Convento da Ajuda, localizado próximo ao Teatro Municipal. O projeto inicial era muito ambicioso, por isso Serrador não consegue investidores para colocá-lo em prática. De qualquer forma, o “Quarteirão” acaba sendo construído, mas através de um projeto menor: prédios de oito andares, com cinemas, lojas e salas de escritório (introduzindo os arranha-céus no Rio de Janeiro).
Com a 1ª Guerra Mundial, o mercado da exibição cinematográfica se estabilizou. O mercado só voltou a aquecer quando a C. B. C. inaugura o primeiro cine República, em 1921, na capital paulista. Ele surge como o melhor, mais moderno e mais luxuoso cinema do Brasil e logo se transforma no ponto de encontro da elite da sociedade paulistana. O cinema deixava de ser diversão popular para ser o principal meio de diversão de todas as camadas da sociedade, desbancando os circos, cafés-concerto e teatros.
Em 1922, Serrador viaja para os EUA, para conhecer Hollywood e a Broadway. Estuda o comércio e a indústria do cinema, além de fechar muitos contratos de exibição com vários estúdios cinematográficos. Contando com o apoio financeiro de vários empresários, o Quarteirão Serrador é inaugurado em 23/04/1925, com a abertura de sua primeira sala, a Capitólio, que introduz um novo conceito na exibição cinematográfica brasileira: os palácios de cinema.

 Cines Capitólio, Pathé Palace, Glória, Império e Odeon.
O Quarteirão Serrador, embrião da Cinelândia carioca, possuía quatro cines-teatro: Capitólio (que nos anos 30 passa a se chamar Broadway), Glória (inaugurado em 03/10/1925), Império (inaugurado em 12/11/1925) e *Odeon (inaugurado em 03/04/1926). As salas do “Quarteirão” eram muito luxuosas. Contavam com fossos de orquestra para eventuais espetáculos de teatro e música, poltronas muito confortáveis e pequenos quiosques que vendiam doces e salgados variados, como a pipoca e o cachorro quente (novidades na época). Possuíam funcionários uniformizados com trajes de gala, inclusive os condutores ou lanterninhas (funções inovadoras na época).
Serrador foi um dos primeiros exibidores a trazerem o cinema sonoro para o Brasil. Agora diferente dos Filmes Cantantes, as vozes dos artistas saíam de suas próprias bocas. Em 20/06/1929, Serrador exibe o filme Melodia na Broadway em seu Palácio-Teatro no Rio de Janeiro. Essa película era inovadora, pois utilizava um sistema revolucionário de som sincronizado, chamado Movietone. Foi o primeiro filme totalmente sonoro da Metro e terceiro musical da história do cinema (os primeiros foram O Cantor de Jazz e A Última Canção, ambos estrelados por Al Johnson e produzidos pela Warner Bros.). Também foi o primeiro a ter uma partitura composta especialmente para o filme.
Com a chegada do cinema sonoro, Serrador chega a sonhar com a construção de uma Hollywood brasileira na cidade de Correias, Rio de Janeiro, mas por falta de investidores, o projeto não sai do papel. A maioria das salas de Serrador, também, funcionavam como cines-teatro e davam espaço à emergente Música Popular Brasileira e ao Teatro de Revista.
Em 1940, o espanhol Francisco Serrador recebe a Cidadania Brasileira e inaugura, em 2 de março, o Teatro Serrador. Uma semana depois, um dos seus cinemas é totalmente destruído por um incêndio, o Alhambra. Mas sem desanimar, Serrador inicia, no mesmo local, a construção de mais um de seus sonhos: um luxuoso prédio de 20 andares. Mas, infelizmente, não vê a inauguração do majestoso edifício.



Francisco Serrador morre em 22/03/1941, vítima de uma afecção pulmonar, agravada por arteriosclerose. Serrador recebe muitas homenagens, entre elas, um monumento com o seu busto, fixado na Praça Floriano e uma rua que passa a ter o seu nome.
Serrador deixa a Cia. Brasil Cinematográfica ainda na posição de líder no mercado exibidor brasileiro. Os filhos mantiveram os negócios do pai e finalizaram a construção do Edifício Francisco Serrador. O circuito de salas só sai das mãos dos controladores da empresa em 1978, após mais de seis décadas. As salas do circuito foram compradas por várias outras empresas exibidoras.
No Rio de Janeiro, o local onde se encontra o Teatro Municipal e o Quarteirão Serrador passa, inicialmente, a se chamar Bairro Serrador, para atualmente se chamar Cinelândia.
* Odeon – O cine Odeon volta em 2015 como Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, com programação diversificada, que alterna a exibição de filmes e outros conteúdos audiovisuais, como shows, ballets e óperas, com a realização de cursos, palestras e eventos culturais.



Fontes de pesquisa:
Livro “Imagens do Passado: São Paulo e Rio de Janeiro nos primórdios do cinema”, de José Inácio de Melo Souza - Editora SENAC - 2004
Livro “Crônica do cinema paulistano”, de Marta Rita Eliezer Galvão - Editora Ática - 1975
Livro “Enciclopédia do Cinema Brasileiro” - SENAC - 2004,(capítulo “Francisco Serrador”, escrito por André Gatti)
Livro “Cinelândia – Breve História de um Sonho”, de João Máximo – Salamandra Editorial – 1997
Texto “Francisco Serrador e a primeira década do cinema em São Paulo”, de José Inácio de Melo Souza (Pesquisador da Cinemateca Brasileira)

8 de abr de 2015

Os cinemas do Palacete Santa Helena

Inaugurado em 1925, o Palacete Santa Helena era considerado um dos maiores edifícios de São Paulo, tanto em altura como em área construída. Situava-se na Praça da Sé, no coração da cidade. Destinado inicialmente a atividades comerciais e de serviços, acabou incorporando, no decorrer de sua execução, um luxuoso cine-teatro (e, depois, mais um pequeno cinema no subsolo) - resposta à crescente agitação cultural da cidade naquele início de século.



A partir dos anos de 1930, o edifício abrigaria um grupo de pintores de origem operária que ganhou relevo na arte brasileira - conhecido como Grupo Santa Helena -, entre os quais destacavam Alfredo Volpi, Francisco Rebolo, Mário Zanini, Nélson Nobrega e José Pancetti.

Seus elaborados elementos arquitetônicos exprimem um momento importante de nossa construção civil, com a colaboração de competentes profissionais, engenheiros, arquitetos, artesãos e artistas, muitos deles italianos, em um processo de trabalho ao mesmo tempo moderno e artesanal. Utilizou pioneiramente um novo material, na época ainda importado e muito caro - o concreto armado. O edifício inovou a arquitetura do centro de São Paulo e foi negligentemente demolido em 1971, para dar lugar à Estação Sé do Metrô.


O Cine-teatro Santa Helena (inaugurado em 12/11/1925) ocupava os três primeiros pavimentos do bloco central do Palacete, oferecendo a seus espectadores plateia com frisas no térreo, uma área com camarotes no mezanino e uma galeria no piso superior.

Acesso ao subsolo
Na planta original era previsto um salão de festas no subsolo (sob a plateia); nessa área foi instalado, posteriormente, um outro cinema, o Moinho do Jéca (inaugurado em 22/12/1933), depois Cinemundi (em 05/07/1940).



O cine-teatro era dotado de uma plateia com 27 metros de vão, coberto por uma estrutura semi-elipsoidal, de componentes metálicos. A capacidade da plateia era de 680 lugares; as frisas para 5 assentos eram, em projeto, 24; e os camarotes para 5 assentos eram 30. As acomodações eram, no total, de 950 assentos, sem contar os lugares da galeria superior. Notícias da época dão conta de que a lotação correspondia à ocupação de 1500 lugares: a revista L'Illustrazione Italiana comenta a inauguração do prédio, cujos construtores e arquitetos eram italianos, trazendo várias informações, entre elas, a capacidade do teatro.



O cine-teatro, que não fazia parte do primeiro projeto enviado à Prefeitura, foi incorporado ao projeto inicial logo em seus primeiros modificativos. Esse fato, juntamente com as demais modificações e ampliações por que passou o projeto do Palacete, demonstra a volatilidade dos interesses imobiliários e a crescente agitação cultural de São Paulo nas décadas iniciais do século XX. Nesta época, os paulistanos tinham a curiosidade despertada por um invento recente: o cinematógrafo. O sucesso inicial do cinema foi tanto que já em 1907 se abriu a primeira sala montada especificamente para a exibição regular de filmes - o Bijou Theatre. No primeiro pós-guerra começam a surgir salas mais luxuosas, como o Cinema Central, no Anhangabaú, o exótico Santa Cecília e o próprio Santa Helena, que exibia as maiores produções americanas e realizava vesperais exigindo que os cavalheiros usassem "smoking".


O arquiteto que originalmente idealizou o projeto foi Giacomo Corberi, também responsável pelas primeiras alterações: redesenho da fachada e inserção do cine-teatro. A inclusão do cine-teatro representava um novo patamar para o empreendimento, que ganhava prestígio e tornava-se uma aposta na movimentação cultural de São Paulo, coincidindo exatamente com a Semana de Arte Moderna de 1922. Não apenas o edifício tornava-se multifuncional, de forma pioneira, mas o novo elemento da paisagem urbana destacava-se pelo luxo da decoração prevista e pela modernidade das instalações, que incluía maquinaria de projeção de filmes, ventilação mecânica e todos os equipamentos de bastidor de um grande teatro.

Em relação à decoração interna do teatro e à pintura de seu teto, houve a identificação do responsável, o artista, também italiano, Adolfo Fonzari. Fotos da época revelam o requinte dos detalhes, o apuro da execução e a qualidade técnica das pinturas e elementos utilizados.

Na porta central do cine-teatro foram postas as figuras que representam a Glória e a Fama, anunciando por meio de trompetas a entrada triunfal dos visitantes. O cine-teatro apresentava produções hollywoodianas, além de espetáculos cênicos e musicais.


Fonte de pesquisa :
Informações do Banco de Dados do blog Salas de Cinema de São Paulo e do livro "Palacete Santa Helena: um pioneiro da modernidade em São Paulo", de Candido Malta Campos e José Geraldo Simões Júnior (organizadores) - Editora Senac São Paulo - Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - 2006

5 de abr de 2015

Impressões - O novo CineSesc

Por Alexandre Rodrigues - Cineasta e diretor de cena na Camaleon Films, que me acompanhou e ajudou na cobertura do evento de reabertura do CineSesc. Fotos: Antonio Ricardo Soriano.

"Estou emocionado!". Essa foi a primeira coisa que ouvi de um amigo ao entrar no novo CineSesc.



Somente cinemas de rua podem nos trazer lembranças tão vivas e ricas. A mulher da poltrona, atrás da minha, discutia com as amigas quais foram os primeiros filmes que viram em um cinema. A mulher que propôs a discussão assistiu "A Lagoa Azul". Depois de ouvir o filme dela me peguei curtindo a nova sala.

Tive um grande privilégio, pois entrei com um amigo antes da sessão começar e pude ser um dos primeiros a pisar no novo carpete, sentir o cheiro do couro novo das poltronas, subir ao palco e tocar na tela; eu senti em minhas mãos um pouco das histórias que ali foram contadas.




Andei como uma criança que quer descobrir um novo mundo, mas escondendo as emoções para ninguém julgar, admirando cada detalhe do velho cinema contrastando com o novo.

Sentei nas espaçosas poltronas que não devem em espaço as poltronas da primeira classe da Emirates, tenho 1,82 metros e mesmo com as pernas esticadas ainda era possível passar alguém entre as fileiras sem esbarrar em mim.





Visitei a cabine de projeção e o coração bateu forte, são poucas as salas que podem exibir praticamente todos os formatos. É impressionante ver o velho e o novo, lado a lado.





A projeção e o som me transportaram para dentro do filme. As lágrimas que brotaram em meus olhos não eram por causa de uma cena em especial, mas pelo fato de eu, simplesmente, estar naquele cinema.

Era uma noite especial, festiva, pois era a reabertura do cinema (depois de muitas melhorias) e da abertura do tradicional Festival Sesc de Melhores Filmes. O Alceu Valença exibiu seu filme de estreia como diretor e disse que a sala o fazia lembrar do "seu" cinema Rex, em São Bento do Una (PE).

O CineSesc, com seus grandes festivais e mostras, as descobertas cinematográficas, os debates e palestras, foi essencial na minha formação como diretor. O que já era muito bom, ficou ainda melhor.

Repetindo o que disse Eugenio Puppo, ao receber o prêmio de melhor documentário: "Vida longa ao CineSesc!".

ACESSE O BANCO DE DADOS


BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - AHSP.

Site Cinemateca Brasileira - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929 (de José Inácio de Melo Souza).

Periódico Acrópole (1938 a 1971).

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.