26 de fev de 2015

A estreia de Ao Balanço das Horas em São Paulo

Por Antonio Ricardo Soriano

Homenagem a Gilberto dos Santos (in memoriam).

O musical de rock and roll Ao Balanço das Horas estreava nos cinemas de São Paulo em 19 de dezembro de 1956 em meio a muita confusão. Meu tio Gilberto me contou, por várias vezes, do dia em que assistiu ao filme no cine Carlos Gomes (no bairro da Lapa). Recentemente, acabei achando um anúncio de jornal de 19 de dezembro de 1986 (trinta anos do ocorrido) dentro da capa da trilha sonora do filme que pertencia a ele. O artigo que publico abaixo (na íntegra) é de Ricardo Soares para o Caderno 2, do jornal O Estado de S. Paulo (Fotos de Antônio Lúcio):

Ao balanço dos anos

Hoje faz 30 anos que o filme Ao Balanço das Horas estreou em Sampa e sacudiu uma geração

Por Ricardo Soares

Há exatamente 30 anos - quebrando cadeiras, fazendo fumaça e arrumando encrencas com meia dúzia de policiais - o rock and roll chegava oficialmente a São Paulo fazendo corar quatrocentões e dançar os teen-agers de calça de zuarte desbotada com bainhas dobradas. Naquele 19 de dezembro de 1956, o chique cine Paulista, localizado na Rua Augusta (e mais dez cinemas) estreava Ao Balanço das Horas (Rock Around the Clock) com a participação de Bill Haley e seus Cometas mais The Platters, Tony Martinez, Freddie Bell e outros.



A confusão da estreia ficou por muitos anos na memória da cidade e do então governador Jânio Quadros, que proibiu terminantemente (termo dele) quaisquer manifestações do público que fosse assistir ao filme - proibido, em seguida, para menores de 18 anos. Resultado: a polêmica ganhou as páginas dos jornais, mesas de bares e salas de jantar de famílias de classe média.

Em São Paulo, como em qualquer parte do mundo, o rock chegava sob o signo da transgressão. A cidade também assistia em seus cinemas A Sereia dos Mares do Sul, com Virginia Mayo e Suplício de uma Saudade, com William Holden e Jennifer Jones. No teatro, as sensações eram Gata em Teto de Zinco Quente, de Tenessee Williams, com Walmor Chagas, Cacilda Becker e Ziembinski, e Um Deus Dormiu lá em Casa, de Guilherme Figueiredo, com Tonia Carrero e Paulo Autran. Arnaldo (Titãs) Antunes, Paulo (RPM) Ricardo e Renato (Legião Urbana) Russo mal pensavam em vir ao mundo.

No entanto, as atenções da moçada entre 14 e 18 anos estava toda voltada para os cartazes e anúncios de jornal, que diziam: "Ouçam quatro orquestras maluquíssimas executando o ritmo selvagem do rock and roll. Este é o filme cuja música alucina!". Seguindo à risca o conselho, eles se alucinaram. Gastaram o Cascolac de suas casas, dançando ao ritmo do rock e, contradizendo as notícias que decretavam a morte desse gênero musical, passaram o gosto para seus filhos e (pasmen) netos.

A jornalista Cecília Thompson, 50 anos, lembra-se bem daqueles dias. Recorda que o cine Paulista era todo decorado com cadeiras listradas de vermelho e preto (homenagem ao quarto centenário de São Paulo, comemorado dois anos antes) e apesar de considerar, naquela ocasião, que "rock era coisa de garotada" foi assistir ao filme. Militante de esquerda e noiva do dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, com quem depois se casou e de quem se separou, ela acreditava que o rock era apenas "criação do imperialismo ianque". Mas viu o filme e gostou.



Diva Maria Carvalho, 46 anos, mãe de Cláudio e Stefano (22 e 20 anos) também assistiu, bateu palmas e dançou. Desde o início
sempre achou que o rock vinha para ficar, e hoje não reclama quando os filhos ouvem em alto volume os acordes dos Dire Straits, Sting, Quiet Riot, Rolling Stones ou os bons e velhos Beatles. Os meninos são ecléticos em matéria de rock e a mãe nada tem contra: "Eu fui como eles" - confessa Diva, eterna apaixonada pelo topete daquele ex-caminhoneiro do Tennesse: Elvis Presley.

O rock, estranha fusão da música negra com a branca, tem história e origens apontadas em vários sentidos. Há inclusive os que dizem ter ele nascido na Grécia há 2500 anos, segundo conta um mofado recorte de A Tribuna de 22 de junho de 1958. Naquela ocasião, o professor Matias Boss, catedrático de história grega em Bonn, Alemanha, garantia ter chegado ao embrião do rock and roll depois de examinar antiquíssimos papiros. Ele se chamava Karax, era dançado de maneira semelhante e, ao mexerem com o quadris, os jovens gregos entoavam: "Levantai as pernas bem altas no ar e rebolai com muita força".

Grego ou negro, o que importa é que o rock veio para ficar. Seu início foi oficialmente identificado por esses acordes quase ingênuos: "One, two, three o'clock, four o'clock rock..." repetidos infinitas vezes, a partir de maio de 1954, por um músico branco, de talento questionável, gordinho, com pouco jogo de cintura e que morreu completamente careta, em 9 de fevereiro de 1981, em Harlingen, Texas, aos 55 anos. Seu nome: William Bill John Clifton Haley. O Bill Haley e seus Cometas.


Polícia interrompe sessão do filme, devido à algazarra promovida por jovens na sala. Proibidos de dançar, os jovens gritavam, xingavam e soltavam bombinhas - 20/12/1956

O jornalista Antonio Carvalho Mendes, 53 anos, não assistiu a Ao Balanço das Horas, há 30 anos, mas sempre foi um rock and roller, apesar da aparência sóbria. Responsável, no Estado de S. Paulo, pelas colunas Cinofilia, Cartas dos Leitores, Idéias em Debate e Necrologia, ele se recorda muito bem da confusão de dezembro de 1956. Mas não assistiu ao filme porque seu ídolo, Elvis Presley, não aparecia. Toninho, como é carinhosamente chamado pelos amigos, adora o ex-caminhoneiro do Tennessee, cantando Kiss me, Kiss me, Kiss me. E mais: quando o Queen veio ao Brasil ele estava na plateia batendo palma e pedindo bis.

São 30 anos em que São Paulo mudou e ficou de pernas para o ar. O rock errou? pergunta hoje Lobão. Pela vendagem dos discos, e pela sucessão de gerações que dançaram e ainda dançam nos cinemas ou danceterias da cidade, parece que ele cresceu, teve filhos e passa muito bem, obrigado.

Acervo Caio Quintino

Um presente de Natal para os leitores do blog 
Salas de Cinema de São Paulo!
Obrigado Caio Quintino por autorizar a publicação dessas 
lindas e raríssimas fotos.
Um ótimo Natal e um Ano Novo cheio de paz e saúde a todos!

Clique nas fotos para ampliá-las.

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10 de fev de 2015

Cinesala: o tradicional cinema de rua do bairro de Pinheiros

Por Antonio Ricardo Soriano

No mesmo endereço do Cinesala (Rua Fradique Coutinho, 361), funcionava o cine Fiammetta, inaugurado em 12 de julho de 1962, com o slogan "O CINEMA ELEGANTE DE S.PAULO". O primeiro filme exibido é "Esse Rio Que Eu Amo", com direção de Carlos Hugo Christensen, roteiro de Millôr Fernandes e, no elenco, Jardel Filho, Odete Lara e Tônia Carrero.


















Já nos anos de 1980, o antigo Fiammetta exibia apenas filmes pornográficos. 25 anos depois de sua inauguração, o cinema é arrendado pela Cia. Cinematográfica Franco-Brasileira, que o reinaugurava em 27 de dezembro de 1987, com o nome Studio ABC e o slogan "SEMPRE OS MELHORES FILMES".


O cinema passou a exibir filmes clássicos como "Quanto Mais Quente Melhor" (de Billy Wilder), "A Viúva Alegre" (de Ernst Lubitsch), "Uma Noite na Ópera" (dos Irmãos Marx) e "Casablanca" (de Michael Curtiz). A ideia do proprietário e exibidor Roberto Valansi era conquistar um novo público e transformar o espaço em ponto de encontro dos cinéfilos. O Studio ABC ganhou nova pintura e poltronas (436 lugares). O ambiente era simples, mas agradável, bem no gênero "cineclube".


Em junho de 1988, a Cinemateca Brasileira arrenda o cinema ao preço equivalente a 20% da bilheteria ou aluguel mínimo de Cz$ 100 mil (reajustável semestralmente). Passou a ser um espaço próprio que há anos era almejado, para que a Cinemateca pudesse estender suas atividades, tradicionalmente restrita aos campos da pesquisa, preservação e restauração de filmes.

O cinema passa por uma grande reforma, patrocinada pelo antigo Banco Nacional, já que as instalações do antigo cine Fiammetta estavam bem danificadas, incluindo sérios problemas de refrigeração e no telhado. O projeto de restauro, do arquiteto Walter Ono, recuperou as características originais do edifício, próprias do estilo dos anos de 1960, como colunas revestidas de vidrotil e paredes com tijolos de vidro. Os projetores foram trocados e adaptados para filmes mudos, com a inclusão de uma cabine para tradução simultânea. No saguão de entrada, cafeteria e livraria, além de monitores de vídeo (que exibiam imagens raras do acervo da Cinemateca) e um gongo para avisar o início das projeções (como nos antigos cinemas).

O então diretor executivo Carlos Augusto Calil afirmou na época: "A Cinemateca não teria como viabilizar a reforma do antigo cine Fiammetta caso dependesse de financiamento público". E disse mais: "Se depender de recursos governamentais, a Cinemateca paralisa suas atividades".



Com a abertura da sala, a Cinemateca Brasileira dava mais um passo rumo ao efetivo cumprimento de sua missão, nas palavras de seu sócio-fundador Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977): "Transformar a cidade de São Paulo no principal centro de irradiação da cultura cinematográfica do Continente".

A inauguração da Sala Cinemateca, em 10 de março de 1989, coincidiu com o 40º aniversário da sessão inaugural (em 10/03/1949) da Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo, acervo de filmes do Clube de Cinema de São Paulo (futura, Cinemateca Brasileira), fundado em 1940. O filme inaugural da Sala Cinemateca é o mesmo da inauguração da Filmoteca do MAM: o clássico mudo "A Paixão de Joana D'Arc/La Passion de Jeanne D'Arc" (França, 1928), do dinamarquês Carl Theodor Dreyer, só que desta vez uma versão restaurada pelo Danske Filmmuseum, a cinemateca dinamarquesa. 



A Sala Cinemateca exibe na primeira semana, uma mostra inaugural de cerca de 60 filmes raros e inéditos, entre eles: "Sodoma e Gomorra" (Inglaterra, 1922), de Michael Curtiz (cópia restaurada em 1987 pelo Ostereiches Filmarchiv, a cinemateca austríaca); a primeira exibição de "Fronteira das Almas" (Brasil, 1989), de Hermano Penna; a pré-estreia de "Mississipi em Chamas" (EUA, 1988), de Alan Parker; a estreia nacional de "Corações em Luta" (Alemanha, 1920), de Fritz Lang (considerado perdido, até que em 1986, teve uma cópia identificada nos arquivos da Cinemateca Brasileira).

Nos anos de 1990, a sala se torna um tradicional ponto de encontro de cinéfilos interessados em assistir os clássicos do cinema e filmes alternativos, com a opção de serem sócios da Sociedade Amigos da Cinemateca (criada para apoiar a Fundação Cinemateca Brasileira). A Sala Cinemateca encerra suas atividades, neste endereço, em 21 de agosto de 1997, com a Mostra "Homenagem aos 25 anos do Festival de Cinema de Gramado". As sessões passam à ser exibidas na sede da Cinemateca Brasileira, no Largo Senador Raul Cardoso, 207 (Vila Clementino), em 5 de novembro de 1997.

O antigo cinema fica fechado até outubro de 1999, quando passa a ter novos administradores, Leon Cakoff (diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo) e Adhemar Oliveira (do Espaço Itaú de Cinemas). Com a ajuda financeira de uma empresa patrocinadora, o espaço é inteiramente reformado e reinaugurado em 21 de Janeiro de 2000, como Sala UOL de Cinema. A nova sala (com 303 lugares) recebe tecnologia digital, novo sistema de ar condicionado, acesso para deficientes, poltronas para obesos, café com três terminais de acesso grátis à Internet e uma uisqueria. A programação da sala começa com a "Mostra Verão" (com filmes que foram sucesso de público na Mostra Internacional de Cinema de 1999) e com a "Sessão das Onze" (com clássicos e pré-estreias).



Em 2007, com os recursos de uma nova empresa patrocinadora, o cinema ganha nova tela e poltronas, som e projeção digital. A partir de 19 de outubro de 2007, passa a chamar-se IG Cine (agora, com 271 lugares). Inicia sua programação exibindo filmes da 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Sem patrocínio, a sala é reinaugurada, em 4 de julho de 2009, com o nome provisório de Cinema da Vila. No ano seguinte, uma nova empresa passa a ajudar a preservar este tradicional "cinema de rua", um dos últimos "cinemas de bairro" da cidade de São Paulo, que passa a chamar-se Cine Sabesp (com sessão solene para convidados em 16 de junho de 2010).




Adhemar Oliveira, um dos sócios do Circuito Cinearte, rede de cinemas proprietária do Cine Sabesp, declara na época da reinauguração: "ao assinar o patrocínio da tradicional sala de cinema da Rua Fradique Coutinho, a Sabesp reafirma o compromisso com a qualidade de vida da população paulistana e com a produção cultural do cinema, área em que é uma das maiores fomentadoras". Disse mais: "Cada sala de cinema de rua preservada é uma garantia de preservação urbana, ao mesmo tempo em que contribui para a diversidade cultural de nossa gente". Disse também: "Apesar de ser um cinema de rua, com uma só sala, que vai à contramão, temos um público fiel de moradores do bairro e de frequentadores da Vila Madalena".





Em agosto de 2014, o cinema é mais uma vez reformado e modernizado, passando a chamar-se Cinesala Sabesp. Trata-se do primeiro espaço do projeto "Cinesala", criado pelas empresa Raí+Velasco e Cinearte. O "Cinesala" tem como objetivo desenvolver cinemas especiais.

Nesta última reforma, foram recuperados e preservados detalhes da arquitetura original do cine Fiammetta de 1962, como colunas revestidas de pastilhas de vidro e paredes de tijolos de vidro. Na decoração, móveis projetados pelo arquiteto Ruy Ohtake e pelo designer Zanine Caldas. Como novidades, uma sorveteria no hall de entrada e, na primeira fileira da plateia, sofás para duas pessoas.



Cinesala Sabesp tem como sócios: Adhemar Oliveira (do Espaço Itaú de Cinema e Cine Livraria Cultura), Paulo Velasco, Raí Oliveira (ex-jogador de futebol) e Rodrigo Makray.

Em 2015, a Sabesp deixa de patrocinar o cinema que é rebatizado como Cinesala.








Cinesala
Endereço: Rua Fradique Coutinho, 361 - Pinheiros
Telefone: (11) 5096.0585
Exibidor: Circuito Cinearte
Capacidade: 271 lugares
Projeção: digital e 35 mm.
Som: Dolby Digital
Com ar-condicionado, bilheteria informatizada e acesso para deficientes.





Principais fontes de pesquisa:
Artigo "Os 40 anos da Cinemateca, no novo Studio ABC", de Luíza Lusvarghi (Jornal "O Estado de S.Paulo", 10/03/1989).
Artigo "Cinemateca abre nova sala com o filme "A Paixão de Joana D'Arc", de Amir Labaki (Jornal "Folha de S.Paulo", 10/03/1989).
Colaboração de Luiz Carlos P. da Silva em pesquisas de acervos digitalizados de jornais de São Paulo na internet. 
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - AHSP.

Site Cinemateca Brasileira - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929 (de José Inácio de Melo Souza).

Periódico Acrópole (1938 a 1971).

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.