20 de ago de 2015

O cine que me fez perder a cabeça

Por Luiz Saidenberg (Quadrinistaartista plástico e blogueiro)
Olho para minha estante, na sala. Do alto, quatro grotescas faces me contemplam, com seus  grandes olhos e as ferozes bocas, agudos dentes à mostra. As cores são vivas, mas formam um conjunto harmonioso. São cabeças em tamanho natural, máscaras tailandesas, da dança Khon. Que conta sobre o mítico drama Ramayana, ou Ramakyan, a luta de Rama, na sua reencarnação como Shiva, contra as forças do mal.

Quem as fez fui eu, num exercício de ceramista amador. Não só fiz estas, como pretendo fazer outra. Fiz por achar bonitas, raras por aqui, embora tradicionais no ex-reino do Sião, tão distante. Será por isto, mesmo? Por que recorrer a um folclore assim longínquo, sem nada a ver com as tradições brasileiras? Terei perdido enfim a cabeça, para espelhá-la nas destas máscaras?
Mas, não terão nada mesmo a ver, apenas uma caprichosa fantasia? Eu discordo, pois minha relação com essas faces ferozes é antiga. E tem muito, mesmo, a ver com a São Paulo de décadas atrás.
Quando existia um belo cine chamado Santa Cecilia, na Av. Olimpio da Silveira.

Estamos agora no final da década de 50. Casualmente quase, numa tarde de sábado, adentro o Santa Cecilia, sem dar-lhe seu devido valor de - literalmente - templo do cinema. Estou acostumado a frequentá-lo, mas mesmo assim, mais uma vez chamam-me a atenção a mesa central com patas de elefante e as poltronas, com descansa braços elefantinos...
Lá dentro, a verdadeira e antiga influência das minhas futuras máscaras bravias: guardiões tailandeses cercam a plateia, com suas faces de demônios e olhos luminosos, que se apagam gradativamente quando se inicia a projeção. Isto me impressionou fortemente, mas com o tempo perdi a noção da verdadeira imponência e riqueza da ornamentação do cine.
Recuperei-a, deslumbrado, alguns dias atrás. Meu caro Fabio Santoro, cinéfilo inveterado, enviou-me páginas de "A Revista", edição de 1999. Nelas, um texto de Roberto Bicelli sobre duas glórias da velha Pça. Marechal: o Circo Piolim... e o Cine Sta. Cecilia.
E, enfim, as fotos! Maravilha! Emocionado, revi, pela primeira vez em cinquenta anos, os suntuosos salões e plateia de meu cine favorito. Numa exuberância oriental fantástica, um sonho das mil e uma noites, o velho "Santa" voltava à vida. E que vida!

Sobre a plateia, uma abóbada celestial. Estrelas a luzir, como uma noite alucinada de Van Gogh  nos domínios dos marajás moguls, ou no antigo Reino do Sião, que hospedou, num caso verdadeiro, a professora inglesa Ana.
Tudo muito além do que jamais poderia supor nossa vã imaginação, ou nossas pobres lembranças.  Agora, sim, sentimos: que perda absurda, a estúpida destruição do esplendoroso cine, pecado destes que jamais poderão ter perdão.
Então, só mesmo chorando... ou fazendo máscaras exóticas de uma cultura estranha, uma humilde, mas sincera homenagem póstuma ao grande Santa Cecilia.

10 de ago de 2015

Porque lembrar é viver!

Por Priscila Constantino Sales (Historiadora)

Um pouco do que se sabe e um pouco do que se imagina do cinema em Assis (SP).

Território e memória: as cidades se fundem nessas duas topografias. Palco de atuações do trabalho coletivo, das lutas políticas e simbólicas, mas também das mais fascinantes ações imaginativas. Lugar de contradições e vivências, as cidades, mesmos as menores e mais distantes dos centros, tornaram-se também espaços de atuação cinematográfica. Com essas linhas iniciais, convido os leitores para rememorar um pouco da trajetória das imagens na cidade de Assis através das salas de cinema, que tanto fascinaram a população urbana, e que ainda se fazem presente, mesmo que sua arquitetura tenha dado lugar a outras funções e formatos ou desaparecido da paisagem da cidade.



O ato de demolir e reconstruir sentidos para os espaços e memórias do passado é característica dessa mesma modernidade que, ao trazer movimento, velocidade, estímulo e mudança no ritmo de vida, tanto cria vivências como ligeiramente as apaga de nossas vistas. Contudo, essa memória subterrânea da cidade ainda sobrevive por meio de narrativas, que mesmo fragmentadas, dão conta de reviver as mais diversas experiências, das quais o cinema felizmente não se esquiva.

O cinema adentra o início do século XX e rapidamente insere-se no universo da cultura moderna, ao criar uma nova linguagem e se constituir como artefato de intensa comunicação com a população, influenciando decisivamente a forma de perceber e estruturar o mundo. De origem popular, exibido juntamente com narradores, dançarinas, música ao vivo em feiras de atração e parques de diversão, a novidade das imagens em movimento torna-se parte do cotidiano dos grandes espetáculos e ganha seu próprio ritual nas salas de cinema.

No estado de São Paulo, esse universo ganha contornos com Francisco Serrador, grande empresário da exibição cinematográfica que em 1905 organiza a trupe ambulante “Empresa Richabony” e realiza as primeiras exibições no interior paulista. Não temos relatos de que essa trupe tenha chegado ao vilarejo de Assis, mas poucos anos separam a chegada da ferrovia – com seu apito gritante, sua fumaça escura e sua janela que em forma de quadro possibilitava aos passageiros a visão de imagens que rapidamente movimentava a paisagem – e a chegada do primeiro cinema à Assis.



Já na década de 20, o cinema encantou os assisenses, que se aglomeravam em filas para assistir as sessões de filmes. Era o lendário cinema mudo exibido no cine Gato Preto que, após sociedade com a empresa Peduti, tornou-se Cine Theatro Avenida. O responsável pela exibição de alta qualidade era o moderno projetor Holmes distribuído pela empresa Bygthon & Cia., que tinha como “cúmplice” na tarefa de encantar o público, a execução de música ao vivo que ora se davam pelas mãos dos pianistas Célia Valente, Zenite de Almeida e Waldermar Hansted, ora pelas diferentes bandas que se revezavam por trás da tela. Os intervalos para a troca de rolos de fita iluminavam uma plateia atenta: homens e mulheres com trajes de noite, adolescentes e personalidades assisenses. Responsável pela exibição dos maiores sucessos hollywoodianos, o cinema apresentava as comédias de Charles Chaplin, as aventuras de Bang-Bang e as grandes estrelas do cinema que nesse momento se tornavam atrações dos filmes, por intermédio das quais Assis entrava em contato com novos costumes de vestir, falar e se portar. Foi ainda em 23 de agosto de 1930 que o cinema falado, que tanto alarmou o mundo cinematográfico e criou inúmeros obstáculos para a produção e exibição do cinema brasileiro, chegou ao território assisense com o filme "Alvorada do Amor".

Outro cinema importante foi o cine São José, construído pela Empresa Teatral Peduti e que teve seu auge nas décadas de 50, 60 e 70 (quando se esvazia pela democratização da televisão em Assis). A programação se dividia entre os filmes épicos, comédias e faroestes, com destaque para o western spaghetti italiano, que naquele momento alcança amplo sucesso com suas cenas de duelo, nas quais o herói faz justiça com as próprias mãos, e seus recorrentes personagens Django, Sartana, Sabata, Trinity, entre outros. Localizado em ponto estratégico perto do centro da cidade, foi também marcado por intensa sociabilidade ao seu redor. Popular entre a população local, o findar das sessões de cinema nos finais de semana eram marcadas por encontros, amizades, namoros, paqueras e confrontos tão típicos das noites das cidades interioranas.



Nos anos de 1960, o antigo Centro Católico se torna cine São Vicente, que na década de 1980 dá lugar ao atual Teatro Municipal. Localizado na Rua Floriano Peixoto, o prédio leva o nome do Padre Enzo Ticinelli, tendo sido um ponto central de sociabilidade da comunidade assisense, recebendo até mesmo excursões de habitantes das cidades vizinhas para as sessões cinematográficas que depois se aglomeravam na praça em frente do cinema, que contava inclusive com bandas tocando no coreto. Segundo Marcos Barrero, o cine São Vicente tem como maior bilheteria o filme italiano "Dio Come TiAmodirigido por Miguel Iglesias: a fita leva o nome da canção de sucesso da cantora e estrela do filme Gigliola Cinquetti. Quando exibido no Brasil, levou multidões às salas de cinema e na cidade de Assis não foi diferente.





Por fim, temos o cine Peduti (depois cine Regina, atual Cinema FAC), que surge no início da década de 1970, de propriedade da Empresa Teatral Peduti, apresenta como diferencial uma arquitetura luxuosa e moderna, excelente sistema de som e ótima programação. Esbarrando no fenômeno da TV, logo atrairia público intelectual e estudantes universitários e firmaria convênio com o Clube de cinema de Assis.



Podemos notar que as imagens cinematográficas tiveram vida intensa na cidade de Assis, tanto no quesito exibição quanto na conformação da sociabilidade e dos costumes. Notamos também o pouco espaço que tiveram os filmes brasileiros e os que não se enquadravam nas fitas da “moda”. O papel de oferecer espaço a esses segmentos seria desempenhado pelo Clube de Cinema (1966-1983) de Assis, primeiramente dentro da UNESP/Assis e posteriormente na cidade, juntamente com o cine Peduti. O Clube teve como objetivo promover a apreciação e o debate da arte cinematográfica, por meio de projeções, debates, mostras, cursos, ciclos de cinema, trazendo para Assis uma nova forma de recepção no campo da cultura cinematográfica; buscou integrar escolas de Ensino Médio e Fundamental, promovendo ciclos de filmes infantis; trouxe, ainda, nomes importantes, tanto de diretores quanto de estudiosos e críticos de cinema. Os jornais de Assis foram testemunhas dessa agitada movimentação em torno do cinema.

Trezentos e quarenta e sete pessoas assistiram o "M, O Vampiro de Dusseldorf", exibido sábado no Peduti, pelo Clube de Cinema da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis. Após a projeção, cerca de oitenta pessoas ficaram para o debate, que durou quase duas horas - VOZ DA TERRA, 27/09/1967

Hoje, a cidade de Assis conta com o Cinema Municipal Piracaia (Cinema FAC), única sala de cinema de rua da cidade ativa até os dias atuais, o cine Plaza Assis, pertencente ao Grupo Chainça de Cinema, e outras formas fragmentárias de exibição fílmica protagonizada por instituições, associações e amantes do cinema. Este momento que trás outras causas e coisas já é outra história... mas permite dizer que reviver essa memória dos cinemas de ontem nos ajuda a contar muito do cinema de hoje.






Para mais informações:
Arquivo Clube de cinema de Assis/ CEDAP/UNESP-Assis.
BARRERO, M. Assis de A a Z: a enciclopédia do século 1905 2005. 
           São Paulo: L2M comunicação, 2008.
GALVÃO, M. R. E.. Crônica do cinema paulistano. São Paulo: Ática, 1975.
CHARNEY, L.;SCHWARTZ, V. R.(Orgs) O cinema e a invenção da vida moderna. 
           São Paulo: Cosac Naify, 2004.
CHRISTOFOLETTI, R. Assis em Mosaico: caminhos para a construção de uma história. 
           São Paulo: All Print editora, 2009.

Texto publicado na revista Circuito - Publicação Cultural Online.

Foto do Cine Theatro Avenida: Ivani Cury
Foto do cine São José: Kensho Kanashiro
Fotos do Cinema FAC: Antonio Ricardo Soriano (2012)
Outros cinemas não citados no artigo:
Cineminha das Três Porteiras
Cinema da Paróquia da Vila Operária

31 de jul de 2015

Exemplos de preservação dos cinemas de rua pelo Brasil: Cine Brasília - Distrito Federal

Por Marcella Oliveira (para o site GPS Brasília – 16/10/2014, atualizado em 30/07/2015)

A casa do cinema de Brasília

Um dos mais belos cinemas do Brasil, o Cine Brasília quer reconquistar o brasiliense. Palco de avant premières até os anos 70 e anfitrião do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o espaço foi recuperado e apresenta sua melhor estrutura desde a sua abertura, há 54 anos.

Ele está ali, no meio dos prédios da Asa Sul. Às vezes, parece estar esquecido. Mas ao longo de uma semana, uma vez ao ano, fica tão cheio que há quem tenha de sentar no chão. Eventualmente, fica movimentado com mostras, festivais e os chamados filmes clássicos e cults. Há 55 anos o Cine Brasília resiste ao tempo, ao surgimento dos cinemas dos shoppings e mantém uma programação que valoriza o cinema brasileiro e, principalmente, o brasiliense.



O Cine Brasília é o mais antigo da cidade, foi aberto um dia após a inauguração da Capital, um projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. Traz duas características que não são mais vistas nos cinemas atuais: seu tamanho, tem 600 lugares, e sua localização é na rua. Parece mais um teatro do que um cinema. Sua grande sala tem poltronas espaçosas e confortáveis, uma tela de 14 x 6,30 metros, um sistema de projeção digital e também os tradicionais rolos para os filmes em película 35 mm.



Não é simplesmente uma sala de exibição, como as outras da cidade. É um cinema que tem história. “O Cine Brasília é o sobrevivente dos cinemas de rua. Os outros foram transformados em igrejas ou shoppings”, diz Sérgio Fidalgo, coordenador de audiovisual da Secretaria de Cultura, que administra o cinema.

Foi uma das primeiras opções de lazer da nova Capital. Na década de 60, as filas para suas exibições eram enormes. Dividia o público com os já extintos cines Atlântida, Karin e Márcia. Mas foi perdendo espaço com a chegada de inúmeras redes de cinema.




Não fechou as portas por pertencer ao Governo do Distrito Federal. Não tem lucro, seus funcionários são pagos pelo governo, independentemente do movimento. As mostras normalmente têm entrada gratuita. Nos filmes da programação normal, 50% do que é arrecadado vai para a distribuidora e os outros 50%, para o GDF. “Esse valor é muito pequeno, nem dá para quantificar. O ingresso tem um custo baixo e o público ainda é tímido”, revela Fidalgo, referindo-se aos R$ 12 cobrados pela entrada.

Não é um centro de entretenimento. É um ponto de encontro de amigos e amantes da sétima arte. Um público formado por intelectuais, estudantes e quem trabalha com audiovisual. Todos os dias, são exibidas quatro sessões, às 15h, 17h, 19h e 21h. Às vezes, tem apenas cinco espectadores. Outros dias, fica mais cheio. Mas o público é cativo. Muitos se conhecem, chamam o porteiro, o bilheteiro e o pipoqueiro pelos nomes. Um passeio cheio de charme, que sai mais em conta do que outros. O estacionamento é público. O ingresso e a pipoca super em conta.



Rolos

O cinema tem 20 funcionários, que trabalham em escala de plantão. A cada sessão, são dez. Há o porteiro, o bilheteiro, o projecionista, os faxineiros, o lanterninha e a parte administrativa.

Na sala de projeção, por mais que hoje a maioria dos filmes já seja no formato digital, muitas produções ainda usam os clássicos rolos, que chegam nos cinemas em latas. São os filmes em película 35 milímetros. Um filme de duas horas, por exemplo, tem seis latas. Cada lata tem o nome do filme e um número, para não ter erro na hora de juntar as partes.



Há 21 anos no Cine Brasília, o projecionista Carlos Camurça é um dos funcionários que fica atrás daquela janelinha iluminada no fundo da sala, por onde sai a imagem. “Cresci frequentando o Cine Brasília e me apaixonei pelo cinema de arte”, conta.

Camurça diz que o filme digital é mais fácil. “Basta pegar o DVD ou pendrive e colocar no aparelho”, conta. Mas o projecionista destaca que o grande charme está nos rolos de filmes. A emenda é feita no próprio cinema. O projecionista usa um aparelho chamado “coladeira” para grudar um rolo no outro.



Não é um trabalho simples, exige atenção. A emenda tem que ser perfeita para o filme não ficar fora do quadro. Não pode confundir as latas, nem misturar os filmes. Tudo tem que ser muito organizado. Depois, o filme é exibido na tela para saber se está tudo certo com ele. Quando o filme sai de cartaz, as emendas são cortadas e os rolos voltam para as latas.

Do lado de fora, um trabalhador que não é funcionário do cinema, mas faz parte da família do Cine Brasília. O pipoqueiro José de Arimatéia da Silva, conhecido como Ari, chama muitos expectadores pelo nome. Ele está ali há 22 anos. Lembra de quando o cinema era muito movimentado e lamenta que tenha perdido público. “Não consigo entender por que as pessoas não vêm aqui. É um cinema com um clima diferente, falta só o público”, diz Ari, que muitas vezes aproveita para dar uma espiada no filme em exibição.

Programação

Além de sua estrutura, o diferencial do Cine Brasília está em sua programação, que é antagônica à perspectiva das salas comerciais. O fato de ser uma sala do governo não a deixou refém do mercado, ou seja, abre espaço para filmes menos comerciais. Prioriza o cinema produzido em Brasília, o cinema brasileiro mais independente e a boa produção internacional.

“A gente traz um cinema que, de outra maneira, estaria fora da possibilidade do público de ver. As distribuidoras têm dificuldade em emplacar alguns filmes nas salas comerciais e damos espaço para eles”, conta Sérgio Moriconi, responsável pela programação do cinema há oito meses. “O Cine Brasília nunca vai ser igual ao de circuito, mas não elimina filmes comerciais. Não está fechado para um grande potencial de público, mas ele tem que ter um sentido cultural, não ser apenas um caça-níquel”, acrescenta Moriconi.

Se no dia a dia o movimento não é grande, durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro o local fica lotado. É o festival mais antigo do Brasil e o único com programação exclusiva de filmes brasileiros. Neste ano, acontece entre os dias 15 e 22 de setembro.

Para manter o local agitado, outros festivais também são realizados, a maioria com entrada gratuita. Todos os anos, há o Curta Brasília, voltado para produções locais. Outras mostras e festivais, muitas delas em parceria com embaixadas, dão a oportunidade de conhecer o melhor das produções internacionais, filmes que dificilmente ganham espaço em outros cinemas da cidade.




No segundo semestre, a Secretaria de Educação vai resgatar o projeto Escola vai ao cinema, que foi suspenso com a reforma e ainda não retomou. A ideia está ligada à Educação Integral e é uma das atividades para o aluno fazer no contra turno. “É fundamental para criar um público que virá frequentar o Cine Brasília. Retomar o vínculo entre educação e cultura, que nunca deveria ter sido desfeito”, espera Moriconi.

De acordo com o responsável pela programação, também estão articulando atividades na área externa, como feiras e eventos. “Objetivo é atrair a comunidade, o pessoal das quadras vir prestigiar, aproximar as pessoas do cinema”, afirma. “Nosso desafio é fazer o Cine Brasília voltar a ter um público numeroso. Se tivermos uma média de 250 pessoas, já será excelente”, conclui.

Ir ao Cine Brasília é experimentar a verdadeira atmosfera do que é ir a um cinema. Sem a distração das lojas e lanchonetes pré e pós filme, que se tem nos shoppings. É sentar, pegar seu tradicional saco de pipoca e se concentrar na tela. Simples assim.

História

Uma nova Capital não podia ter apenas palácios, ministérios e residências. Era preciso diversão. Junto com a cidade, nasceu o Cine Brasília, inaugurado em 22 de abril de 1960. Os primeiros moradores da cidade frequentavam o local com roupas de gala em noites de estreias cheias de glamour, para seletos convidados. Os filmes eram exibidos ao público em geral somente no dia seguinte.





Desde o início, o intuito da construção do cinema foi incentivar a produção cinematográfica brasileira. Então, em 1965, foi realizada a Semana do Cinema Brasileiro, que dois anos depois passou a chamar Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Em setembro, será realizada sua 48ª edição. Das 47 edições, 39 foram no Cine Brasília, seis foram no antigo Cine Atlântida, uma foi no Cine Karin, uma no ParkShopping e, em 2012, durante a reforma do cinema, foi no Teatro Nacional.

Desde 1975 o cinema não passava por uma grande reforma. Em janeiro de 2012, foi fechado e ficou quase dois anos em obra. Foi reaberto em 11 de setembro de 2013. “A reforma era necessária. Todo ano a gente tinha que maquiá-lo para o festival”, lembra Sérgio Fidalgo.

A fachada de tijolinhos foi mantida como no projeto original, protegidos por um verniz antipichação. As bilheterias deixaram o hall e agora ficam na área externa. Dentro da sala, uma obra do artista Athos Bulcão na parede lateral esquerda foi mantida: um trabalho em relevo em madeira e laminado, em vermelho e amarelo. Os assentos foram trocados por novos. Na lateral direita, onde tinha apenas escadas, há agora uma rampa.

O Cine Brasília foi todo adaptado para atender a Lei de Acessibilidade. Há uma área especial para cadeirantes, poltronas para obesos, rampa com piso tátil, elevador de acesso ao palco e banheiros com acessibilidade. E também foi realizada a troca das instalações elétrica, hidráulica e mecânica, ar-condicionado e controle de incêndio, impermeabilização e instalação de para-raios.

Cine Brasília 
Endereço : EQS 106/107 - Asa Sul  - Distrito Federal
Telefone : (11) 3244.1660

20 de jul de 2015

Caixa Belas Artes comemora um ano de reabertura

No dia 19 de julho de 2014, a Prefeitura de São Paulo, em parceria com a sociedade civil, devolvia à capital paulista um de seus espaços culturais mais simbólicos: o cine Belas Artes – hoje, CAIXA Belas Artes, em decorrência do apoio do patrocinador.
“Há um ano a cidade reabriu um dos seus cinemas mais queridos, e isso não teria sido possível sem a articulação entre Prefeitura e Caixa, e sem o apoio de milhares de pessoas do Movimento Cine Belas Artes (MBA)”, diz Nabil Bonduki, Secretário Municipal de Cultura.

Reinauguração em 19/07/2014 - Foto: Cesar Ogata/SECOM


A reabertura do espaço foi conquistada depois de uma série de negociações que envolveram Secretaria Municipal da Cultura – quando o então secretário era Juca Ferreira, atual Ministro da Cultura –, Caixa Econômica Federal, Movimento Cine Belas Artes (MBA) e o diretor de programação do espaço, André Sturm. No dia, uma multidão de cinéfilos se aglomerou na frente do cinema em clima de celebração.
“Depois de três anos fechado, o desafio era imenso. Foram meses de negociação para chegarmos ao patrocínio e ao acerto jurídico. Faltava o poder público afirmar o valor inestimável do cinema e se unir ao movimento, e isso sensibilizou a Caixa”, explica Alfredo Manevy, diretor-presidente da Spcine que, à época, era secretário-adjunto da Secretaria Municipal da Cultura.
Entre as contrapartidas negociadas com a Caixa e o gestor do cinema estão uma sala programada diretamente pela Spcine, um programa educativo pelas manhãs, além de preços mais acessíveis de ingresso e itens da bombonière. Para Sônia Regina, gerente de marketing cultural da Caixa Econômica Federal, é com sensação de dever cumprido que a instituição celebre o primeiro ano do cine CAIXA Belas Artes. “Para nós, mais do que um espaço de cultura e lazer, o cinema é um símbolo da cidade, um espaço democrático, acessível, com programação de qualidade. Participar deste projeto significa apoiar a promoção da cultura para todos os cidadãos de São Paulo”, declara.
“Eu assumi um compromisso de que a Prefeitura atuaria no sentido de reabrir o Belas Artes. Nós encontramos uma forma muito interessante que é a venda de direitos de nome. Então, foram conseguidos os recursos necessários para viabilizar o empreendimento do ponto de vista econômico e financeiro. Foi uma operação muito bem sucedida”, afirmou o prefeito Fernando Haddad no momento da reinauguração.

Reinauguração em 19/07/2014 - Foto: Cesar Ogata/SECOM


Exatamente um ano depois, 19/07/2015, às 18 horas, todos os atores envolvidos na reabertura do espaço se reúnem para celebrar a data no próprio cinema. Na ocasião, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e o Movimento Cine Belas Artes lançam oficialmente o Conselho de Amigos do Cine Belas Artes (um grupo de 21 conselheiros, entre os quais cineastas, lideranças culturais, autoridades do executivo e representantes da sociedade civil). Uma das missões deste conselho é assegurar a preservação do cinema como patrimônio histórico, cultural e afetivo da cidade.

“Esperamos que o conselho inspire políticas de incentivo a espaços culturais no contexto de uma cidade mais sustentável”, completa Beto Gonçalves, integrante do MBA e um dos conselheiros. Também estão na lista nomes como Eduardo Suplicy, Facundo Guerra, Renata de Almeida e Tata Amaral.

Depois do anúncio do novo conselho, uma placa homenageando à grande mobilização de reabertura é inaugurada no cinema. 

Em seguida, às 19h30, na Sala 4 - Spcine, representantes da Prefeitura de São Paulo, da Spcine, Caixa Econômica Federal e cine CAIXA Belas Artes assinaram a renovação do contrato de patrocínio. Premiado nos festivais de Berlim e Sundance em 2015, a exibição do filme “Que Horas Ela Volta?”, dirigido por Anna Muylaert e estrelado por Regina Casé, encerrou a cerimônia.

Inauguração da placa que homenageia à mobilização de 2014


Inauguração da placa que homenageia à mobilização de 2014

Inauguração da placa que homenageia à mobilização de 2014

Integrantes do Movimento Cine Belas Artes (MBA)

André Sturm, proprietário e programador do cinema abrindo a cerimônia de renovação do contrato de patrocínio com a Caixa Econômica Federal 

Cerimônia de renovação do contrato de patrocínio com a Caixa Econômica Federal

O produtor Fabiano Gullane apresentando o seu filme "Que Horas Ela Volta?", exibido no encerramento da noite festiva

Caixa Belas Artes - Estatísticas
Em um ano, o cinema exibiu mais de 560 filmes, dos quais 97 nacionais e 21 estreias exclusivas. Foram promovidas oito mostras especiais e 11 madrugadas do “Noitão”, com a projeção de 60 filmes, além de 12 “Cineclubes”. “Nosso desejo é dar aos filmes a chance de permanecer mais tempo em cartaz para que encontrem seu público. Sempre em busca de diversidade e originalidade”, afirma André Sturm.
Circuito Spcine de Salas de Cinema
Com 144 lugares, a Sala 4 Spcine/Aleijadinho, programada pela empresa, é um dos espaços do CircuitoSpcine de Salas de Cinema. Com a licitação em curso, o programa prevê a implantação de 20 salas de cinema na periferia e na região central da cidade. “Um circuito de salas de rua em toda São Paulo é fundamental para garantir acesso e diversidade de programação”, conclui Alfredo Manevy, diretor-presidente da Spcine (Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo).
Movimento Cine Belas Artes
Em junho de 2015, o MBA foi agraciado com a Menção Honrosa no Prêmio Milton Santos, que homenageia entidades e iniciativas que contribuem para o desenvolvimento social e cultural de São Paulo. 

* Conselho de Amigos do Cine Belas ArtesConselho inovador vai trabalhar pela preservação definitiva do cine Caixa Belas Artes. Como parte do termo de cogestão entre Prefeitura de São Paulo e o gestor do cine Caixa Belas Artes, o Secretário Municipal da Cultura, Nabil Bonduki, assinou, no dia 16/07/2015, a Portaria nº 050/SMC-G/2015 nomeando os 21 membros do Conselho de Amigos do Cine Belas Artes, composto por representantes da sociedade civil e do poder público, e nomes sugeridos pela Secretaria Municipal da Cultura (SMC), pelo Movimento Cine Belas Artes (MBA) e pelo gestor André Sturm, que também participará do organismo. O MBA espera que o Conselho (proposta inovadora de incentivo á preservação de cinemas de rua pelo Poder Público em parceria com a sociedade civil) inspire políticas de incentivo a espaços culturais no contexto de uma cidade mais sustentável nos pontos de vista econômico, ambiental e cultural.
Objetivos
Zelar pelos valores e princípios fundadores do Belas Artes e assegurar a preservação definitiva do cine Belas Artes como patrimônio cultural, histórico e afetivo da cidade de São Paulo e do Brasil. 
Atribuições
- Acompanhar o cumprimento das contrapartidas ao patrocínio da Caixa, negociadas entre SMC e gestor;
- Formular propostas, projetos e ideias para aprimorar a programação;
- Colaborar para tornar o cinema uma Zona Especial de Preservação Cultural - Área de Proteção Cultural (Zepec-APC);
- Contribuir para integrar o Belas Artes aos projetos de revitalização inclusiva do entorno da esquina da consolação com Paulista, no contexto do futuro Corredor Cultural Consolação/Paulista e do Território de Interesse da Cultura e da Paisagem Luz-Paulista (TICP), previsto no novo Plano Diretor Estratégico de São Paulo;
- Avaliar e efetuar recomendações sobre o funcionamento da sala Spcine e programação educativa;
- Estimular e acompanhar o acesso do cinema a incentivos fiscais, linhas especiais de crédito e programas públicos de preservação e fomento ao cinema de rua e de galeria;
- Promover a integração do Belas Artes ao circuito público e alternativo de cinema de rua e galeria a ser implementado pela SMC na cidade de São Paulo.

Texto redigido pela equipe jornalística do Movimento Cine Belas Artes (MBA).

19 de jul de 2015

Uma cidade é uma escolha - O cine Belas Artes está de volta

Por Afonso Lima 
(Historiador, mestre em filosofia pela PUCRS e escritor)
Fotos: Cesar Ogata/Secom/PMSP

Em 2011, o cinema Belas Artes, de quase setenta anos, fechou as portas por não poder pagar um aluguel de 120 mil reais por mês. Estava sem patrocinadores.

Foram três anos de audiências, coleta de assinaturas, manifestações (umas com cem, outras com cinco pessoas), procura de apoios políticos e, principalmente, incontáveis vezes levando informações que faltavam ao grande público, por exemplo: "como anda o caso?" O exemplo mais dramático, para mim, foi uma audiência na Assembleia Legislativa de São Paulo quando compareceram dois vereadores, um deputado, e apenas eu e mais quatro pessoas do movimento. Pois é, essa cidade, sem espaço público, desencontra.

Várias são as questões que surgiram. Em primeiro lugar, o espaço público, seu planejamento, sua qualidade. As forças conservadoras diziam que as coisas são assim, o mercado determina tudo; é a lógica do “deixa rolar”, uma questão “comercial”. Um secretário afirmou que “agora cinema é em shopping”. As pessoas, isoladas, dentro do apartamento, adoecem, as ruas ficam desertas e violentas.



Obviamente, a questão do patrimônio cultural é a primeira que nos vem à mente. Que valores, modos de vida, que história e identidade queremos preservar. Além disso, a questão de que temos algo que funciona bem, tem um impacto enorme na vida da população e educa/educou várias gerações, algo que sofre com efeitos da valorização do mercado, de modo que precisamos de um gestor público que saiba olhar o caso e pensá-lo. Esse gestor está ausente ou servindo a outros interesses. Com mil explicações, nada podia ser feito. Assustava-me a sensação dos paulistanos de que sempre perdiam.

Uma das coisas mais interessantes a ser analisada aqui é o papel da imprensa. Contamos com o apoio de valorosos jornalistas empenhados em avançar na discussão, mas é óbvio que muitas vezes o impacto de notícias como “tombamento não resolve” e “para reabrir o Belas Artes temos que aumentar o IPTU”, causavam muito mais a sensação de que nada pode ser feito porque nunca foi feito. Outras opções sumiam de vista.

A questão principal – a resolução desse problema como quer a população – pareceu muitas vezes soterrada por um fatalismo que simplificou as questões, causando desânimo e a sensação de que “não adianta mais”. Um exemplo disso é a opção do tombamento, que consta na Constituição como um dos meios de se preservar o patrimônio. A discussão sobre o tombamento é longa, exaustiva. Fomos falando com diversos especialistas e percebemos que não há consenso (tomba-se o prédio, não o uso; neste caso, um passo apenas). Mas existe pelo menos um debate (o DPH foi a favor do tombamento por motivos históricos). Esse debate foi encerrado cedo demais.



Outra coisa que me surpreendeu bastante foi a incapacidade de resolvermos problemas atuais, nossa tendência a nos afundarmos em discussões escolásticas. A impossibilidade de criarmos conceitos complexos para questões complexas. Cada especialista explicava por que não se poderia fazer nada, mas nunca como se poderia fazer algo. O conceito está correto em si, mas no contexto torna-se omissão.

Precisamos repensar urgentemente os conceitos sobre o patrimônio – tudo que o cine Belas Artes significa como memória e cultura viva não podia ser incluído no conceito de patrimônio imaterial para alguns, pois esse seria apenas práticas e não locais; os donos dos prédios tombados preferem deixar que apodreçam a terem que cuidar deles; desapropriação é um palavrão na democracia dos indivíduos solitários (o relatório final da CPI na Câmara foi a favor da desapropriação, a Câmara engavetou). O Conpresp, por exemplo, usou a desculpa de que o melhor seria desapropriar para evitar uma proteção ao imóvel, o que, na prática, acabaria levando ao uso por uma loja ou à demolição. Por outro lado, a Prefeitura dizia que cabia ao Conpresp tombar e, desse modo, também não fazia nada. O Condephaat tombou a fachada (o que evitou que uma loja surgisse ali) e queria destombar. Mudemos os conceitos se eles atrapalham a vida!

A questão mais séria diz respeito à representatividade da suposta democracia. Existem órgãos, representantes e leis, mas o cidadão comum está alienado do poder. Isso explica as manifestações de junho, entre outros fatores. Por sorte esse movimento de concentração tem brechas, políticos abertos, como estes que acabaram intermediando a questão.



Mas o que sentimos o tempo todo é que existem modos de atuar que pensam a cidade em nome dos grandes proprietários individuais - se o mercado imobiliário fala, em geral os políticos, por exemplo, os vereadores "patrocinados" por doações de campanha, abaixam a cabeça (enquanto se ouve que a gestão Kassab gastou 605 milhões em projetos e consultorias). Isso gera a sensação de estarmos perdidos em uma cidade governada por forças ocultas, de isolamento, e, claro, a sensação de que tudo é inútil, de que tanto faz votar ou não. Ou seja, mais abandono.

O Movimento pelo Cine Belas artes participou de reuniões com o secretário Juca Ferreira, que ouviu, dentre várias sugestões a de buscar patrocínio estatal; o cinema, após muita luta e percalços de todo tipo, vai ser reaberto com apoio da Caixa Econômica Federal. Agora, o que ficou provado é que uma boa ideia e paciência podem ter efeito. Cinco ou seis malucos persistentes, em sintonia com milhares, podem mudar paradigmas. É possível pensar junto, e foi uma bela trajetória: contamos com apoios de todas as ordens, políticos, promotores, acadêmicos, jornalistas, artistas, pessoas comuns que mandaram seus e-mails ao Conpresp e apoiaram no Facebook, atraindo olhares. Estamos em processo de construir uma democracia. Vamos fazer uma cidade boa para todos.
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BIBLIOGRAFIA DO BLOG

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - AHSP.

Site Cinemateca Brasileira - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929 (de José Inácio de Melo Souza).

Periódico Acrópole (1938 a 1971).

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Acervos particulares de Luiz Carlos Pereira da Silva, Caio Quintino e Ivani Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.